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Karinah, a voz que o samba lapidou e que vem conquistando o Brasil

A cantora Karinah (Guto Costa/Divulgação)

A cantora Karinah (Guto Costa/Divulgação)

Uma manhã chuvosa e caótica em São Paulo, Karinah  chega ao estúdio da Billboard Brasil distribuindo abraços, beijos e um sorriso largo. Ela me olha nos olhos como quem reconhece alguém de longa data. É assim que ela começa tudo: pelo afeto, pelo encontro, pelo corpo inteiro presente.

Karinah começou a falar do samba como quem fala de um lar. “O samba é a realidade do país. É resistência. Ele me lembra o tempo todo de onde eu vim e para onde eu quero ir.”

Sua história começa no sul do país em Curitiba, em uma família simples sem músicos, mas cheia de música. Começa ainda menina, quando foi apresentada por uma tia mineira ao LP Brasil Mestiço de Clara Nunes que ouvia, cantava e sambava no meio da sala. “É incrível, a alegria de quando eu ouvia “Morena de Angola”, e ainda permanece igual. O samba sempre me transporta para aquele lugar”, ela diz.

Aos 12, já cantava em festivais no Sul e nessa época chegou a cantar para o rei Pelé quando ele visitou um internato cuidado por freiras onde chegou a estudar. Aos 17, já ganhava seu sustento cantando em noites de chorinho, bares e campanhas publicitárias. Aos 19, descobriu o Morro da Caixa, em Florianópolis, e entendeu que o samba não tem CEP. “O samba pode brotar em qualquer cantinho desse Brasil. Tem muita verdade por onde quer que chegue.”

Karinah em turnê com Alcione (Divulgação)
Karinah em turnê com Alcione (Divulgação)

Ela sonhava com o carnaval do Rio de Janeiro que via pela TV, mas o primeiro grande impacto veio em 2000, com o desfile da escola de samba Copa Lord, em Florianópolis. “Achei de uma ousadia… aquilo me despertou para conhecer mais. As escolas de Floripa são muito respeitadas, mas não têm destaque nacional.” Foi ali que ela começou a frequentar rodas de samba e conhecer compositores locais e a entender que sua voz tinha destino.

O destino ganhou forma quando uma amiga a inscreveu no primeiro “Ídolos” sem avisar. “Eu fui passando, passando… graças a Deus”, ri. O programa deu visibilidade e levou Karinah à Bahia para conhecer os artistas de lá, cantar em trio elétrico e abrir grandes shows pelo país — inclusive o de Ivete Sangalo, onde conheceu Letieres Leite, o maestro que mudaria sua vida.

“Ele me levou para estudar na Bahia e para entender o samba de outro jeito. Aquele foi um ciclo muito importante da minha vida.” Letieres a preparou para o primeiro álbum, Você Merece Samba de 2012, gravado no Rio, onde ela desembarcou já apadrinhada. “Cheguei com o nome dele. No samba tem muito disso.”

Já nesse primeiro álbum, Arlindo Cruz colaborou com canções e a apresentou à elite do samba carioca. “A amizade com Arlindo me abriu portas”, ela descreve, com os olhos marejados. “Ele me levou para tudo quanto é lugar. Dizia: ‘A gente tem que viver o que se canta e cantar o que se vive’.”

Na época também conheceu Almir Guineto e Jorge Aragão, mas foi a Dona Ivone Lara que Karinah confessou sentir dificuldades e preconceito em ser uma voz feminina, em meio a um universo tão masculino: “Ela falava: ‘Chega com o coração, no miudinho que dá certo, seu canto é bonito’. Foi minha base sólida.”

Devagarinho, Karinah foi trilhando o caminho, levou seu samba ao festival de Montreux e a palcos europeus, gravou e se apresentou com nomes de diferentes gerações do samba e do pagode, lançou cinco álbuns e segue empenhada em compor e honrar a ala de mulheres sambistas do Brasil.

Em 2024, Alcione, uma de suas maiores referências, também a abraçou e a convidou para abrir 33 shows da turnê que marcou seus 50 anos de carreira.

