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Menos é Mais chegou ao topo do pagode saindo de Brasília

Menos é Mais ganhou fama na internet e conquistou o país

Na madrugada de 18 de abril de 1956, o então presidente Juscelino Kubitschek assinava a Mensagem de Anápolis, marco da mudança da capital federal do Rio para a futura Brasília. Quatro anos depois, em 21 de abril de 1960, a cidade idealizada por Lúcio Costa nascia com a força dos candangos — 44% vindos do Nordeste — que ajudaram a erguer o sonho modernista. Mais de seis décadas depois, a capital que abriga “todos os Brasis” volta a se destacar pela música: se nos anos 1980 Brasília brilhou com o rock BR e a cena alternativa, hoje é o pagode que coloca a cidade em evidência, com o grupo Menos é Mais à frente.

Formado atualmente por Duzão, Gustavo Goes, Ramon Alvarenga e Paulinho Félix, o grupo dominou não só o gênero nascido, criado e sustentado no eixo Rio-São Paulo, mas os quatro cantos do país e o topo das paradas de sucesso. Na Billboard Brasil, as canções “Coração Partido” e “P do Pecado”, parceria com Simone Mendes, passaram boa parte do ano na liderança do Billboard Brasil Hot 100, uma marca inédita para o pagode brasileiro e que dá a dimensão do sucesso do grupo.

“‘Coração Partido’ foi um divisor de águas na nossa vida. Não só o Menos é Mais, mas o pagode, de uma forma geral, cresceram bastante com a música”, diz Duzão, que acredita que fazer pagode hoje é muito mais fácil. ”Hoje pagode é bonito, é moda.”

No próximo ano, o Menos é Mais completará 10 anos de uma história que começou nos barzinhos da capital federal. Mesmo sendo famosa pelos grupos de rock e uma cena de rap consistente, Brasília também tem um circuito de casas e bares menores com foco em samba e pagode. Foi nesses locais que o grupo começou como muitos outros: cantando sucessos de outras épocas, principalmente do que ficou consagrado como Pagode 90.

A fama local foi aumentando e o grupo conquistando plateias de 200, 500, 1.000 pessoas… Até que em 13 de dezembro de 2019, uma publicação no YouTube do grupo iria mudar tudo. Um trecho do “Churrasquinho do Menos é Mais” caiu nas graças da galera e viralizou. Em fevereiro de 2020, um show no Samba da Feira, na Bahia, já mostrava a mudança de patamar, o grupo encontrou uma plateia de cerca de 10 mil pessoas.

Em março, todos se trancaram em casa por causa da pandemia e a coletânea de pagode caiu nas graças da galera pra fazer companhia e levantar o astral. O vídeo começou a subir desenfreadamente. Hoje, cinco anos depois, o vídeo no qual o Menos é Mais canta “Melhor Eu Ir” (Péricles), “Ligando os Fatos” (Pique Novo), “Sonho de Amor” (Nosso Sentimento) e “Deixa Eu te Querer” (Gustavo Lins) com os parceiros Vou Zoar e Di Propósito já soma a impressionante marca de mais de um bilhão de visualizações.

Ramon lembra a sensação de ver o estouro: “A gente não acreditava nos números, né? Era como ver dinheiro de videogame, que só cresciam os zeros. Você vê lá um tantão… E aí? Como é que isso na real? Então, a gente ficava com esse gostinho de querer ver ao vivo, a reação do povo”.

A reação do povo ao vivo foi ainda melhor. Para o grupo, nascer fora do eixo Rio-São Paulo — mais precisamente em Brasília — foi decisivo para o sucesso. A distância dos centros deu ao grupo uma visão mais ampla da musicalidade brasileira. O samba, marcado por tradições e ancestralidades, nunca deixou de se reinventar: nos anos 1990, o pagode incorporou novos instrumentos, ampliou seus discursos e abriu diálogo com outros gêneros populares, como sertanejo e forró.

O Menos é Mais elevou ainda mais essa intersecção de gêneros. “Lapada Dela”, parceria com o forrozeiro Matheus Fernandes, é um bom exemplo para além da participação de um artista de outro segmento: começa com linhas de um reggae bem pop e estoura o refrão em um bom pagode.

E na base de tudo isso estão as origens de cada indivíduo. O percussionista Ramon, por exemplo, traz sua essência de uma vida criada em terreiros de umbanda; já Paulinho – que também é o responsável pela produção musical do grupo – ressalta o impacto da cultura Bumba Meu Boi na sua trajetória musical.

Um dos produtores mais frequentes do Menos é Mais é Dudu Borges, destaque do sertanejo que já trabalhou com grandes nomes como Luan Santana, Gusttavo Lima, Matheus e Kauan e muitos outros. Em 2011, ele foi responsável por produzir o álbum homônimo de João Bosco e Vinícius que ganhou o Grammy Latino na categoria de melhor álbum de música sertaneja.

