João Gomes está bem. Mas a resposta muda na segunda pergunta de um papo de mais de uma hora do cantor com a Billboard Brasil para a matéria de capa da edição #17,já à venda em nosso site.
— Mas você está bem mesmo? — insiste o repórter.
— Essa é a mais difícil. A gente responde que está bem, mas nem todo mundo quer ouvir mesmo como você está —ele responde quase-tímido, mas também quase-muito-pronto para entrar em uma terapia.
João Gomes fala de sucesso, álcool e saúde mental.
João Gomes tem um causo que virou clássico entre os amigos — e continua vivo na mente do cantor de 22 anos. Alçado ao sucesso quando ainda estudava agropecuária em Serrita, cidade pernambucana que fica mais perto da Bahia do que da capital, Recife, João tinha preocupações simples: um celular melhor para gravar suas cantorias, a prova de química, não dar mole para os namoricos, tomar uma. De repente, a discografia e os cachês engordaram. E, então, João estava adulto: marido, pai de dois filhos e, por muitas vezes, com saudade dos tempos mais simples, do antigo João.
Originalmente chamado João Fernando em tributo a um tio seu, cidadão de vaquejada em Serrita, o cantador mais pop da música contemporânea daqui também foi, em algum momento, o mais triste, desabonado, enclausurado, introvertido, sonolento, entediado e solitário. Crescer rápido demais tem preço. A metamorfose de JF para JG lançou um meteoro dissonante na galeria de biografias da música popular brasileira.
“Essa história meus amigos vivem pedindo: ‘conta, conta!’. Eu conto. Dá muita alegria pra eles”, diz o cantor. Minutos antes, durante o ensaio que ilustra essa entrevista, ele contava o mesmo causo a uma conterrânea — Dona Carmem Virgínia, hoje chef renomada em São Paulo, dividida entre o prazer de tocar seus negócios longe da periferia natal e a saudade dos filhos numa cidade que acolhe por obrigação quem vem de fora.
É aí que começa a fábula: JG se estabelece em Recife na véspera do São João de 2024, pouco depois de lançar “Vaquejada Tá na Moda”, seu quinto álbum — depois viriam mais três. “Eu estava me sentindo muito só”, diz, com a honestidade habitual de JF, aquele que nunca teve medo de se expor. A solidão, afinal, tem sido uma presença constante nessa travessia entre os dois jotas.
Passado o São João, ele regressava à capital pernambucana e aos braços de sua esposa Ary Mirelli e seus dois filhos, Jorge e Joaquim. Em poucos dias, ele também comemoraria seu aniversário. Discreto, ele não tinha nada planejado.
“Ela sabe que eu não gosto de fazer festa. Fui treinar e fiquei sem vontade. Peguei uma bola velha de basquete e tome cesta na quadra. Sol da porra”, começa o conto melancólico.
A anedota, que envolve um plot-twist causado pela esposa, é um hit entre os amigos. Enquanto batia bola no sol quente, João começou a se lembrar dos amigos, dos aniversários passados.
“Então, naquela melancolia, subi e fui dormir. Minha esposa já sabe que quando estou triste é assim. E então ela me pediu uma foto. ‘Foto? Oxe! Vou nada tirar foto. Quero dormir”, conta.
“De repente, ela começou a chorar. ‘Você não faz nada por mim. É só uma foto’, ela dizia. Quando a vi chorando, achei estranho. Então, decidi ir [tirar a foto]”. A esposa tinha seus planos: botou João em um carro, fazendo-o acreditar na premissa de que iria produzir algum conteúdo simples. Quando viu onde estava, no bairro de Itapuama, João desacreditou da esposa. “O que estamos fazendo aqui? Cheio de carro! Não vamos ter paz aqui”, reclamou triste em saber que ao sair teria que encarnar o JG em um dia ruim para o JF.
Quando desceu do veículo, o JG descobriu não só um campo de futebol cheio de amigos e primos, como também que estava sendo vítima de um aniversário surpresa — a esposa levou dois ônibus de parentes do João Fernando para o local. Foi um oásis naquela solidão. “Eu estava muito confuso. Quando eu vi um primo meu, aí foi lágrima. Meus amigos todos lá… Eu comecei a chorar e agradecer a Deus. Fiz amizade com vários meninos dali… Pensei: ‘agora eu posso ficar em paz porque eu nunca mais vou me sentir só.’”
João saiu da adolescência e dos estudos para uma vida de muitas responsabilidades e fama. Seu primeiro álbum “Eu Tenho a Senha”, de 2021, trazia um menino-cantador de 18 anos e de voz grave, dono de um flow de repente-quase-rap. De lá para cá, seus números só cresceram — e também uma confusão instaurada na cabeça de um então estudante de agropecuária e tirador de onda em resenhas de amigos que foi sendo transformado em cantor popular.
