Oliver Tree: é seguro que músicos continuem voando em helicópteros e jatinhos?
Morte do cantor no RJ levanta debate; especialistas analisam questão

Oliver Tree (Divulgação)
A morte do cantor de “Miss You”, Oliver Tree, no domingo (14 de junho), em um acidente de helicóptero no Rio de Janeiro, Brasil, foi o mais recente episódio de uma lista angustiantemente longa de acidentes aéreos envolvendo helicópteros e pequenas aeronaves que tiraram a vida de artistas queridos, integrantes de suas bandas e importantes promotores de shows.
Desde a queda de um pequeno avião causada pelas condições climáticas em 3 de fevereiro de 1959, perto de Clear Lake, Iowa, que matou os ícones do rock inicial Buddy Holly, Ritchie Valens e J.P. “The Big Bopper” Richardson, comumente chamada de “o dia em que a música morreu”, em referência à canção “American Pie”, de Don McLean, lançada em 1971, até a morte de seis pessoas, incluindo Tree, de 32 anos (nascido Oliver Tree Nickell), no último fim de semana, acidentes aéreos fatais às vezes podem parecer uma nuvem escura pairando sobre a indústria da música.
A lista de mortes trágicas em acidentes aéreos ao longo do último meio século ou mais parece um sombrio letreiro piscante sobre os potenciais perigos de abrir mão dos voos comerciais ou das viagens por estrada em favor de aeronaves menores. Entre algumas das vidas perdidas nesses acidentes estão:
Patsy Cline: um pequeno avião Piper PA-24 Comanche caiu em meio ao mau tempo em 5 de março de 1963, matando Cline, de 30 anos, e os também artistas country Cowboy Copas e Hawkshaw Hawkins.
Jim Croce: uma aeronave leve bimotora Beechcraft E18S caiu pouco depois da decolagem devido à neblina em 20 de setembro de 1973, matando Croce, de 30 anos, e outras cinco pessoas.
Randy Rhoads: o querido guitarrista de Ozzy Osbourne, de 25 anos, morreu em 19 de março de 1982 quando o avião monomotor de quatro lugares pilotado (sem autorização) pelo motorista de ônibus e piloto particular Andrew Aycock tentou passar rente ao ônibus da turnê de Osbourne, mas atingiu a asa no topo do veículo, fazendo a aeronave entrar em uma espiral fatal.
Stevie Ray Vaughan: o guitarrista e cantor de blues, de 35 anos, e outras quatro pessoas morreram em 27 de agosto de 1990 quando o helicóptero Bell bimotor em que viajavam após um show no Alpine Valley Music Theater, em Alpine Valley, Wisconsin, colidiu com uma pista de esqui próxima logo após a decolagem devido à baixa visibilidade.
John Denver: o experiente piloto de 53 anos morreu quando seu avião leve experimental Rutan Long-EZ de dois lugares caiu na Baía de Monterey em 12 de outubro de 1997 devido a uma alavanca seletora de combustível de difícil acesso.
Aaliyah: um avião leve bimotor Cessna 402 caiu e pegou fogo após decolar das Ilhas Abaco, nas Bahamas, em 25 de agosto de 2001, matando a cantora, de 22 anos, e outras oito pessoas. Investigadores concluíram que a aeronave estava com excesso de bagagem e que o piloto não era certificado para voar aquele tipo de avião.
Jenni Rivera: a cantora e atriz mexicana, de 36 anos, morreu em 9 de dezembro de 2012 quando o Learjet de 10 lugares em que ela e outras seis pessoas viajavam caiu perto de Iturbide, no México, devido ao que os investigadores determinaram ter sido uma perda de controle causada por razões desconhecidas.
A lista também inclui o ícone do soul Otis Redding, o pioneiro do rock Ricky Nelson, o guitarrista do Lynyrd Skynyrd Ronnie Van Zant (e o guitarrista Steve Gaines), o cantor country Troy Gentry, da dupla Montgomery Gentry, o promotor de shows Bill Graham, o cantor colombiano Yeison Jiménez e, em 1991, oito integrantes da banda do ícone country Reba McEntire, quando a asa do jato executivo bimotor em que viajavam atingiu uma rocha na encosta da montanha Otay, perto de San Diego.
Então, por que artistas assumem o aparente risco de voar em aviões menores e helicópteros? Muitas vezes, se podem pagar por isso, essas aeronaves permitem evitar os transtornos de voos comerciais atrasados e lotados, nos quais correm o risco de chegar atrasados aos shows, ter equipamentos perdidos, roubados ou danificados, adoecer ao viajar espremidos entre centenas de passageiros ou serem cercados por fãs e paparazzi. Esses voos também podem aliviar parte da pressão de tempo entre apresentações, permitindo que decolem em seus próprios horários e cumpram cronogramas apertados.
