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Hermeto 90: discos para conhecer a obra do eterno ‘Bruxo’

Relembre álbuns que ajudam a entender música livre, do Quarteto Novo ao último

O "bruxo" Hermeto Pascoal que, agora, lança "Pra Você, Ilza" e é homenageado em exposição em São Paulo

(Pedro Dimitrow/Divulgação)

Hermeto Pascoal, completaria 90 anos nesta segunda-feira (22). Nascido em Alagoas, o compositor, arranjador e multi-instrumentista se tornou uma das figuras centrais da música brasileira. Conhecido por inventividade e virtuosismo sem igual, o albino barbudo que veio de Arapiraca ganhou o apelido de “Bruxo da MPB”.

Sua obra não cabe bem em uma categoria só. Passa por baião, forró, samba, choro, jazz, música de concerto, música experimental e por um vocabulário próprio que ele chamava de música universal. A ideia não era misturar estilos por efeito, mas compor a partir de tudo que pudesse produzir som.

A lista abaixo reúne discos essenciais para entrar na discografia de Hermeto. Não é um ranking definitivo, mas um roteiro de escuta para entender fases diferentes da carreira, do período pré-solo ao trabalho com o Grupo e ao registro final lançado ainda em vida.

1. “Quarteto Novo” (1967), Quarteto Novo

Antes de se consolidar como protagonista, Hermeto já aparecia como força decisiva neste único álbum do Quarteto Novo, ao lado de Airto Moreira, Heraldo do Monte e Theo de Barros. O disco é uma peça-chave para entender a ligação entre música instrumental brasileira, improviso e ritmos nordestinos. “O Ovo”, parceria de Hermeto com Geraldo Vandré, já apresenta uma escrita melódica cheia de deslocamentos.

2. “Hermeto” (1970)

Gravado nos Estados Unidos, “Hermeto” marca a estreia solo internacional do músico e abre a fase em que sua linguagem passa a circular com mais força fora do Brasil. É um disco de formação de identidade: orquestrações, improvisos, texturas pouco usuais e uma relação menos convencional com o jazz. Para quem quer entender por que Hermeto se tornou referência para músicos de várias escolas, este é um ponto de partida obrigatório.

3. “A Música Livre de Hermeto Paschoal” (1973)

Depois da experiência americana, Hermeto volta a gravar no Brasil com um disco que assume a liberdade como método. Vozes, percussões, sopros, piano e instrumentos inventados aparecem sem hierarquia rígida. É uma escuta mais difícil, mas fundamental para perceber como ele transformava a estrutura da canção e da música instrumental em campo de invenção.

4. “Slaves Mass” (1977)

“Slaves Mass” é um dos discos mais conhecidos de Hermeto fora do Brasil e talvez o melhor exemplo de sua capacidade de soar radical sem perder vínculo com a música brasileira. Gravado com participações como Airto Moreira, Flora Purim, Ron Carter e Raul de Souza, o álbum alterna temas densos, improviso e humor sonoro. A faixa-título ficou famosa pelo uso de sons de porcos, mas reduzir o disco a essa curiosidade é pouco: o centro está na escrita e na condução musical.

5. “Zabumbê-bum-á” (1979)

Neste álbum, Hermeto aprofunda a relação com ritmos brasileiros e com a ideia de música como celebração coletiva. É um disco importante para ouvir o lado mais popular de sua obra sem perder a sofisticação harmônica e rítmica que atravessa toda a discografia.

6. “Ao Vivo Montreux Jazz Festival” (1979)

Hermeto em ação, ao vivo, era um forte argumento a favor da existência de Deus. O registro no Montreux Jazz Festival mostra o músico em ambiente de palco internacional, com espaço para improvisos, interação e mudanças de direção. É um disco útil para entender como suas composições ganhavam corpo fora do estúdio. Também ajuda a perceber a dimensão performática de Hermeto, que não separava execução, arranjo e invenção.

7. “Cérebro Magnético” (1980)

“Cérebro Magnético” captura Hermeto em uma fase de síntese entre experimentação e forma. O disco é mais compacto do que alguns trabalhos anteriores, mas não menos inventivo.

8. “Hermeto Pascoal & Grupo” (1982)

O disco de 1982 inaugura uma etapa essencial da carreira: a consolidação do Hermeto Pascoal & Grupo, formação que se tornaria uma espécie de laboratório permanente. Com músicos como Itiberê Zwarg, Jovino Santos Neto, Carlos Malta e Márcio Bahia, Hermeto encontrou um núcleo capaz de executar ideias complexas com naturalidade. É um álbum-chave para entender a chamada “escola” criada em torno dele.

9. “Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca” (1984)

O título aponta para a origem do compositor. “Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca” combina afeto, invenção e rigor de arranjo. É também um dos registros importantes da fase do Grupo nos anos 1980.

10. “Brasil Universo” (1986)

“Brasil Universo” reforça a ideia de música universal sem apagar o Brasil do centro da obra. O disco traz o Grupo em alta precisão e mostra Hermeto trabalhando contrastes: melodias de aparência simples, mudanças rítmicas, humor e arranjos intrincados. É uma escuta importante para perceber como ele conseguia ser brasileiro sem soar folclórico e experimental sem se afastar do público.

11. “Só Não Toca Quem Não Quer” (1987)

O título resume uma ética musical: para Hermeto, a música estava disponível a quem se dispusesse a escutar e experimentar. O álbum mantém o Grupo em destaque e amplia o repertório de formas, climas e referências. É uma boa amostra do Hermeto dos anos 1980.

12. “Pra Você, Ilza” (2024)

Lançado em 2024, “Pra Você, Ilza” é o último grande capítulo discográfico de Hermeto em vida. O álbum homenageia Ilza Pascoal, sua companheira por décadas, e reúne o músico novamente com o Grupo em uma gravação de tom afetivo. Mostra Hermeto ainda em atividade criativa, com a mesma lógica de transformar memória, convivência e som em composição.