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Bullet Bane carrega ‘mensagem de esperança num mundo tão caótico’ em novo álbum

'O Agora Que Cobra Viver' é o primeiro trabalho com nova formação da banda

Bullet bane (foto @muriloamancio)

Bullet bane (foto @muriloamancio)

Poucos álbuns ou artistas neste ano tiveram a força de me fazer ouvir um disco em repeat o dia inteirinho, sem enjoar. “O Agora Que Cobra Viver”, novo trabalho do Bullet Bane, é um desses raros fenômenos. Sem sensação de superficialidade, a cada audição é possível ter uma leitura e uma interpretação cada vez mais profundas de cada faixa. É uma obra que resgata o impacto das nossas memórias e da nossa bagagem nostálgica, mas que não se ancora no passado. Ela espelha, com precisão, o caminho do futuro.

Como diz a marcante linha de “Ponto de Vista”, o álbum nos força a entender “a grande diferença entre saber o caminho e caminhar”, em um manifesto sobre a transformação e a urgência de estar presente.

Com mais de 12 anos de estrada no rock alternativo, Bullet Bane – formada pelos guitarristas Danilo Souza e Fernando Uehara e pelo baixista Rafael Goldin – consolidou esta nova fase com a chegada de Lucas Guerra (vocal), conhecido por seus trabalhos na Pense e Colid, e Andrew Lee (bateria).

Em uma conversa franca com a Billboard Brasil, Lucas, Lee e Rafael comentaram sobre os bastidores dessa transição, as pressões invisíveis do cenário independente e a coragem de dar um all-in absoluto na própria arte.

Billboard Brasil: Eu ouvi o álbum e fiquei muito tocada. Ele me levou direto para a minha adolescência, descobrindo os primeiros rolês de hardcore, mas ao mesmo tempo soa muito presente e futurista. Como foi juntar o antigo e o novo Bullet Bane? Como surgiu o convite para os novos membros se encaixarem com os antigos?

Lucas Guerra: Essa questão de soar nostálgico e moderno foi totalmente intencional, foi pensado. O Bullet Bane é uma banda que passou por várias fases e nunca teve medo de mudar ou tentar coisas novas. A gente sente isso nos shows: tocamos músicas de um álbum e elas conectam com uma parte do público; depois, outra música conecta com outra galera. Nosso objetivo com esse disco era justamente juntar essas fases, entender onde está o DNA da banda e abraçar tudo isso em um único trabalho, para não ser só “mais uma fase”. Ele vai desde o passado mais hardcore e rápido até a pegada moderna com sintetizadores e elementos eletrônicos. Internamente, o Rafa pode explicar melhor como foi esse processo de chamar o Lee e a mim.

Rafael Goldin: O Lee foi o primeiro. Ele já estava muito presente na nossa vida porque ele é dono do estúdio de ensaio onde o Bullet ensaia há anos. Quando descobrimos que alguns caras iam sair da banda, antes mesmo de falar com o Dan e com o Fê, eu colei no Lee e disse: “Mano, está acontecendo isso, tem que ser você”. Ele tinha acabado de sair de um projeto de uma década, estava disponível na pista fazendo freelas. Os caras acharam a ideia animal. Para estar em uma banda, você precisa de conexão, de intimidade. Vai passar 10 horas dentro de um carro com o joelho colado, tem que ser alguém que entenda o movimento.

Já o Lucas foi alguém que pensamos bem no começo, mas achávamos que ele estava em outro momento da vida. Ficamos umas duas semanas quebrando a cabeça com outros nomes e não vinha ninguém. Aí o Fê falou: “Liga pro Lucas, o ‘não’ a gente já tem”. Quando ligamos, ele ficou chocado. Ele disse que não conseguiria entrar por questões de tempo, mas se ofereceu para ajudar a escrever algo enquanto a gente não se ajeitava. O Dan mandou a guia de “Reta-Ação” (nosso primeiro single) num fim de semana. Na segunda-feira, na hora do almoço, o Lucas devolveu a música pronta, do jeito que ela é hoje. Ficamos sem reação. Ali a gente se alinhou. Ele usou um termo do poker e disse: “É all-in. Eu só entro se todo mundo estiver na mesma sintonia de arriscar tudo e trampar sério”. E estamos aí agora.

Lucas Guerra: Só fazendo um parênteses: realmente, quando eles me chamaram, não dava para eu estar na banda por questões pessoais. Mas quando ouvi a guia, me conectei tanto que precisei fazer ajustes na minha vida para fazer dar certo. Se for para ser, tem que ser 100%. Todo mundo abraçou a ideia.

Billboard: É incrível que vocês tenham conseguido escrever um novo capítulo já conectados com essa bagagem histórica. E como rolou a dinâmica de criação entre vocês para chegar nessa sonoridade que mistura passado e presente no atual Bullet Bane?

Lucas Guerra: Foi na base de muita experimentação. A faixa “Estrela Polar”, por exemplo, teve umas sete ou oito versões diferentes, sem exagero. A nossa regra básica era: a música só está pronta se o pelinho do braço arrepiar. Esse era o termômetro. Às vezes a gente passava horas testando arranjos, eu escrevia letra, gravava voz, e se não batia, a gente descartava. Tem música que se você ouvir a primeira versão, parece outra banda. Outras já conectaram de primeira e fluíram fácil.