Karinah canta com Zeca Pagodinho no lançamento de "Meu Samba" (Roberto Filho/Divulgação)
Karinah canta com Zeca Pagodinho no lançamento de “Meu Samba” (Roberto Filho/Divulgação)

A parceria com Alcione veio como confirmação de pertencimento e muito aprendizado. “Ela é uma inspiração de vida para mim”, diz. “Nunca vi Alcione tratar um fã com desrespeito. Ela trabalha muito, trata todo mundo com carinho. Eu olhava e pensava: ‘Não tenho o que reclamar da vida’.”

Foi no show da Marrom que Zeca Pagodinho fez questão de conhecer Karinah, ao vê-la cantar. A consagração desse período veio logo depois, quando Zeca decidiu produzir o álbum Meu Samba, que Karinah lançou no ano passado. Foi um gesto simbólico e raro — Zeca nunca havia assumido a direção artística de um disco. “Ele falou: ‘Vou fazer com você a mesma coisa que a Beth Carvalho fez comigo. Vou te jogar no mundo’”, lembra, ainda surpresa com a generosidade.

O álbum, que reúne composições de Moacyr Luz, Nelson Rufino, Dunga e do próprio Zeca, que participa da canção”Foi Um Sonho”, marcou uma virada na carreira da sambista, consolidando sua maturidade artística.

Quando a inquietação vira ação

Durante a pandemia, Karinah transformou inquietação em ação e criou o projeto “Por Elas”, que reuniu 27 mulheres do samba. “A gente fala muito de empoderamento feminino, mas na prática precisa fazer alguma coisa”, ela explica. “Eu pensei: ‘É agora’. Foi um estudo profundo sobre voz, repertório, timbre. Foi majestoso.”

A conversa muda de temperatura quando ela fala da Beija-Flor. A voz embarga. “Neguinho da Beija-flor me chamou no meio de um projeto na pandemia. Disse: ‘Você vai sair comigo no carro de som’. Eu achei que era brincadeira. Não era. “Desde a década de 70 ele não levava cantoras na avenida. Quando ele falou aquilo, eu tremi.”

Mas ela fez questão de deixar claro: “Meu coração é metade verde e metade rosa.”  E é mesmo: desde 2023, Karinah aceitou o convite de ser musa da Mangueira, fruto de sua presença afetiva e constante na escola, onde se envolve também com os projetos sociais.

Karinah e Carlinhos Brown, que lhe presenteou com "Ripiei" (Divulgação)
Karinah e Carlinhos Brown, que lhe presenteou com “Ripiei” (Divulgação)

No final de 2025, Karinah lançou o single “Ripiei”, composição de Carlinhos Brown e André Limma, com produção de Pretinho da Serrinha. “Brown tá na minha vida desde o primeiro álbum.” O clipe, gravado entre a Baía de Guanabara e Baía de Todos os Santos, é uma celebração de afetos, ritmos e ancestralidade.

Carnaval de 2026 foi uma maratona que atravessou Salvador e Rio. Na Bahia, foi convidada para cantar nos trios de Margareth Menezes, Nelson Rufino e Carlinhos Brown, apresentando-se com a banda de Beth Carvalho, e no Expresso 2222.

No Rio cantou no megabloco Bangalafumenga, no tradicional Terreirão do Samba — e, no meio disso tudo, desfilou na verde‑rosa na Sapucaí, onde saiu deslumbrante com a fantasia “Raízes do Amapazeiro”, “A Mangueira me dá chão”, ela diz.

A voz  feminina que o samba conquistou no sul do Brasil e lapidou na Bahia e no Rio de Janeiro, aprendeu que o caminho é um eterno professor. “O samba tem o tempo dele. Eu precisava passar por tudo isso para entender.” Ela respira fundo e conclui: “A mulher no samba não nasceu para ficar com as sobras. Nasceu para ocupar seu lugar com garra e respeito.”

Karinah fala isso com a mesma doçura com que entrou no estúdio — abraçando, sorrindo, ocupando o espaço com verdade. E talvez seja essa a síntese da sua trajetória: uma força mansa, construída no miudinho, que o Brasil inteiro começa a conhecer melhor.