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Festa em casa: Ivete celebra origem e futuro do samba com Clareou em Salvador

Ivete Sangalo canta durante o Clareou em Salvador (Diego Padilha)

Ivete Sangalo canta durante o Clareou em Salvador (Diego Padilha)

Poderia ter sido apenas mais uma etapa bem-sucedida de uma turnê nacional. Mas, para Ivete Sangalo, pisar em Salvador para o projeto Clareou carrega um peso afetivo e histórico singular. Embora não seja sua cidade natal (Ivete é de Juazeiro), a capital baiana é o lar que a consagrou, a metrópole de onde ela extrai a energia visceral que a transformou em um dos maiores nomes da música brasileira. E foi com essa leveza de quem está em casa, mas com a precisão de uma performer lendária, que Ivete entregou uma maratona musical de quase sete horas.

A tranquilidade de Ivete no palco 360º não é pose, é a familiaridade de quem já comanda multidões por horas a fio no Carnaval, puxando trios elétricos. Ela transmite essa sensação de “Bem-Vindo à Casa” ao público, que, acostumado às longas jornadas da folia, se sente imediatamente convidado para a grande roda.

O fio condutor do show, que era celebrar o samba em sua grandeza, começou com a devida reverência à ancestralidade. Ivete pavimentou o percurso lembrando clássicos de Benito di Paula, como “Retalhos de Cetim”.

O primeiro convidado, o mestre Nelson Rufino, confirmou o tom da noite. Com a sabedoria dos bambas, ele cravou: “Na Bahia É assim”. A dupla entoou “Todo Menino É Um Rei” e “Verdade” (sucesso de Rufino imortalizado por Zeca Pagodinho), estabelecendo de imediato a conexão direta com a semente que funda o samba em solo baiano, resgatando a linhagem que remonta ao Samba de Roda.

O show então se moveu para abraçar os artistas que escolheram ou foram escolhidos pela Bahia. Seu Jorge, o segundo convidado e recém-cidadão soteropolitano, subiu ao palco. Cantando “Mina do Condomínio”, “Burguesinha” e o feat com Ivete (“Basta Olhar pra Você”), Seu Jorge injetou a malandragem carioca que o consagrou, mas sob a benção e o calor da Bahia.

Liniker participa do Ivete Clareou em Salvador (Diego Padilha)
Liniker participa do Ivete Clareou em Salvador (Diego Padilha)

A maior surpresa da noite veio com Liniker, a artista que acabou de conquistar três Grammy Latinos. Recebida por Ivete como se fosse uma convidada querida em um almoço de domingo, Liniker trouxe a vanguarda e a poesia. Elas cantaram “Baby 95” e, em um dos momentos mais marcantes da noite, “Caju” em samba, quando Ivete fez questão de tocar na percussão, reafirmando que, ali, a hierarquia cedia lugar à celebração e ao groove mútuo.

A emoção se elevou quando o Rei da Voz, Péricles, subiu ao palco. O sambista, capa da Billboard Brasil de novembro, também agraciado com a cidadania baiana, entregou sucessos como “A Carta”, “40 Graus” e “Supera”, além do seu feat com a anfitriã. Péricles, com sua voz potente e elegância, provou a vitalidade do pagode romântico. Ela ainda convidou Mumuzinho para uma dose de música, humor e leveza, com “Fulminante” e “Agora Estou Sozinho”, em um tom de festa em família.

Em seus momentos solo, Ivete demonstrou por que é a maior popstar do país. A cantora se aproximou do público para entoar “Quando a Chuva Passar”, transformando o hit em um hino de união e força. A versão em samba de “Corazón Partío” em um mashup com o pagode de Menos é Mais mostrou sua versatilidade e capacidade de integrar o pop global à batida brasileira. Ela não se limita a versões óbvias; ela ambientaliza a festa com sucessos do pagode anos 2000, de Belo a Sorriso Maroto, sempre com a sua marca.

É a Bahia: A Gênese, a Força e o Pagode (Xanddy, Márcio Victor e É o Tchan)

Quando o público achava que a festa estava concluída, Ivete reforçou a tese central do evento: o samba é baiano e suas ramificações são gigantescas. 

O clímax local veio com Xanddy Harmonia. O show reforçou que fazemos, exportamos e criamos o samba, e que a música baiana segue e seguirá como um farol cultural para o país e para o mundo.

O momento final de emoção e força veio com Márcio Victor (Psirico). O cantor, que recentemente enfrentou um susto de saúde, com um princípio de infarto, subiu ao palco para cantar “Firme e Forte”, provando que baianos não fogem da raia e que a fé não será levada. O Pagode Baiano, filho legítimo do samba, foi então celebrado com a entrada do “É o Tchan”, que encerrou a madrugada em festa, relembrando que o ritmo contagiante da Bahia tem muitas vertentes.

Se Ivete Sangalo inicia o show com Nelson Rufino, ela reafirma onde o samba começa. Se ela encerra chamando as forças do Pagode Baiano, ela aponta para onde o samba irá: um ritmo vivo, que é celeiro e farol, não apenas exportando sucessos, mas indicando o que funcionará comercialmente no resto do país. Em Salvador, Ivete Clareou não foi só um show de samba; foi uma aula cultural que celebrou a Bahia como o centro inquestionável da música popular brasileira.

SERVIÇO — “99 APRESENTA IVETE CLAREOU”

13/12 – Porto Alegre – Parque Harmonia
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