Se ainda chama de audiência, você já ficou para trás
Fandom, nostalgia e experiências ao vivo redesenham a construção de cultura

Ágatha Ferreira (Divulgação)
No meio de tantas conversas sobre tecnologia, inteligência artificial e novos formatos de consumo, uma força ficou ainda mais evidente em Austin: o fandom.
Durante muito tempo, fãs foram tratados como consequência. Pessoas que chegam depois, que consomem, que acompanham. Mas o que o SXSW 2026 escancarou foi outra lógica. Fãs não chegam depois. Eles vêm antes. Eles moldam. Eles empurram. Eles decidem o que continua existindo.
No painel Fandom Runs The World: How Culture and Marketing Collide in 2026, essa virada ganhou corpo. Comunidades que antes eram vistas como nicho passaram a operar como motores culturais globais. Universos como Star Warks e Pokémon não são apenas entretenimento. São ecossistemas vivos, sustentados por pessoas que não apenas assistiam, mas participavam, reinterpretavam e expandiam essas narrativas todos os dias. Não à toa, segue sendo um grande sucesso mesmo após décadas de seus lançamentos.
E talvez o ponto mais interessante não tenha sido o tamanho dessas comunidades. Foi a profundidade.
Plataformas como Webtoon mostraram isso de forma quase didática. Com milhões de usuários ativos, majoritariamente da geração Z, o que se construía ali não era só consumo de conteúdo. Era relação contínua. Era troca. Era proximidade com quem cria. Histórias que nasciam digitais, cresciam com a comunidade e, quando atravessavam para o audiovisual, já chegavam carregadas de significado. Adaptações como All of us Are Dread e Sweet Home não surgiram do nada. Elas já vinham acompanhadas de um público que se reconhecia ali.
Isso mudou tudo.
Porque quando o público deixou de ser espectador e passou a ser parte ativa, o papel das marcas também precisou mudar. Não se tratava mais de inserir uma mensagem dentro da cultura. Tratava-se de entender que a cultura já estava em movimento e que qualquer tentativa de aproximação exigia leitura, respeito e, principalmente, escuta.
Fandom não aceita atalhos. Ele percebe quando algo é forçado. Ele reage quando algo desrespeita suas regras invisíveis. E, ao mesmo tempo, quando bem entendido, ele amplifica, sustenta e transforma ideias em fenômenos.
Mas havia uma camada que atravessava tudo isso com ainda mais força. A nostalgia. (Alow! Nem só de Geração Z vivem esses insights :p)
O que parecia passado voltou como presença ativa. Não como lembrança, mas como energia mobilizadora. O especial de 20 anos de Hannah Montana alcançou o topo do consumo digital duas décadas depois de sua estreia. No Brasil, esse movimento ganhou outra escala. O país foi um dos poucos, além dos Estados Unidos, a transformar esse momento em experiência para os fãs, com uma festa dedicada ao lançamento do especial.
Isso diz muito.
Porque não é só sobre lembrar. É sobre reviver junto. É sobre transformar memória em encontro. E poucos lugares fazem isso com a intensidade do Brasil.
Aqui, fandom é corpo. É volume. É ocupação de espaço.
Foi assim com o Club Renaissance, de Beyoncé, que aconteceu em cidades selecionadas ao redor do mundo e encontrou no Brasil, em Salvador, um dos seus territórios mais apaixonados. Uma experiência construída pela Parkwood Entertaiment, Grupo Globo e IDW Company, que não se limitou a celebrar um álbum, mas ativou uma comunidade inteira, surpreendendo os fãs com a presença ao vivo da sua ídola.
E talvez esse seja um dos pontos mais fortes dessa conversa. O Brasil não apenas participa de fandoms globais. Ele amplifica. Ele transforma. Ele leva para o espaço físico.
Um país capaz de colocar milhões de pessoas em uma praia para assistir um artista não está apenas consumindo cultura. Está construindo escala emocional. Está criando experiências que atravessam o indivíduo e viram comunidade.
E é nesse ponto que a conversa sobre o digital começa a encontrar seu limite.
Se por um lado ele potencializou essas comunidades, por outro também saturou a experiência. Conteúdos infinitos, algoritmos previsíveis, interações mediadas. Tudo acessível, tudo rápido, tudo replicável.
E foi justamente aí que o ao vivo retomou seu peso.
No painel de Julius Solaris, o que se desenhou não foi exatamente uma tendência nova, mas uma mudança de valor. Experiências presenciais deixaram de ser apenas entretenimento e passaram a funcionar como espaços onde algo mais raro acontecia. Presença compartilhada. Energia do público vivendo, juntos, o inesquecível. O tipo de conexão que não cabe em tela nenhuma.
Depois de um período em que o virtual parecia suficiente, o que se viu foi um retorno quase inevitável. Não por nostalgia, mas por necessidade. Quanto mais o digital se tornava capaz de simular tudo, mais valioso se tornava aquilo que ainda não podia ser reproduzido.
O encontro. O corpo. O erro. O improviso.
Eventos ao vivo passaram a operar como uma espécie de prova de realidade. Um lugar onde a experiência não podia ser pausada, editada ou filtrada. E, por isso mesmo, se tornaram ainda mais estratégicos.
Não era mais só sobre assistir um show ou participar de um festival. Era sobre fazer parte de algo que estava acontecendo ali, naquele momento, com outras pessoas que compartilhavam do mesmo repertório emocional e cultural.
E quando fandom e experiências ao vivo se encontraram, algo novo se formou.
Ativações deixaram de ser apenas pontos de contato e passaram a ser extensões dessas comunidades. Eventos deixaram de ser agenda e passaram a ser território. O que estava em jogo já não era alcance. Era reconhecimento.
É nesse cruzamento que a IDW COMPANY vêm operando com mais precisão. Não como quem cria eventos isolados, mas como quem entende que experiências precisam nascer de dentro para fora. De comunidades reais, com códigos próprios, com histórias que já estão em movimento.
Quando cultura não entra como estética, mas como estrutura, o resultado muda de natureza. Deixa de ser ativação e passa a ser continuidade. Deixa de ser presença pontual e passa a ser construção de contexto.
E eu acredito que essa seja a virada mais importante.
Porque no fim, fandom não é sobre hype. É sobre vínculo. Não é sobre volume. É sobre intensidade. E experiências ao vivo, nesse cenário, deixam de ser apenas palco e passam a ser o lugar onde esse vínculo ganha corpo, voz e memória.
Num mundo onde tudo pode ser reproduzido, remixado e distribuído em escala, o que permaneceu raro foi aquilo que só existia quando pessoas se encontravam de verdade.
E é isso que, no fim, ainda move tudo.
*Ágatha Ferreira é estrategista de conteúdo e comunicóloga soteropolitana que conecta cultura, criatividade e negócios. Na IDW Company, atua na construção da comunicação de projetos que transformam experiências em espaços de pertencimento, com foco em cultura, comunidade e impacto real. Minha prática parte de uma comunicação mais humana, que entende narrativa como construção de futuro.
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