MC Cabelinho: ‘Na favela aprendemos a ser reis antes de ter um castelo’
'Palácio de Lona', ao lado de TZ da Coronel, é o novo álbum do carioca

MC Cabelinho e TZ da Coronel (créditos Birdman e Allan França)
“Palácio de Lona”, álbum colaborativo de MC Cabelinho e TZ da Coronel, já nasceu coroado. Com 11 faixas inéditas, a estreia entrou para o Top Global do Spotify.
O disco mostra um resumo da trajetória dos artistas e a dualidade que vivem entre luxo e sobrevivência. O paralelo traçado entre a imagem do palácio, símbolo de grandeza, e a lona, que revela a origem humilde, reflete o caminho dos funkeiros das favelas do Rio de Janeiro aos grandes palcos do de todo o Brasil.
Em entrevista à Billboard Brasil, Cabelinho reforçou que a produção surgiu da admiração mútua e sinergia dentro do estúdio. Desde a primeira parceria durante o lançamento do “Poesia Acústica 13”, em 2022, a amizade entre os funkeiros só aumentou.
A parceria dos MCs
“Eu acho que esse álbum com o TZ representa mais uma vitória pra minha vida, pra minha carreira e pra dele também, tá ligado? Nós somos dois favelados. A gente sabe de onde veio, sabe tudo o que passou na vida. Graças a Deus temos vários sucessos e não dependemos um do outro. Então a gente fez essa parceria porque realmente se importa, curte o trabalho um do outro. Somos fãs um do outro”, comentou Cabelinho sobre a experiência.
O funkeiro também contou que o processo de produção do álbum levou cerca de três anos para ser finalizado, mas que foi lançado no momento certo, depois de ambos concluírem outras demandas na carreira. Para ele, a dinâmica ocorreu de forma natural e orgânica.
“Desde que conheci o TZ, a gente sempre, uma hora ou outra, se esbarrava pelos shows ou se encontrava sem querer no estúdio de outra pessoa. Então a gente sempre foi fazendo música, tá ligado? E queríamos fazer uma parada diferente, tipo um dueto. Quando saiu o ‘Poesia Acústica 13’, que fomos convidados a participar, estávamos fazendo uma live e o TZ falou: ‘Mano, vamos lançar um álbum juntos’. E a gente já estava enrolando com esse disco há dois ou três anos. Durante esse tempo todo, a gente foi fazendo música e deixando todas guardadas… até que uma hora pensamos: ‘Já temos muita música e estamos prometendo isso pro público há muito tempo… bora focar!’. A gente passou a se ver, no mínimo, duas vezes por semana, colocamos nossas equipes pra se falar… e aí o álbum ficou pronto.”
O ‘Palácio de Lona’ de MC Cabelinho e TZ da Coronel
A narrativa construída pelos MCs no disco reforça que, antes mesmo de conquistar a vitória, é preciso desenvolver a mentalidade de quem já se vê no topo.
“Botamos ‘Palácio de Lona’, porque na favela nós aprendemos a ser reis antes de ter um castelo, tá ligado? E a lona protege da chuva no baile, entre tantas outras funções… então a gente acha que a favela é o nosso ‘Palácio de Lona'”, refletiu Cabelinho.
A escolha da capa também surgiu de forma espontânea, assim como as faixas. “Enquanto a gente tirava várias fotos pra capa do álbum, o Allan França, que trabalha na equipe do TZ, virou e falou: ‘Olha o que eu fiz’. Ele fez um desenho nosso baseado nas fotos. Aí a gente pensou: ‘Estamos tirando foto à toa aqui’. Resolvemos usar o desenho. Achei maneiro, diferentão. Acho que tá bem raiz, conversa com nosso público, ficou algo natural”, explicou Cabelinho.
