Tiago Iorc revisita ‘Troco Likes’ e reflete sobre carreira e identidade
Cantor e compositor celebra uma década do álbum que marcou sua vida

Tiago Iorc (créditos Rafael Trindade)
Com quase duas décadas de trajetória, Tiago Iorc revisita o projeto que redefiniu sua carreira. O cantor celebra os dez anos de “Troco Likes”, álbum de 2015 que marcou sua virada definitiva para o português, com o lançamento de uma edição especial colaborativa e o anúncio de uma turnê por dez cidades do país.
Mais do que uma comemoração, o momento funciona como um ponto de reflexão. Em entrevista à Billboard Brasil, Tiago Iorc explora as diferentes nuances de sua carreira e sobre identidade artística, exposição e maturidade criativa.
Importância da língua portuguesa
O cantor e compositor iniciou a carreira com faixas em inglês, migrando para o português ao longo do tempo. Ele destaca que o idioma foi fundamental para sua trajetória na música.
“No início, eu tinha essa questão de cantar em inglês, porque os meus anos fundamentais foram fora do Brasil. Era o jeito que eu encontrava de me expressar, no qual eu me sentia melhor, mais identificado. Ao mesmo tempo em que a minha carreira estava andando, eu fui lançando álbuns, vivendo no Brasil e fazendo shows no país, e fui percebendo essa conexão com a língua, a importância dela, uma conexão mais fundamental. A primeira vez que tive esse estalo mais forte foi quando comecei a cantar uma música da Legião Urbana, “Tempo Perdido”. Fiz uma versão e passei a cantá-la nos meus shows, e ali entendi a catarse, que é as pessoas se conectarem com uma letra. Aquilo me despertou, foi um mergulho que começou ali e dura até hoje.”
Ele explica que teve dificuldades para se adaptar ao idioma, mas desenvolveu um forte senso de pertencimento.
“Teve um álbum anterior ao “Troco Likes”, o “Zeski”, que fiz meio em inglês, meio em português. Eu ainda estava tateando. Sabe quando você não está firme sobre como fazer algo? Eu não tinha prática de escrever em português. Até cantar era diferente. É outro lugar na cabeça, outro espaço criativo, outra forma de colocar a voz, de pronunciar as terminações. Foi um processo de adaptação. Nas primeiras canções em português, eu sentia uma estranheza, como se fosse um gringo cantando. Era algo de colocação, quase fisiológico. Com o tempo, fui desenvolvendo esse gosto e essa vontade de descobrir minha brasilidade. Tem sido maravilhoso desde então. Aquele álbum marcou essa transição, mas é um mergulho que não tem fim. Eu sou apaixonado por ser brasileiro.”
O cantor considera que a transição para o português redefiniu sua identidade artística.
“É outro universo, com outras referências. Até ali, eu tinha vivido influências de fora, mas isso mudou completamente o meu mergulho na música brasileira. Mudaram as coisas que eu ouço, o jeito que eu toco e até o instrumento. Hoje, o violão de nylon está muito mais presente no meu estudo, que é um ícone da música brasileira. Grandes instrumentistas como João Bosco e Gil têm essa relação com o violão de nylon. É outra musicalidade.”