Por isso, quando perguntado se está bem, ele confirma timidamente com um “graças a Deus”. Agora, aos 22 anos, ele também se permite alongar um pouco mais na resposta — refletindo sobre esse JG na pele de JF, algo pouco trivial no pop brasileiro. “Foi uma loucura esse começo. Eu entendi só agora que eu tenho uma carreira, um futuro. Eu tentei me destruir.”

Mas você está bem mesmo, João?
Ele puxa os versos de “Eu Tô Bem”, do cantor Luiz Lins (revelação do R&B, também pernambucano, só que de Nazaré da Mata), para assentar a análise. “Alguém pergunta como eu tenho passado / Por que eu passo tanto tempo acordado?”, ele cantarola para dizer “no final, tenho que dizer que eu tô bem”. A resposta e a ficha caíram devagar para o João cantor que, agora, sendo cria do forró e do piseiro, é nome maior do pop com sucesso e shows esgotados, estreando o espetáculo “Dominguinho” — ao lado de Jotapê e Mestrinho.
Ele enumera os adversários que o JG colocou no caminho do JF: poucas noites de sono, introversão, pouca capacidade de trocar ideias mais complexas, pessoas ao redor que o “limitavam muito”. E, principalmente, o álcool — ele chegou ao fatídico “nunca mais vou beber” após uma noite etílica que prolongou uma dor aguda no ouvido e, consequentemente, estragou um show publicitário no dia seguinte. Anteriormente, já havia levado um senhor puxão de orelha de Ivete Sangalo, quando ela percebeu que o cantor estava bebendo antes de empunhar o microfone.
Então, João pediu ajuda. “O álcool estava acabando com tudo. Eu comecei a cuidar da parte psicológica antes do ‘Dominguinho’. Pelo fato de eu já estar me cuidando, esse álbum me fez perceber novas reações e um novo João. A ansiedade hoje é um desespero. A gente quer tudo instantaneamente. Fica difícil enxergar a grandeza das pessoas ao seu lado”, ele explica.
Por isso, as quase duas horas de conversa soam — nas palavras dele — como terapia.
“Eu não tinha habilidade. Estou em um quinto ano de carreira e passamos por muita coisa. Não estou à deriva e eu consegui botar no meu barco as pessoas certas.
As erradas já se foram pelas águas da vida. Estou muito feliz onde estou e com meu trabalho novo. Por mais que minha mulher não entenda, às vezes, o porquê de eu ficar tanto no telefone, o motivo de chegar tarde…”, comenta.
O barco que João menciona viaja em busca de uma verdade — como sempre registrou-se no forró. Quase tudo o que João reflete durante a conversa tem a ver com o cantador (que ele é) e uma missão (que ele tem).
Comparado frequentemente à Luiz Gonzaga (seja pelo chapéu cangaceiro que sempre ostentou — e que, recentemente, virou um boné— ou pela voz rouca), João queria mesmo era ser Kara Veia (Edvaldo José de Lima, 1973-2004), cantor alagoano que renovou o forró de vaquejada e que, aos 31 anos, suicidou-se
“Eu ficava vendo o que ele falava e tentava replicar nos shows. Ele tinha uma verdade no que ele era em cima do palco”, explica.
Produto do século 21, João encontrou essa verdade também no trap — outra influência que marca seu canto. Inicialmente, ele achava que o cantor Matuê seria um dos braços nessa jornada (“Tipo, foi impactante, até tenho uma tatuagem…”), mas descobriu em dois álbuns específicos respostas que separaram, de vez, o João Gomes do João Fernando.
“Nessa busca encontrei o ‘ÍCARUS’, do meu amigo BK, e o último do Teto [Yes or No]. Eu passei muito tempo vivendo como João Gomes, vivendo do artista e com uma muralha no meu coração. Depois que o Teto lançou o disco e o documentário, aí eu consegui entender que podia separar os dois Joões e que o João Fernando precisa do tempo dele e, ao mesmo tempo, entrar no mundo do João Gomes para ser feliz.”
Foi BK’ quem deu uma senha para João quando ambos se conheceram, em 2021. “Aqui no Rio, os moleques com sua idade e fama já ficam malucos”, disse o rapper de nome Abebe Bikila. O cantor não entendeu. “Eu não sabia que tinha sucesso. O que eu sabia era que havia alguns shows marcados, que eu tinha que ir ali em algum compromisso e que eu estava tomando uma com um cara que eu sou muito fã.”