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Entre as 11 faixas, há colaborações com artistas em ascensão e com nomes já consolidados no cenário da música urbana nacional. A escolha de Raflow e Vinicin para participarem de duas canções partiu da vontade dos MCs de proporcionar mais visibilidade às carreiras dos funkeiros.
“Eu tenho uma gravadora, o TZ também tem. E nós já temos o nosso nome. Pensamos: ‘Vamos botar nossos filhotes no álbum também’. Ele chamou o Raflow, que é da Cúpula, e eu chamei o Vinicin, do Bairro 13. Eles estão em duas faixas do álbum. Na ‘FORAGIDO’, que até saiu o videoclipe, nós gravamos na Rocinha. A gente realmente colocou na intenção disso mesmo: pros caras ficarem mais conhecidos. Pros vagabundos ouvirem e falar: ‘Quem é esse mano que tá cantando?’. Se os caras estão no meu time, eu vou ajudar, tá ligado? Então eu fico feliz com isso. Mas também tem o MC Poze do Rodo, o Oruam e o Filipe Ret.”
Assista ao videoclipe de ‘FORAGIDO’, de MC Cabelinho, TZ da Coronel, Raflow e Vinicin
Os rounds vencidos por Cabelinho
A lona também está presente nos ringues de boxe, esporte praticado por ambos os artistas. Sobre a experiência de “ir à lona”, mesmo nocauteado, e provar que ainda está na luta, Cabelinho considerou:
“Eu já tive essa experiência. Acho que não de cair de carreira, mas de cair psicologicamente e isso acabar atrapalhando minha carreira, tá ligado? Acho que eu já sofri muita coisa na internet. Então, se a gente não souber lidar, isso atrapalha o psicológico. Foi uma época bem difícil. Eu fiquei recuado. Acho que foi nessa época que eu fiz o álbum ‘Não Sou Santo Mas Não Sou Bandido’, que lancei ano passado. Comecei a escrever tudo que eu passei, entendeu? Como sempre, eu escrevo tudo que eu passo. Eu gosto de escrever as coisas que eu vivo: seja de amor, superação, uma vivência ali na favela, uma operação policial… acho que tenho que relatar tudo que eu vejo, vivo, sinto. E as outras pessoas também se identificam com isso. É nítido. Porque senão eu não teria fãs, não faria show, não ganharia dinheiro com a minha música. Então acho que é isso. Acho que foi mais psicológico. Não digo que isso interferiu no meu show ou algo do tipo. Mas aqui dentro, no meu interior”.
Conectar diferentes universos não é uma tarefa fácil, ainda mais quando são tão dicotômicos quanto os que TZ e Cabelinho vivem. O artista explicou como consegue conciliar essas duas diferentes realidades e reforçou que busca manter as origens.
“Então acho que a resposta é que a gente não pode perder a nossa essência, tá ligado? Tipo, eu vim da favela, não tinha condição. Hoje em dia eu tenho, graças a Deus, mas sempre volto lá pra ver meus crias, minha família, meus amigos. Quando tô lá é uma realidade. Quando desço pra pista e volto pra casa, é outra realidade. Então acredito que hoje em dia eu sei lidar com isso. Eu converso muito com Deus e falo: ‘Deus, não me deixa perder minha vontade, minha essência nunca’. Eu acho que quando a gente sai da favela e conquista nossas paradas, a gente não pode deixar de ir lá, frequentar, se comunicar com o povo, fazer eventos beneficentes… aí a gente caminha por esses dois mundos sem se perder.”
Com a repercussão positiva do álbum, é natural que os fãs peçam apresentações ao vivo. Cabelinho não descartou uma turnê conjunta, mas afirmou que não há nada planejado. “A gente até chegou a comentar sobre fazer um show juntos, tá ligado? A gente chegou a comentar, até começou a falar sobre isso, mas ainda não batemos o martelo. Acho que isso aí a gente ainda não planejou direito.”
Ouça ‘Palácio de Lona’, de MC Cabelinho e TZ da Coronel
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