Os quatro integrantes se dizem “chatos” quando o assunto é opinar no resultado de um trabalho de grupo, já que a meta é sempre inovar. “Brasília sempre foi um ponto de encontro de culturas, gente de todos os lugares do Brasil. Tá um pouco na essência da gente testar, de ver coisas novas”, conta Paulinho.

Certa vez, eu estava no camarim de um renomado grupo de pagode, onde grandes nomes do gênero conversavam sobre renovação. Enquanto uns reclamavam que faltava novidade no mercado, outros apontavam que as novidades até existiam, mas eram dependentes de uma fórmula antiga: as regravações de sucesso.

Por algum tempo, o Menos é Mais carregou esse estigma por ter despontado em plena pandemia com um pot-pourri de sucessos já consagrados em outras vozes. Um deles era “Ligando os Fatos”, eternizada pelo grupo Pique Novo. Em 2021, conversei com Liomar, vocalista do Pique Novo, que fez questão de rebater as críticas ao Menos é Mais: “Essas releituras fazem com que o pagode dos anos 1990 e início dos 2000 nunca saia de moda. Eu vejo isso com muito orgulho e carinho, é um reconhecimento do nosso trabalho”.
Ainda, investir em covers como forma de conquistar o público antes de apresentar repertório próprio é uma fórmula mais do que natural no mercado. Foi exatamente esse caminho que o quarteto seguiu: em 2019 já apresentava a autoral “Na Voz do Povo” e, no ano seguinte, lançou dois EPs recheados de composições próprias. O diferencial deles, porém, está em não abrir mão das regravações, que o grupo trata como homenagens a quem construiu a história do gênero.

O grupo da Geração Z
2025 foi um ano muito especial pro pagode. Além do destaque nas plataformas de streaming, conseguindo ocupar o primeiro lugar do Top 50 do Spotify, o gênero (com o Menos é Mais) também foi destaque nas rádios, com “Coração Partido” e “P do Pecado” ocupando a liderança de várias estações pelo país.

Os dois números são impressionantes. Por conseguir desbancar o sertanejo na rádio, que reinou por sete anos como o gênero mais ouvido do país. Mas vale destacar com mais afinco o sucesso nos streamings, pois há uma ideia no mercado de que o pagode funciona na rua e na rádio, sendo assim, plataformas como YouTube e Spotify ficam em segundo plano no plano de carreira de muitos artistas.

“Para quem não tem ideia, que acha que é só Spotify e YouTube, a rádio ainda molda muita coisa. Por mais que a gente esteja vivendo em uma era de internet, em que todo mundo tem acesso fácil ao celular, tem muita gente que ainda não tem condições de pagar um aplicativo mensal. E a rádio chega nesses lugares sem acesso digital”, diz o percussionista Gustavo.

Duzão completa o pensamento: “A rádio impacta a gente em uma cidade pequena, por exemplo. A gente chega lá e as músicas novas já estão tocando. A gente canta e a galera canta junto para caramba.” E vai além: ˜E é uma sensação muito boa estar em casa, botar no rádio e ouvir a sua música. Eu acho que até a gente mesmo que tem acesso ao digital acaba escutando rádio indiretamente, né? Você está no carro, às vezes não dá tempo de mexer no celular, ligou o carro e já está ali na rádio. Você entra no Uber, está tocando rádio. É um negócio de sentir de fato a sua música tocando na rádio.”, completa o vocalista.

Recentemente, a Billboard Brasil fez uma lista dos 25 maiores grupos de pagode da história e Menos é Mais estava lá, na 25ª posição. Entre os motivos entregues pelos votantes, um dos principais é a maneira como o grupo se conectou com a geração. “Tem gente que chega e diz: ‘Pô, comecei a escutar pagode escutando Menos É Mais’. Pô, maneiro, mas antes você tem que escutar isso aqui, ó. A gente começa a falar das nossas referências, porque o jovem que escuta Menos É Mais não escuta [logo de cara] Revelação, Fundo de Quintal. Você tem que ir lá atrás, e depois você curte a gente.”, comenta Gustavo.

No estúdio para as fotos desta capa, Duzão é quem comandava o som e botava todo mundo para dançar. O DJ da tarde/noite direcionou toda sua discotecagem no mood samba-rock, com “Bons Momentos”, do sambista Serginho Meriti, que tem um carreira brilhante não só como cantor, mas principalmente como compositor de sucessos como “Deixa a Vida me Levar”, eternizada na voz de Zeca Pagodinho, e “Meu Bom Juíz”, clássico da discografia de Bezerra da Silva. Essa cena ilustra que desde Donga e “Pelo Telefone”, passando por Fundo de Quintal, fazendo uma pausa no Pagode 90 e chegando Menos é Mais, no mundo, tem alteração, e o samba continua…