Macumba, música e feitiçaria: 5 canções da MPB que celebram os terreiros
De Martinho à Gangrena Gasosa, a força dos sons que cantam as religiões afro
“Trump tem a bomba atômica e o Brasil tem a macumba da Alcione.” O meme ganhou as redes após a cantora mandar um recado ao presidente americano durante o programa “É de Casa”: “Hoje, quando sair daqui, vou fazer uma macumbinha para Trump.” Filha de Xangô e Yansã, Marrom é uma das vozes mais potentes a reivindicar o direito de existir com orgulho no “Brasil da macumba”.
Na música brasileira, essa força se manifesta há décadas — do samba ao metal, da bossa nova ao funk — muitas vezes com enfrentamento, outras com celebração, quase sempre com humor e beleza. “Macumba” é um termo amplo, muitas vezes usado de forma geral para classificar de maneira única a Umbanda, Quimbanda, Candomblé e outros cultos de matriz africana. É o que explica o historiador Luiz Antonio Simas ao definir: “Macumbeiro: definição de caráter brincante e político que subverte sentidos preconceituosos atribuídos de todos os lados ao termo repudiado e admite as impurezas, contradições e rasuras como fundantes de uma maneira encantada de encarar e ler o mundo.”
Nesta lista, reunimos cinco músicas que evocam esse encantamento. Tem ponto cantado com suingue de terreiro de Vinicius de Moraes e Baden Powell, samba de afirmação religiosa de Martinho da Vila, deboches metal-umbandistas da Gangrena Gasosa e o sincretismo pagodeiro de Zeca Pagodinho. Como define Simas, “macumba seria, então, a terra dos poetas do feitiço; os encantadores de corpos e palavras que podem fustigar e atazanar a razão intransigente”. Saravá!
“Festa de Umbanda” – Martinho da Vila
Lançado no seminal “Canta, Canta Minha Gente” (1974), “Festa de Umbanda” é um medley com diferentes pontos das religiões afro. A letra celebra os elementos fundamentais da Umbanda e menciona entidades centrais dos cultos de matriz africana, como Tranca Rua, guardião das encruzilhadas e das giras noturnas, e Ogum, orixá guerreiro que “manda” a gira acontecer. O sino da igrejinha e o canto do galo à meia-noite marcam o início do ritual, em sincretismo com o catolicismo popular. A segunda parte exalta os caboclos da floresta, como Sete Flechas, Mata-Virgem e Cachoeira, com imagens da mata, da samambaia e da dança ritualística
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“Canto de Ossanha” – Vinicius de Moraes e Baden Powell
A canção talvez seja a mais famosa de “Os Afro-Sambas” (1966), gravado pelos mestres Vinicius de Moraes e Baden Powell. O disco é um marco da música brasileira pois entrelaça o lirismo da bossa nova com a liturgia do candomblé. Inspirada nas cerimônias religiosas afro-baianas e no sincretismo entre orixás e santos católicos, a canção toma Ossanha como símbolo da sabedoria espiritual que repele os enganos do coração. Ossanha aparece em tensão com Xangô, orixá da justiça.
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“Patota de Cosme” – Zeca Pagodinho
É até difícil escolher apenas uma canção de Zeca Pagodinho para entrar nessa lista. “Patota de Cosme”, faixa-título do segundo disco do sambista, mistura com irreverência e fé o universo do samba com o imaginário das religiões afro-brasileiras. A música parte de uma situação pessoal — uma mulher que teria recorrido à macumba para “amarrar” o eu-lírico — e se desdobra num samba de proteção espiritual, no qual São Cosme e Damião, orixás-crianças sincretizados no candomblé com Ibeji, são invocados como guardiões contra o mal.
“Filhos de Gandhy” – Gilberto Gil
Composta por Gilberto Gil, “Filhos de Gandhy” é uma ode em ritmo de afoxé à ancestralidade, à religiosidade afro-brasileira e à beleza do bloco baiano que inspira seu nome. A canção convoca, em forma de ladainha e louvação, os orixás do candomblé — Omolu, Ogum, Oxum, Oxumarê, Iansã, Iemanjá, Xangô, Oxóssi — para “descer e ver” os Filhos de Gandhy desfilando no Carnaval de Salvador. Gil conecta, assim, a festa profana ao sagrado, ressaltando a dimensão espiritual do cortejo branco e azul criado por estivadores em 1949. Inspirado na filosofia de Mahatma Gandhi, o bloco é uma afirmação da cultura negra e resistência simbólica contra o racismo.
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“Rei do Cemitério” – Gangrena Gasosa
Com vocal gutural e riffs violentos, a música da banda carioca Gangrena Gasosa, é um manifesto sonoro de devoção e provocação, onde o sincretismo religioso se alia à agressividade do crossover thrash para formar o que o grupo batizou como Saravá Metal. A faixa invoca Omulu/Obaluaiê, orixá ligado à peste, à cura e aos mortos, retratado com força e ambiguidade: é ao mesmo tempo aquele que traz a doença e quem detém o poder de curar, “rei do cemitério” que domina o reino da calunga, o mundo dos mortos. O uso de termos como atotô (saudação a Omulu) e ajuberô, bem como menções diretas a Exu, Tatá Caveira e Obatalá, inscreve a música no campo das religiões afro-brasileiras, mas transgredido pela estética punk-metal.
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