Published by Mynd8 under license from Billboard Media, LLC, a subsidiary of Penske Media Corporation.
Publicado pela Mynd8 sob licença da Billboard Media, LLC, uma subsidiária da Penske Media Corporation.
Todos os direitos reservados. By Zwei Arts.

Por que desfile do Vai-Vai irritou a polícia e os bolsonaristas? Carnavalesco explica

Ala em homenagem aos Racionais levantou reclamações

2024 02 10T000000Z 666796352 MT1IMGOST000H40ZCJ RTRMADP 3 IMAGO IMAGES

Vai-Vai desfilou no segundo dia do Grupo Especial de São Paulo (Jefferso Aguiar/Reuters)

São Paulo. Dia 10 de fevereiro. 23h30. O Vai-Vai inicia seu desfile no Anhembi com o enredo “Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo, o Hip Hop: Um Manifesto Paulistano”. A apresentação é uma homenagem aos 40 anos da cultura hip hop no Brasil, tendo o rap como principal personagem dessa história.

Em uma das alas, o Carnavalesco Sidnei França homenageia o álbum “Sobrevivendo No Inferno” (1997), dos Racionais MCs. Aliás, o nome do enredo leva o nome de uma das canções do álbum do grupo formado por Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay. A referência se dá por meio de policiais militares, segurando um escudo com a palavra Choque, e vestidos como demônios, com chifres na cabeça e tudo.

Foi o suficiente para uma série de reclamações por políticos bolsonaristas na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e organizações de classe da polícia paulista.

“O Vai-Vai conseguiu transformar em visualidade, em narrativa carnavalesca, expressão de cultura popular. Sem desrespeitar a voz de insurgência, o debate, a analise da cultura periférica e do sujeito periférico”, resume Sidnei, classificando o desfile da escola, que após subir ao Grupo Especial conseguiu se manter na elite do Carnaval paulistano, como muito bem sucedido.

A referência

Com seu objetivo alcançado, tendo feito referência ao álbum dos Racionais de forma justa, Sidnei vê nas críticas uma sequestro político do debate.

Nesse caso, o Carnavalesco se diz admirador do debate e das discussões. Porém, segundo ele, a discussão é meramente eleitoreira.

“É inegável que a polícia militar é motivo de debate por quem vive nas periferias. O álbum do Racionais é de 1997, e até hoje as letras fazem sentido. A crítica, o debate, é algo que faz parte do Carnaval, inclusive. Agora, o que está acontecendo com o Vai-Vai é a instrumentalização da pauta para fins eleitoreiros. É você usar uma parcela conservadora da população para isso”.

Uma das canções do álbum “Sobrevivendo no Inferno” se chama “Diário de Um Detento”. A letra, escrita por Mano Brown e pelo então detento Josemir Prado, conta sobre a vida no cárcere do Carandiru e sobre o Massacre no presídio, em 1992, que resultou na morte de 111 presos.

O início da canção (São Paulo / Dia 1º de Outubro / 8h da manhã / Aqui estou mais um dia…) é um do mais famosos da música brasileira e foi adaptado por Brown para o Carnaval. O rapper desfilou junto com seus companheiros de grupo com o carro de som do Vai-Vai e abriu o desfile se referindo ao local, data e hora da apresentação.

Grita

Dois dias após o desfile, o Sindicado dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) emitiu uma nota de repúdio criticando a escola de samba do Bixiga. O Sindpesp classificou a ala como um “escárnio a figura de agentes da lei”.

O Governador do Estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que daria nota zero para a agremiação e classificou a aula como um “deboche” a PM.

A ação contrária mais recente veio de deputados bolsonaristas da Assembleia Legislativa de São Paulo. Capitão Augusto (PL) e Dani Alonso (PL) enviaram um ofício ao prefeito Ricardo Nunes (MDB) pedindo que a prefeitura e o Governo do Estado não repassem verbas públicas ao Vai-Vai.

Em resposta, o prefeito disse que vai analisar o pedido dos bolsonaristas. Ele também entrará em contato com a liga das escolas de samba sobre o tema.

O Vai-Vai divulgou nesta sexta-feira (16) uma nota afirmando que seu desfile buscou homenagear todas as expressões culturais do hip hop. Além disso, a escola afirma que o álbum “Sobrevivendo no Inferno” foi destaque em vestibular e virou livro.

“O que a escola fez, na avenida, foi inserir o álbum e os acontecimentos históricos no contexto que eles ocorreram”, diz trecho da nota.

Sidnei acredita que as pressões que o Vai-Vai está sofrendo não impactarão no próximo Carnaval.

“Eu quero acreditar que não [haverá retaliação]. Não há motivo para isso. O contexto está claro, nosso trabalho foi muito fiel à obra”.

O trabalho do Carnavalesco agradou o Vai-Vai, que renovou seu contrato para o desfile de 2025.