Dinâmicas de ‘Troco Likes’
Lançado originalmente em 2015 pela Som Livre, “Troco Likes” foi o primeiro álbum totalmente em português do artista e se tornou um marco em sua discografia. O projeto rendeu um Latin Grammy de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa, com a versão ao vivo, e consolidou hits como “Amei Te Ver” e “Coisa Linda”, além de alcançar certificação de platina e milhões de streams.
A estética da capa, com o sorriso preso por pregadores, simboliza a necessidade de validação externa, tema que, segundo o artista, se intensificou com o avanço das redes sociais. “O grande ícone ali, para mim, era essa tentativa de entender uma necessidade que não vai embora nunca, que é humana: a validação externa. Isso se evidencia muito mais nas redes.”
“Quando você está exposto ao mundo inteiro com diferentes culturas, diferentes olhares, diferentes tudo, e você tentando se encaixar nisso, se encontrando seus nichos, mas ao mesmo tempo exposto a diferentes ambientes, culturas e crenças, e tudo que talvez você não tivesse acesso sem essa conexão, acho que isso tudo ainda é um grande aprendizado pra gente. Diariamente eu sinto que é uma constante adaptação e já passamos por diferentes fases.”
Ao refletir sobre as mudanças ao longo do tempo, ele destaca o papel do ódio nas dinâmicas digitais. “Talvez lá no início não tinha tanta essa onda de ódio que existe hoje, e o ódio se firmou talvez como moeda de troca hoje. O que lá atrás era ‘troco like’ hoje é ‘troco ódio’. Não sei se é essa coisa de realmente se tornar uma ferramenta de validação de opinião… e de novo tudo vai para essa essência que é da gente se validar na nossa importância, de ‘eu quero ser ouvido, eu quero ser visto, eu quero ser interpretado’ e aí temos essas nuances todas, tentando entender isso tudo, mas eu acho que a gente ainda tá longe de compreender os efeitos que isso tem”.
Celebração dos 10 anos com turnê e álbum
A nova edição de “Troco Likes” também traz algo que é destaque nas redes sociais: as colaborações. O disco conta com participações de diferentes artistas e sonoridades brasileiras, como Jota.pê, Marina Sena, Menos É Mais, Lauana Prado, Os Garotin, Vitor Kley e Melly. Além disso, o universo lúdico e educativo do Mundo Bita, criado por Chaps Melo e produzido pela Mr. Plots, está presente.
O cantor explica sobre as escolhas das parcerias musicais para o projeto de 2026: “Na sua grande maioria, foi feita a escolha a partir de cada canção, pensando em quem seriam os artistas que fazem parte da minha história de alguma forma e com quem eu já troquei ao longo dessa caminhada, pessoas que eu admiro e com quem eu tinha vontade de trocar, como foi o caso do Ney. Mas o grande norte que nos direcionou para essas escolhas foram as canções, pensando quem poderia ser a melhor escolha para a canção. Sempre a música nos conduzindo. As pessoas que chegaram contribuíram com seus universos e foi além do que a gente poderia ter imaginado também, para que cada uma das canções fosse elevada por um novo momento, uma nova oportunidade dela ser expressada e que fizesse sentido com os dias de hoje”.

“Troco Likes” também ganha uma turnê comemorativa, passando por dez cidades brasileiras. A primeira apresentação ocorre dia 1º de agosto em São Paulo, no Espaço Unimed. Mas o cantor também tem shows marcados em Belo Horizonte (08/08), Belém (15/08), Salvador (22/08), Rio de Janeiro (29/08), Porto Alegre (05/09), Curitiba (12/09), Brasília (19/09), Natal (25/09) e Recife (26/09).
Sobre a participação de convidados especiais, Tiago Iorc explicou que há uma complexidade na questão de agenda. “Já foi uma grande logística reunir esse povo todo e alinhar agendas com esse tanto de gente, então são momentos distintos dessa mesma celebração. Primeiro o álbum, que é uma grande troca com amigos, e depois a turnê, que vai ser realmente uma troca com o público, resgatar essa conexão nos palcos”, brincou.
“A possibilidade de ter alguma participação no show vai depender muito de agenda e disponibilidade dessas pessoas, porque cada um está vivendo seu universo também. Se for possível, eu vou amar receber esses convidados no palco também. Mas em princípio, o que eu posso prometer, sem comprometer ninguém, é que eu vou estar lá com uma banda maravilhosa, fazendo uma grande festa para a gente se comemorar com o povo”, completou.

Essa visão de comunidade é algo que marca o artista atualmente. Sobre o Tiago Iorc de dez anos atrás, o cantor enxerga mudanças profundas:
“Eu acho que ele tinha mais medo das coisas, tinha ainda uma necessidade natural da idade de se firmar através de uma expressão própria, essa coisa de se validar muito ainda sobre o que ele estava fazendo, de encontrar essa importância e relevância. Então, tinha um certo idealismo maior, talvez, essa vontade maior, que era mais individual, de ‘eu preciso me fazer valer por mim mesmo’, que acho que é natural da juventude, e de conquistar o próprio espaço. Com isso resolvido de alguma forma, o que eu percebo ao longo dos últimos anos é realmente uma vontade de estar mais à disposição do outro, menos sobre mim”.
Essa transformação se reflete diretamente no novo trabalho.
“Acho essa releitura do álbum já fala muito disso também. O momento de celebrar as canções e enaltecer essas pessoas que estão chegando ali para comemorar comigo, sabe? No álbum fica muito nítido, assim como é um momento de celebrar esses artistas, celebrar essas canções, e menos sobre o Tiago. Tenho percebido que me traz mais paz de espírito também, sabe? Até nos shows, na minha vida no geral, eu percebo que eu estou mais aberto a essa troca realmente. Talvez lá atrás eu estava ainda angustiado por me fazer valer e agora já estou mais interessado em fazer valer os outros.”
Ouça ‘Troco Likes 10 Anos’, de Tiago Iorc
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