Esse estilo de viagem, porém, não é barato. Voos em jatos privados variam entre US$ 15 mil e US$ 250 mil (aproximadamente R$ 70 mil a R$ 1,4 milhão) por trajeto ou mais, e algumas aeronaves chegam a custar US$ 50 mil por hora de operação. Os riscos também são significativamente maiores. O escritório de advocacia especializado em acidentes aeronáuticos rESQ informa que jatos privados, especificamente os modelos executivos frequentemente utilizados por músicos, registram aproximadamente entre 0,1 e 0,3 acidentes fatais a cada 100 mil horas de voo, contra cerca de 0,006 nos voos comerciais regulares e entre 0,9 e 1,1 na aviação geral como um todo, segundo dados do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos. O relatório também observou que acidentes envolvendo “verdadeiros jatos executivos”, como Gulfstream ou Citation, são “eventos raros”, sendo que a maioria dos acidentes fatais da aviação geral envolve pequenas aeronaves monomotoras a pistão, e não jatos privados movidos a turbina.
Então, por que as estrelas continuam fazendo isso?
“Existe claramente um fator elevado de sensação de invencibilidade aqui, algo como: ‘Por que artistas usam drogas?’”, diz Rob DelliBovi, fundador e CEO da RDB Hospitality, empresa que coordena viagens e hospedagens para músicos e outros clientes capazes de arcar com os altos custos de evitar voos comerciais. “Eles chegaram ao topo e não acreditam que algo possa acontecer com eles.”
Mas, acrescenta ele, desde o trágico acidente de helicóptero de 2020 envolvendo a estrela do Los Angeles Lakers, Kobe Bryant, que matou a lenda do basquete, sua filha de 13 anos e outras sete pessoas, seus clientes passaram a demonstrar uma atenção muito maior à segurança.
“As pessoas estão mais preocupadas agora com perguntas como: ‘O equipamento é bom? Qual é o prefixo da aeronave? Há dois pilotos? O avião tem histórico impecável de segurança?’”, afirma, citando algumas das perguntas que recebe com frequência, às vezes diretamente dos próprios artistas.
Michael Henderson, proprietário da Legal Eagles Aviation, especializada em reconstrução de acidentes e segurança aeronáutica, diz que outra razão para clientes optarem por voos privados é a falta de rotas confiáveis entre determinados destinos ou, principalmente, a necessidade de rapidez. Ainda assim, ele ressalta que esse desejo não supera a necessidade de se sentir seguro em uma aeronave menor.
Henderson rejeita a ideia de que viagens aéreas privadas sejam muito mais perigosas do que voos comerciais. Segundo ele, os pilotos, geralmente ex-militares ou ex-pilotos de linhas aéreas, que operam aeronaves classificadas como “135”, designação da FAA para transportadoras comerciais não regulares sob demanda, como fretamentos de jatos privados e táxis aéreos, frequentemente são tão qualificados quanto pilotos de companhias aéreas ou até mais qualificados em termos de horas de voo e treinamento de segurança.
“Eles não são novatos. São extremamente experientes.”
Além disso, o físico e músico em tempo parcial afirma que o tipo de aeronave enquadrada na categoria 135 que eles utilizam costuma contar com uma equipe de manutenção altamente dedicada, porque essas operações não podem se dar ao luxo de longos períodos fora de serviço, dada sua natureza sob demanda. Elas também estão a serviço de artistas que podem pagar por um atendimento personalizado e que, francamente, costumam passar muito mais tempo no ar do que o passageiro médio.
“É uma questão matemática. Quanto mais você joga os dados, maiores são as chances de tirar um resultado ruim e maior é a probabilidade de algo dar errado, e isso não é diferente para músicos ou para qualquer outra pessoa”, diz Henderson. Ele também destaca que, embora as chances de um músico se ferir ou morrer em um voo privado em comparação com voos comerciais sejam as mesmas que para qualquer outra pessoa, temos mais probabilidade de ouvir falar desses casos por causa da notoriedade deles.
Além disso, em algumas regiões, como a América Latina, a logística de deslocamento dos artistas pode exigir voos privados porque as companhias aéreas comerciais não oferecem serviço regular e em horários adequados para as cidades e regiões onde os eventos acontecem. No México, artistas como a falecida Rivera precisam viajar em aviões particulares porque se apresentam em festas de pequenas cidades e eventos privados em locais sem serviço aéreo comercial. Isso é especialmente verdade quando eles têm vários shows em uma mesma noite, o que não é incomum, tornando sua morte particularmente impactante, porque, assim como Jiménez e a estrela brasileira Marília Mendonça, de 26 anos, que morreu em um acidente aéreo em 2021, ela era uma artista em atividade se deslocando para trabalhar.

Como outro exemplo, DelliBovi citou os festivais Lollapalooza no Chile, na Argentina e no Brasil, que frequentemente acontecem no mesmo fim de semana ou com apenas uma semana de diferença entre si em março. “É a única opção se você toca em São Paulo na sexta-feira e em Buenos Aires no sábado. Não existe outra maneira que não envolva uma conexão ou escala que possa fazer com que você não consiga chegar ao segundo show”, afirma. Ele acrescenta que o intenso circuito europeu de festivais de verão também inclui bandas que fazem vários shows ao longo de semanas, enfrentando tempos de deslocamento potencialmente inviáveis em companhias aéreas comerciais.
