Ivana Wonder estreia entre drama e exagero com ‘Primeiro Ato’
Compositora drag transforma referências em disco fortemente teatral

Ivana Wonder (Gabriela Schmidt)
Ivana Wonder abre as cortinas de seu primeiro álbum solo com “Primeiro Ato”, disco que transforma o teatro em linguagem para apresentar uma artista formada entre a música brasileira, o rock e o pop alternativo. Com oito faixas, o trabalho reúne personagens, memórias e diferentes versões de si mesma e chega às plataformas digitais na terça-feira, 11 de agosto.
O álbum inclui os singles “Saudades de Mim”, “Ao Meu Amor” e “Melancholic Blue”, esta última com mais de três milhões de reproduções. Além de uma coleção de faixas já conhecidas, “Primeiro Ato” funciona como uma apresentação do universo que Ivana vem construindo ao longo de uma década de carreira drag.
As referências passam por Maysa, Ney Matogrosso, David Bowie e PJ Harvey, mas não aparecem como meros exercícios de reprodução. São pontos de partida para uma obra construída a partir do imaginário da artista, que encontra na música uma forma de criar cenas, atmosferas e personagens.
“Para mim, a inspiração acontece muito nesse lugar. É sobre cenas. Sobre como a música constrói um ambiente, uma personagem, uma temperatura”, explica Ivana. “Existe um glamour ali, mas um glamour que também pode ser estranho, teatral, excessivo, rock and roll.”
Um disco descoberto durante oito anos
“Primeiro Ato” levou oito anos para ser construído. O tempo de produção acompanhou também a descoberta de Ivana como compositora, processo que ganhou força durante a pandemia, quando poemas, histórias e experiências pessoais começaram a se transformar em letras.
“Essa é também minha estreia como compositora”, afirma. Antes disso, Ivana já havia escrito músicas para o duo de música eletrônica Vermelho Wonder, mas o novo trabalho representa uma mudança de escala e de perspectiva em sua trajetória.
A artista descreve o álbum como sua “versão mais fiel”. A busca, segundo ela, era por um disco capaz de não se censurar diante da própria grandiosidade.
“O disco foi sendo descoberto enquanto era feito. Muitas vezes, eu sabia exatamente o que queria, mas não necessariamente sabia explicar aquilo em termos técnicos”, conta. “O que eu queria era um disco sem medo. Sem medo de ser brega, sem medo de ser clichê, sem medo de exagerar.”
Entre a drag e a artista
A experiência de Ivana como drag também atravessa “Primeiro Ato”, mas não determina os limites de sua música. O álbum aparece justamente como uma tentativa de ampliar a ideia sobre o que uma artista drag pode fazer dentro e fora da cena.
“O que eu faço também não é drag music? Talvez a gente tenha criado uma ideia muito estreita de onde uma artista drag pode existir sonoramente”, questiona.
Ivana não esconde a ambição de ocupar diferentes linguagens. “Quero cantar um musical, quero estar num filme como atriz, quero estar numa peça de teatro, quero fazer discos completamente diferentes entre si. As possibilidades são múltiplas e, sonoramente, também precisam ser.”
A teatralidade do título não está apenas na estética. “Primeiro Ato” sugere o início de uma narrativa que pode assumir diferentes formas nos próximos capítulos. Entre tragédia e comédia, a artista cria um palco em que música, performance e personagem não precisam ser separados.
O repertório reúne sete composições autorais e uma interpretação de “Quem Sabe?”, de Carlos Gomes. O resultado é um álbum que apresenta Ivana como cantora e compositora, mas também como uma artista interessada em transformar a própria identidade em matéria dramática.
Depois de uma trajetória construída na cena underground e de trabalhos como “De Cigarro em Cigarro”, lançado em 2018, Ivana chega ao primeiro álbum com uma ideia clara: não escolher entre as diferentes artistas que pode ser. Em “Primeiro Ato”, ela prefere colocá-las todas no mesmo palco.
+Leia mais: Ivana Wonder antecipa álbum de estreia em show inédito em São Paulo

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