Billboard: Vocês sentiram muita pressão durante a produção do álbum? Tanto interna, de fazer a nova formação dar certo, quanto externa, após o anúncio para o público?

Lucas Guerra: Olha, eu senti muita pressão. Acho que o Rafa e o Lee também. É uma mistura de pressão pessoal com expectativa alheia. E música é doido, porque quando você fica muito imerso fazendo várias versões de uma mesma faixa, é normal perder a referência. Você se pega pensando: “Será que está bom? Será que está ruim? As pessoas vão se conectar?”. A gente só descobre depois que lança. Mas o meu termômetro é que, se uma música me toca de forma sincera, tenho certeza absoluta de que ela vai tocar vários outros “Lucas” espalhados pelo mundo.

Andrew Lee: A minha pressão principal foi a de ser aceito pela galera. Eu passei 10 anos tocando um estilo totalmente diferente. Na bateria, tem muito a questão física, o play da parada. Eu ficava pensando se o público ia gostar, e a internet hoje em dia é traiçoeira, o bagulho não tem teto. Fora que são cinco vidas ali se entregando, a gente vive disso.

Hoje, vendo a recepção, a panela de pressão dá uma aliviada. Na festa de lançamento, eu olhei pro Lucas e pro Fê e falei que a gente já devia pensar no próximo disco. Isso vira o nosso oxigênio. Como artistas autônomos, não temos chefe para nos cobrar, então a gente se cobra o tempo todo. Mas ver a reação da galera, ver gente chorando em vídeo de review no YouTube ouvindo faixa por faixa… aí você fala: “Caralho, deu certo. Era exatamente para isso”.

Billboard: O título do álbum, “O Agora Que Cobra Viver”, é muito forte. O que estava cobrando vocês a viver esse momento? Como surgiu esse conceito e a abordagem desses temas nas composições?

Lucas Guerra: Esse título veio da letra da música “Decisão”. Quando fomos escolher o nome do álbum, pegamos todas as letras prontas para ver se existia um conceito que as unia, porque eu não escrevi pensando em um disco conceitual. Mas quando você olha o todo, a conexão está lá. “Decisão” fala muito do nosso momento como banda e indivíduo. Nossas vidas convergiram no ano passado e todo mundo estava passando por transformações pessoais. Essa mudança nos uniu.

Mais o que o “agora” cobra viver? Essa resposta é individual. Para mim, a vida cobra que a gente viva algo significativo no nosso íntimo. Algo em que você realmente acredite. Não é sobre impressionar a família ou parecer foda na rede social. É fazer algo que, se não der fruto nenhum, você ainda assim continue feliz só por ter feito. Claro que precisamos pagar as contas e queremos que seja rentável, mas o sentimento ao finalizar esse disco foi: “Se ninguém gostar, eu ainda vou estar muito feliz, porque foi sincero”. A vida nos cobra viver coisas com sentido, porque, se morrermos amanhã, o que fizemos valeu a pena? A capa do álbum é uma rosa pegando fogo: a rosa é o sentimento, a paixão; o fogo é o que a gente está sentindo agora.

Andrew Lee: E o foda é que são privilégios que vão ficar para sempre. Está gravado, está no mundo. Se a gente morrer amanhã, daqui a sei lá quantos mil anos alguém pode descobrir esse disco e reviver tudo isso.

Billboard: É por isso que eu amo o formato de álbum, ele entrega camadas que um single sozinho não consegue. Agora que o disco está na rua, vocês têm planos de turnê? Já existem datas fechadas? E ficaram músicas de fora para um próximo trabalho?

Lucas Guerra: Sobre músicas de fora, acho que não sobrou muita coisa, porque lapidamos tudo até chegar ao ponto de querer incluir todas no disco.

Andrew Lee: Ah, mas conhecendo as peças aqui, se abrir um HD perdido do Fê, tenho certeza de que a gaveta dele está cheia de riffs (risos).

Lucas Guerra: É, ele é uma fábrica de riffs (risos). Mas sobre a turnê, eu até me assustei quando os caras mandaram a lista de datas. É gigante. É o all-in de verdade. Vamos rodar o Brasil inteiro: Nordeste, Sul, Sudeste…

Rafael Goldin: O Norte ainda não fechou porque a logística para uma banda independente é muito cara hoje em dia, mas estamos tentando. Já Centro-Oeste, Sul e Nordeste estão confirmados – no Nordeste vamos fazer duas pernas, uma agora e outra no final do ano. Fazia tempo que eu não via uma agenda nossa assim. E isso vem do movimento que a galera está gerando em torno do disco. Vamos tocar em cidades menores no Piauí, por exemplo, onde o nosso estilo não é a massa do público, mas você vê o orgulho do produtor local e da cidade em levar a gente até lá. É um sentimento de pertencimento foda. Viajar o Brasil inteiro sendo independente é uma puta vitória.

Ouça ‘O Agora Que Cobra Viver’, de Bullet Bane