Foi nessa época, entre os deslumbres de conhecer seus ídolos ou da primeira viagem de helicóptero, que João pensou em desistir. “Já que estão falando mal de mim, vou voltar para a escola. Vou para um lugar que eu sou bom”. A cabeça do cabra tava a milhão. João pensava que, a qualquer momento, poderia voltar a encarar uma prova de química. “E o professor era muito chato”, conta ele, com um sorriso de alívio.
João tem o riso como marca. Apesar de tímido, ele adora tirar uma onda. Uma zapeada por suas entrevistas no YouTube e você o encontra tirando sarro de amigos como Tarcísio do Acordeon e Vitor Fernandes. Em outro momento, está bagunçando com Wesley Safadão e Tirulipa em uma live no TikTok — a ponto de irritar os fãs do cantor e do comediante com suas brincadeiras. “Deixa esse povo pra lá. Quem diabo liga?”, ele dá de ombro. O problema mesmo sempre foi a solidão.
“Eu não sou triste, nunca fui. Mas sozinho, às vezes, é um problema. Fico diante do meu maior inimigo. Você se acusa, se coloca pra baixo. E a gente descobre que essa parada de ser artista, muitas vezes, é aparência. Da minha parte, onde eu estiver, quero estar com meu coração aberto. Antes, eu sofria mais com lugares como São Paulo. Hoje, quero estar onde nunca estive. Querem que eu vá? Eu vou. A gente é muito mimado, assim, véi, pelo nosso querer. Temos que conhecer as coisas, olhar para as pessoas. Fazer um amigo onde você nunca imaginava”, reflete.
‘Dominguinho’
Foi João quem criou o projeto de 12 músicas que conta também com o compositor Jotapê e o sanfoneiro Mestrinho. A história começa naquela dor de ouvido que ele sentiu antes de um show e que o fez ligar o alerta para a sua saúde. “O Mestrinho me mostrou uma música chamada ‘Flor’. Mas, aí, vê só, passei 15 dias em São Paulo, com um estúdio em casa e nada de a gente se encontrar. São Paulo deixa todo mundo cansado.”
Quando sua banda entrou de férias, o cantor decidiu que ia continuar trabalhando e chamou a dupla para Recife. “Expliquei a ideia para eles, mandei vários links para eles ouvirem e, tipo, eu fiquei meio receoso”, recorda.
O receio tinha nome. Ou melhor, prêmios. Jota.Pê e Mestrinho somam quatro premiações no Grammy Latino (Jota.Pê venceu três e Mestrinho um, em 2024). “Eu tava mandando pra eles uns bregão, uns arrochas. Petrolina é muito perto da Bahia. E, tipo, o Jota.pê com três Grammys dizendo ‘que música massa!’. E eu dizendo ‘é Unha Pintada, véi! Só não ganhou Grammy ainda porque não se inscreveram!’”, deleita-se.
Com os dois dentro, João viu o projeto dar corpo às músicas que ele já curtia. “Foi uma repercussão muito doida. Eu vi que a gente acertou um alvo bem maior do que a gente esperava. Fiquei muito emocionado. Agradeci muito aos dois. Estou aqui conversando com você e já pensando em tudo o que a gente pode fazer no show”. Mais pop, o disco levou João a lugares que, normalmente, sua música é pouco requisitada, como o Sul do país.
“Eu me lembro que, quando eu era criança, havia um trabalho de escola que perguntava qual era o lugar que eu mais queria conhecer. E eu botei Rio Grande do Sul. Foi o último lugar do Brasil que eu conheci. Mesmo assim, eu ainda me sinto muito deslocado. Apesar de o sertanejo ser muito ouvido lá, o piseiro ainda é uma coisa nova.”
Falar de barreira geográfica faz João lembrar “Barrados no Baile”, reggae clássico do baiano Edson Gomes — árvore absurda da música brasileira, hoje com 69 anos. “É engraçado que essa música combina com aqueles dias que a gente repassou aqui nessa conversa. A resposta era essa música. ‘Acredito em tudo aquilo que faço / E persisto em tudo aquilo que faço / Acredito naquele que vem do espaço’.”
“A gente precisa botar fé na gente. É uma jornada difícil… Mas quando a gente sabe contar nossos planos para as pessoas certas, tudo fica direito. Tem pessoas que botam dopamina e tem outras que tiram. Negócio é deixar só as boas por perto. A vida é muito curta para agradar quem não gosta de você. Poxa, eu sou 100% eu e 100% os meus. Cuido de quem cuida de mim. E é isso. As pessoas, às vezes, só querem te machucar. Ninguém merece desprezo, não. Merece amor, carinho. Quando a gente vira pai, muita coisa muda. A gente aprende a se dar mais valor. Como não queremos que nossos filhos se machuquem, que nossa casa caia, então a gente se lembra que está em uma eterna construção”, finaliza.

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