Nasi, do IRA!: ‘Infelizmente, pessoas da minha idade não estão envelhecendo bem’
Vocalista comentou shows cancelados no sul do país após ataque bolsonarista

Nasi, em cena do clipe "Dias de Luta" (Reprodução)
O cantor Nasi afirmou, “com muita tranquilidade”, que os shows cancelados no sul do país foram feitos de comum acordo com o contratante e serão deslocados para um novo e menos agitado futuro. Em depoimento à Billboard Brasil, por telefone, o vocalista contou detalhes da noite em Minas Gerais —que originou a fúria bolsonarista— e de como considera fascista o movimento que o colocou como um dos assuntos mais comentados desta quarta (9). Aos 63 anos, ele também cita artistas como Roger Moreira e Gusttavo Lima —habituais apoiadores de Jair Bolsonaro— como exemplos opostos de sua atuação.
Após os cancelamentos no sul, o Ira! se apresenta em Dourados (MS), no dia 25 de abril.
Abaixo, leia a entrevista exclusiva na íntegra de Nasi, do IRA! à Billboard Brasil
Depois que você soube do cancelamento, quais foram seus primeiros pensamentos?
Esses shows foram cancelados em comum acordo com o contratante. Fizemos com muita tranquilidade. A gente achou, por ora, transferir para o futuro. Porque houve um bombardeiro desses fascistas. Porque eles agem de maneira fascista. É engraçado porque até o contratante falou que recebeu mensagens de pessoas de Manaus, algo como “ah, eu não vou no show.” (risos)
O cara nem ia no show! Esses caras que estão enchendo o saco aí, robozinho… Todo mundo sabe como o gabinete do ódio age, né? Daqui a pouco eles eles pegam outro para Cristo. Numa boa, o Ira! saiu maior do que entrou nessa história.
Quais são os bastidores daquele show em Minas Gerais —o que inicia tudo isso?
Eles [os bolsonaristas] fizeram um recorte. Um recorte que não dá exatamente a noção da realidade. Eu vou te dizer o que aconteceu, claro, segundo a minha versão. Eu estava no show, tranquilo. Em um determinado momento do show, o público, a maioria, começou a entoar “Sem anistia!” [o brado refere-se a tentativa da extrema-direita de adquirir perdão para os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023].
Inclusive, foi engraçado porque foi no meio de “Rubro Zorro” [canção lançada em 1988, no álbum “Psicoacustica”]. E era eu cantando “O caminho do crime o atrai” e o público gritando “Sem anistia!”. Ficou perfeito, né? Acabou a música, eu realmente dei apoio. Falei: “É isso aí! Sem anistia!”. Aí, eu comecei a ser hostilizado por um grupinho —que teve o seu direito de dar opinião, que é a favor da anistia, e eu também tive o meu direito de comentar a vaia deles.
Isso gerou ainda mais inconformidade sua com o tema?
Eu nem entrei muito no aspecto político, né, Yuri, porque essa anistia é uma farsa, entendeu? Isso é um acinte à democracia. Mesmo porque as pessoas não prestaram atenção, esses bobalhões aí, os cínicos, essa direita e essa extrema direita —é bom que se fale isso, é uma extrema direita— eles esquecem que não existe no projeto de lei da anistia o “8 de janeiro:. O que existe é o 30 de outubro que, por coincidência, é a data que a Polícia Federal estabeleceu como início das atividades da organização criminosa. E as pessoas ficam nessa de “coitadinha do batom” —que é a aquela mesma que deixou filhos em casa para ir para acampamento golpista.
A discussão deveria ser: “vamos tentar ver a questão com isometria”. Mas impunidade para os golpistas? Para planos de assassinato? A gente estaria em uma ditadura. É muito sério isso. A maioria da população brasileira já mostrou que é contra a anistia.
meia dúzia de bolsonaristas passaram aquela VERGONHA durante o show do IRA em Contagem. Eles vaiaram a banda após o vocalista Nasi gritar ‘Sem anistia!’: “Vão embora e não voltem mais aos nossos shows. Não comprem nossos discos. Não apareçam mais. É um pedido que faço a vocês.” pic.twitter.com/eX2KrHbXiF
— Política e Fatos (@politicaefatos) April 3, 2025
E como está a sua sensação agora após ver seu nome misturado em uma conversa política nas redes?
Eu, talvez, tenha exagerado, e não tenha sido claro quando eu falei. Eu não expulsei ninguém. Primeira coisa, eu não falei: “Saiam daqui agora”. Eu não mandei nada. Eu falei assim: “Olha, vocês não conhecem a história do Ira, não conhecem as letras do Ira!”.
O Ira! é uma banda progressista. Nós somos democráticos. Nós passamos pela ditadura. O que eu quis dizer é o seguinte: eu não quero ter público fascista. Agora, se o público fascista, de extrema-direita, quer consumir minha música, o que eu posso fazer? Posso fazer nada. Não é do meu agrado, sabe? Eu não quero. Tem outras bandas. Vão curtir Ultraje a Rigor. Eu tenho 50 shows até o final do ano. O Ultraje tem seis. Por que eles não vão encher o saco dos contratantes para contratar esses porras?