Ele também citou o resort Aman, de altíssimo padrão, na República Dominicana, um dos favoritos de seus clientes, que, segundo ele, fica a quase três horas de um aeroporto. “Você não quer passar seis horas voando quando pode usar um voo privado para pousar em uma pista local”, diz.
Embora ainda não estivesse claro, até o fechamento desta reportagem, o que causou o acidente que matou Tree, Henderson afirma que, quando se trata de decolar, os pilotos e suas equipes têm a palavra final. Isso vale mesmo quando celebridades, e suas agendas lotadas, tentam pressioná-los a voar por rotas que aviões comerciais não utilizam, já que eles têm menos flexibilidade para contornar tempestades ou desviar para aeroportos menores indisponíveis para grandes companhias aéreas.
“Cabe ao piloto dizer: ‘As condições estão péssimas, eu não vou voar’”, afirma, referindo-se a situações como a que antecedeu o acidente de Vaughan, que o Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos determinou ter sido causado pela neblina e pela falta de certificação do piloto para voar em condições de baixa visibilidade. Henderson faz referência à designação aeronáutica da pessoa legalmente responsável pela segurança do voo, o “PIC”, sigla para “pilot in command” (“piloto em comando”).
DelliBovi afirma que, desde o acidente de Bryant, os artistas estão mais conscientes e, às vezes, mais cautelosos em relação a voos de helicóptero. Mas, diante da opção de ir do aeroporto JFK, em Nova York, até Manhattan em 11 minutos de helicóptero ou enfrentar duas horas de trânsito, “as pessoas estão dispostas a fazer isso… e a garantir que aquela cláusula extra sobre verificação e qualificações esteja incluída [no contrato]. Os maiores e mais inteligentes nomes estão voando neles, e o número de pessoas com medo de voar é baixo. Vale a pena para eles. Noventa por cento dos artistas fariam isso se pudessem pagar, e eles entendem o risco.”
Em uma reportagem da Billboard publicada em 2025 sobre o universo dos jatos privados de alto padrão, Greg Raiff, CEO da Elevation Aviation Group, afirmou que, embora os helicópteros ofereçam a maior flexibilidade, “75% ou talvez 80% dos nossos clientes se recusam a entrar em um deles hoje em dia”, na esteira do acidente de Bryant.
O New York Times informou naquele mesmo ano que, segundo Arnold Barrett, professor de estatística da Escola de Administração Sloan, do MIT, o risco de morrer em um voo comercial é “próximo de zero”, com os cinco anos anteriores figurando entre os “mais seguros da história da aviação comercial”. Em comparação, a probabilidade de morrer em um acidente de carro é de cerca de uma em 95. O jornal também observou que a taxa média de acidentes fatais envolvendo todos os helicópteros dos Estados Unidos entre 2019 e 2023 foi de 0,690 a cada 100 mil horas de voo, significativamente superior à registrada por aviões comerciais e fretados. Além disso, os helicópteros registraram uma taxa de acidentes de 3,92 por 100 mil horas de voo, contra 1,04 dos serviços de fretamento e 0,15 das companhias aéreas comerciais.
O preço dessas viagens costuma ser impressionante, mas DelliBovi sugere que, da mesma forma que você não escolheria um médico mais barato para realizar uma grande cirurgia, ele aconselha seus clientes de que “o mais barato não é melhor”. Se o proprietário de uma aeronave oferecer um desconto de US$ 10 mil em relação a outra empresa qualificada, “eu diria para não reservar aquele avião. Estamos transportando alguns dos maiores nomes do mundo e não podemos brincar com a ‘Companhia Aérea do Joãozinho’.”
No fim das contas, Henderson afirma que existe uma pressão “enorme” sobre pilotos privados para levar seus clientes famosos ao destino da forma mais rápida e eficiente possível. E, embora mortes trágicas de celebridades em acidentes aéreos ganhem manchetes e deem a impressão de serem ocorrências frequentes, “na verdade é menos perigoso quando você faz as contas”, diz ele, referindo-se à probabilidade de um músico morrer ou sofrer ferimentos graves em um acidente da aviação privada em comparação com um civil ou executivo que viaje da mesma forma.
“Quantos músicos estão voando todos os dias e quantos acidentes acontecem? Em geral, não é diferente de qualquer outra pessoa que viaje em uma aeronave da categoria 135, de um pedreiro a uma estrela de rodeio.”
TRENDING
- Stray Kids: Felix representa o hanbok coreano em campanha global em 2026 17/06/2026
- Após um ano, ‘Guerreiras do K-pop’ ainda domina a Netflix – e vem mais por aí 17/06/2026
- Grammy anuncia categoria de música asiática para a edição de 2027 16/06/2026
- JAY do ENHYPEN cria guitarra para iniciantes e homenageia fãs no lançamento 18/06/2026
- aespa: homem é condenado à prisão por criar deepfakes de integrantes 18/06/2026