Talvez o problema não seja o futuro. Seja a falta de vínculo
SXSW 2026 aponta para a urgência de reconstruir conexões que deixamos para trás

Ágatha Ferreira (Divulgação)
No meio de tantas discussões sobre inteligência artificial, automação e futuros possíveis, talvez o deslocamento mais interessante do South by Southwest 2026 vem sendo menos sobre o que vem por aí e mais sobre o que já está faltando.
A gente passou anos tentando prever o futuro como quem tenta decifrar um código. Relatórios, tendências, sinais fracos, dashboards. Uma busca quase obsessiva por antecipação. Mas, em Austin, algumas conversas começaram a apontar em outra direção. E se o problema não for o que vem depois, mas o que estamos deixando de sustentar agora?
Entre dados sobre solidão crescente, saúde social e comportamento, uma ideia atravessava diferentes painéis. Conexão deixou de ser consequência e passou a ser questão central:
No painel conduzido por Kasley Killam, essa discussão ganha nome e contorno. Saúde social. Um terceiro pilar que começa a se somar ao físico e ao mental. A qualidade das relações, o senso de pertencimento, a capacidade de construir vínculos reais. Não por acaso, a solidão já aparece associada a centenas de milhares de mortes prematuras por ano no mundo, enquanto uma parte significativa da população simplesmente não participa de nenhum tipo de comunidade.
Ao mesmo tempo, outra camada se forma. Como provoca Amy Webb em seu report anual, estamos entrando em uma era de convergências, onde tecnologia, biologia e comportamento deixam de andar separados. E, nesse cruzamento, começamos a automatizar afeto para além das tarefas.
Relações mediadas por inteligência artificial, sistemas que antecipam emoções, interações que simulam presença já não são mais ficção. E talvez o ponto mais delicado não seja o avanço tecnológico em si, mas o tipo de substituição que ele pode provocar. Porque quanto mais o mundo se torna capaz de simular conexão, mais raro e mais valioso se torna aquilo que não pode ser replicado.
O encontro. O improviso. O corpo presente. O erro. O olho no olho.
Talvez por isso, como aponta Julius Solaris ao falar sobre o presente e o futuro das experiências ao vivo, o físico ganha um novo peso, um contraponto necessário. Experiências ao vivo voltam com força porque ainda são um dos poucos espaços onde algo não pode ser totalmente previsto, editado ou reproduzido.
E é aqui que cultura e entretenimento deixam de ser apenas linguagem ou formato e passam a operar como infraestrutura social. Festivais, shows, encontros, experiências coletivas passam a se fortalecer como espaços onde algo essencial ainda acontece: gente se encontrando de verdade.
Mas existe um cuidado importante nessa conversa. Assim como vimos acontecer com a saúde mental, existe o risco de transformar conexão em produto, pertencimento em estética e comunidade em discurso ao criar soluções rápidas para um problema que é estrutural.
Porque conexão precisa ser construída com intenção, com contexto para além de escala e ativações. E, no fundo, talvez seja essa a virada mais interessante. É nesse ponto que essa discussão deixa de ser apenas provocação e começa a tocar em prática. E esse entendimento já atravessa o que a IDW vem construindo há algum tempo. Não como discurso, mas como método.
Ou seja, quando um projeto nasce a partir de comunidade, quando cultura não entra como estética, mas como lógica de construção, quando experiências são pensadas como espaços de aprofundamento e não apenas de consumo, o que está sendo desenhado deixa de ser “só mais um evento” e se torna construção de contexto – e de marca.
Projetos como AFROPUNK, Club Renaissance ou mesmo ativações que colocam pessoas no centro partem da premissa do pertencimento, e isso muda tudo. Porque não se trata apenas de reunir pessoas, mas de criar condições para que elas se reconheçam ali.
No fim, talvez o futuro não seja definido por quem chega primeiro na próxima tecnologia, mas por quem entende o que ainda não pode ser automatizado.
*Ágatha Ferreira é estrategista de conteúdo e comunicóloga soteropolitana que conecta cultura, criatividade e negócios. Na IDW Company, atua na construção da comunicação de projetos que transformam experiências em espaços de pertencimento, com foco em cultura, comunidade e impacto real. Minha prática parte de uma comunicação mais humana, que entende narrativa como construção de futuro.
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