Lamento. Mas, repito para você, eu e o Ira! saimos maior do que entramos. Eu tive o trabalho de mensurar todas as mensagens que recebi e 80% me apoiavam. Os outros eram emoji de coco, “comunista lixo”… Eles pensam que me afetam. Você conhece uma pessoa não pelos amigos que ela tem, mas pelos inimigos. Então, se essa gente é minha inimiga, do Ira!, eu me sinto satisfeito.
Meu Instagram cresceu 10% —e bloqueamos muita gente.
Teu discurso no palco colocou a banda junto a um assunto que movimenta as redes e acabou aproximando pessoas das atividades atuais do Ira!. Você acha que esse movimento atualiza o discurso político da banda junto aos roqueiros?
Eu sinceramente não tive essa intenção. Não foi programado. O Edgard [Scandurra] chegou para mim e disse “Pô, você devia ter me avisado”. E eu falei: “Não tinha como! Foi mais forte do que eu!”. Ele deu risada. Não foi jogada de marketing. Aconteceu. Agora, se o destino colocou esse fato no meu caminho para trazer isso que você está falando, então, eu repito: saímos maior. Eles acham que me insultam falando que sou “decadente”, “vai tocar na Venezuela”. Eu dou risada. É gente que nem nos ouve. Teve três pessoas no Instagram que eu tive o trabalho de responder, em áudio. Pessoas que chegaram, educadas, e disseram “eu comprei ingresso pro seu show, sou de direita, acho que não vou no show”. Eu respondi com “cara, não faço seleção de público. Respeito quem é conservador” Mas eu não aceito extrema-direita. Tem outras bandas para curtir.
Eu estou cansado de responder a pergunta “por que o rock ficou de direita?”. Ficou de direita nada! Por causa de dois, três idiotas? Depois disso, a pessoa até respondeu “Obrigado, Nasi, agora eu fico tranquilo”. Esse tipo de pessoa vai ter diálogo comigo.
Mas também teve uma coisa, né? O sábado que aconteceu isso antecedeu o mais novo fiasco do bolsonarismo na direita na Avenida Paulista, onde eles queriam pôr um milhão de pessoas e quarenta mil pessoas. Então, a direita e a esquerda também aproveitaram esse episódio. Shows caem. Sabe? A caravana vai passar, os cachorros vão latir. Mas serviu para mostrar que somos o Ira! e estamos envelhecendo com muita dignidade. Infelizmente, pessoas da minha idade não estão envelhecendo bem.
Se os shows não fossem cancelados, você chegou a pensar na sua postura à frente da banda no sul do país?
Não. Sinceramente, eu não sabia que ia tomar essa proporção toda. Primeiro: eu não cometi nenhum crime, correto? Eu não sou cantor que está respondendo por lavagem de dinheiro com o PCC. Não é? Você sabe de quem eu estou falando… Do Gusttavo Lima. O ídolo deles. Eu tenho que ter vergonha? Ou ele? Não tô falando que ele é culpado… Mas só de responder um processo desse, já é uma coisa muito ruim.
Cara, isso é tão fugaz. Eu vou te dizer: no sábado seguinte, nós fomos fazer show em Boa Vista, Roraima. E fomos avisados: “olha, pessoal, 80% daqui votou no ‘coiso'”. Inclusive, encontro de motociclista, sabe? Cara, os motoqueiros foram me receber na pista, falaram do show… Eu ainda brinquei com eles que ia ser tranquilo e sem polêmica. O show foi totalmente normal. Eu até me decepcionei porque não vi um desgraçado me dar o dedo do meio. Sabe? Eu já tava preparado. Show foi maravilhoso.
Eu lembro que no segundo turno do Lula x Bolsonaro, rolou algo parecido em Recife. Só que não deu a mesma repercussão. Eu mandei o “Bozo” praquele lugar e o público veio abaixo, a meu favor. Mas um grupinho, lá trás, filmou e me vaiou. E aí rolou vídeos com “Nasi tenta lacrar e é lacrado”, o Flávio Bolsonaro, a Zambelli, postaram… Depois desse evento, eu fiz show em Tubarão, em Santa Catarina e todo mundo preocupado… Sabe? Isso é tudo tio do zap. Tio do zap e robô.
Aí eles vão e enchem o saco do contratante. Isso é fascismo. Alguns tem “culhão” e seguram a onda; outros, não. Não estou falando que foi o caso desse —porque foi de mútuo acordo. A vida vai seguir. O Ira! vai continuar seguindo o Ira!.
Quando tivemos que peitar o Chacrinha, o Ira! peitou [a banda, que não gostava de fazer playback, se recusou a usar um chapéu de papai noel no programa do apresentador, o que gerou represálias como um possível boicote na Globo]. Eu enfrentei festival [Rock In Rio], em 1987.
Eu não sou palestrinha. Quem acompanha a banda, sabe. Mas eu não tenho o direito de me manifestar? Eu tenho o dever! Não é defender político. Ano passado, quando teve a questão do “criança não é mãe” eu também estava lá, me manifestando. Sempre que tiver algo absurdo, assim, no Brasil, algo que ponha em risco nossa democracia, eu vou dar meu testemunho.
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