‘A bossa nova não tem vergonha de falar de amor’, diz Roberto Menescal
O violonista está lançando 'O Lado B da Bossa' ao lado da cantora Cris Delanno
Roberto Menescal, 88 anos, é incansável. Um dos últimos nomes da primeira geração da bossa nova, ele se mantém a todo vapor, produzindo discos e se apresentando ao vivo. Recentemente, voltou de uma celebrada turnê no Japão. No dia 05 de setembro chegou às plataformas de streaming “Este Seu Olhar/ Promessas”, um medley de suas canções pouco gravadas de Tom Jobim. Elas fazem parte de um projeto ao lado da cantora Cris Delanno, onde interpreta o lado b da bossa nova.
Menescal falou à Billboard Brasil sobre o projeto, que será lançado integralmente no dia 17 de outubro. E ainda comentou sobre longevidade, o amor dos astros internacionais pela bossa nova e sua decisão de não fazer mais longas viagens para mostrar sua música.
Pode falar um pouco sobre esse disco que o senhor está lançando ao lado da cantora Cris Delanno?
É um projeto que a gente tinha vontade de fazer, de coisas que a gente não gravou, mas que tinha muita vontade de deixar registradas em disco. Sempre quis gravar algo do Johnny Alf, que é um cara que surgiu quatro anos antes dos bossanovistas aparecerem; “Era Copacabana”, parceria da Joyce Moreno com o Carlos Lyra, e queríamos gravar as coisas que o Tom Jobim fez. Teve uma época que ele fez umas seis músicas dentro da mesma harmonia: achou uma combinação de acordes ali, e adorou compôs seis canções? Então a gente gravou duas delas porque, assim como é da mesma harmonia, a gente pode cantar junto uma com a outra. Foi o que fizemos em “Este seu Olhar/ Promessas”, primeiro single do novo álbum, que está nas plataformas digitais.
Fico feliz de escutar um disco de bossa nova que traga outras canções além de “Garota de Ipanema”.
Primeiramente, pensamos: “Vamos fazer a que for menos gravada e que gostaríamos de ter gravado.” Depois, tivemos a preocupação de gravar arranjos diferentes das originais. E ainda registramos essas músicas em vídeo. Não chegamos ao nível de criatividade e ousadia de uma Madonna, no máximo parecemos Fred Astaire e Ginger Rogers.
O show de lançamento do disco está previsto para 25 de outubro no Blue Note Rio. Há planos para uma turnê?
A gente vai fazer uma porção de coisa: tem shows marcados por aí, Vitória, Campo Grande… Eu só vejo a minha agenda dessa semana, porque senão eu fico louco.

O senhor tem 88 anos e lança discos, excursiona pelo Brasil e pelo mundo… Por quê? O que o move a fazer isso?
O meu médico me perguntou a mesma coisa… Dia desses eu tive um branco. Branco mesmo. Abri a guitarra para gravar uma coisa lá com o [pianista] Antônio Adolfo, olhei para dentro do case e falei: “O que é isso?” Não reconhecia o que era uma guitarra. Mas consegui gravar um pouquinho da música, fiz até um improviso.
Fui então a um médico, que sugeriu que eu fosse hospitalizado. Então eu disse: “O que eu levo?” Ele respondeu para eu levar a minha agenda e meu telefone. Enquanto a gente esperava o resultado do primeiro exame, ele ficou no chão vendo a agenda e fazendo anotações. O médico sugeriu então que eu cortasse metade dos meus compromissos. Porque esse excesso está me fazendo mal. Se está fazendo mal é porque tem alguma coisa que não tá boa. Mas ainda faço muita coisa, cara. Faço muita coisa.
O senhor é um dos violonistas mais celebrados da bossa nova e um belo solista. Como é o processo de colocar “o pé no freio” e simplesmente acompanhar o intérprete?
Eu acho normal, porque eu comecei como acompanhante, tocava ao lado da Sylvia Telles. Ela me convidou e eu falei: “Silvinha, não tenho bala para te acompanhar assim não.” Aí a Sylvia disse: “Tem, sim, e a gente tem uns sete dias para ensaiar.” Fizemos a primeira turnê e eu achei que já era um músico. Foi então que ela me colocou para estudar com o maestro Moacir Santos [um dos maiores nomes do jazz brasileiro], que era um cara que eu admirava. Estudei três anos com o Moacir e saí por aí. Então, não tenho esse holofote todo no meu violão. Sei que é para acompanhar as pessoas e de vez em quando fazer um solinho.
Uma pergunta óbvia, mas ainda necessária: por que a bossa nova atrai tanto os músicos internacionais?
E eu lá sei, rapaz. Voltei há pouco do Japão, onde fizemos oito apresentações no Blue Note –que é enorme. Telefonei para eles umas três semanas antes e falei: “Como é que estão as vendas aí?” Falaram: “Sold out, não tem mais ingresso para show algum.” O segredo é que falaram que seria a minha última apresentação no Japão. Aliás, quando as pessoas perguntam em qual lugar no Rio se pode ouvir bossa nova, eu recomendo que elas viajem até o Japão.
E sabe por quê eles gostam tanto do gênero? Por causa das letras. Eles dizem que a gente fala de amor de um modo que os japoneses nunca tiveram coragem de falar. Nos Estados Unidos, por sua vez, a bossa nova caiu no gosto dos bateristas.
O senhor falou que esta foi sua última vez no Japão. Por que?
Não vou mais não, cara. Pô, dessa vez a gente levou 36 horas para chegar lá. Sim. Estou fazendo 88 anos agora, sabe? Não tenho mais saúde para isso, não… Só no aeroporto de Londres, para pegar minha conexão, devo ter andado uns oito quilômetros. Vou para Portugal, vou aos Estados Unidos, mas Japão não dá mais, não. Estão me chamando agora para fazer um show na Coreia. Uma cantora coreana maravilhosa com quem gravei dois discos me chamou para me apresentar lá. Eu disse: “Olha, não vai dar, não… Prefiro ficar por aqui.”








