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Gloria Groove sobre carreira: ‘Protejo a minha criança querendo brincar’

Cantora lança 'O Chá' para comemorar dez anos de trajetória

Gloria Groove (Crédito Rodolfo Magalhães)

Gloria Groove (Crédito Rodolfo Magalhães)

Gloria Groove celebra uma década de carreira, mas quem recebe o presente são os fãs. A cantora e compositora lança nesta quinta-feira (28) o single “O Chá”, num momento simbólico entre eras de sua carreira, mas que reafirma sua versatilidade artística.

A faixa abraça a estética do pop-reggae e abandona o cenário da mesa de bar que ditou o tom de “Serenata da GG”, projeto de pagode que ultrapassou 400 milhões de reproduções e venceu o Prêmio Multishow. Agora, a proposta é solar e praiana.

Ciente do peso que os videclipes carregam em sua narrativa, a artista preparou uma superprodução audiovisual para acompanhar o lançamento, com estreia agendada para as 11h de sexta-feira (29). No clipe, a cantora assume o desafio de interpretar três personagens icônicos e já conhecidos do seu público – Mary Jane, Lil Haze e Goldie -, que ganharam as telas pela primeira vez no aclamado vídeo de “Sedanapo”, em 2019.

A Billboard Brasil conversou com a artista sobre maturidade, liberdade criativa e as engrenagens da indústria pop.

Gloria Groove (Crédito Rodolfo Magalhães)
Gloria Groove (Crédito Rodolfo Magalhães)

Billboard Brasil: Como foi fazer essa transição da fase mais voltada ao pagode para o pop misturado com o reggae? 

Glória Groove: Eu acredito que, por mais que eu tenha passado pelo menos dois anos sendo completamente vista nesse segmento mais tradicional para quem estava acompanhando o meu trabalho de fora, eu, que estava vivendo a criação por dentro, não parei em nenhum momento de produzir em outros estilos, né? Ou seja, mesmo com a turnê focada em um gênero específico, minha mente continuou aberta e explorei várias coisas nesse tempo.

E por que escolher essa sonoridade agora para comemorar os seus 10 anos de carreira?

Eu fiquei pensando por muito tempo sobre o que gostaria de fazer para celebrar essa primeira década de uma forma legal. Sabia que tinha que envolver o audiovisual, porque não dá para falar de uma trajetória de Glória Groove sem relembrar a importância dos clipes e o quanto eles são simbólicos na minha caminhada.

E essa escolha pelo humor nos clipes?

Fui tentando destravar esse universo e eu já tinha no coração a vontade de revisitar o mundinho da Mary Jane, o ambiente do clipe de “Sedanapo”. Eu lembrava o quanto tinha sido divertido fazer aquilo. Sou muito fã de humor na vida inteira! Sempre que encontro pessoas como a Ingrid Guimarães e a Tatá Werneck, eu falo: “Gente, vocês me criaram!”. Quando conheci a Raven-Symoné, brinquei: “Você me criou!”. A comédia e essa liberdade artística me marcam muito. Lembra aquele episódio de “As Visões da Raven” em que ela vai para a fazenda e interpreta a Raven, o bebê, o avô, a avó? Ou o Eddie Murphy fazendo vários personagens? Sempre amei essa onda meio caricata de fazer várias interpretações de si mesmo dentro do trabalho. Isso traz muito da minha bagagem do teatro musical e da vivência como drag de boate, criando uma alquimia que é muito minha.

Como foi o processo de produção dessa música especificamente?

O que me chamou muita atenção no desenvolvimento de “Chá” foi destravar esse momento supergratificante na vida de um artista, que é quando você se torna a sua própria referência. Desde a primeira anotação do projeto, eu sabia que estava fazendo uma faixa para a Mary Jane. Compartilhei isso com o Ruxell na hora de produzir: “Cara, quero fazer uma música para o mundinho de ‘Sedanapo’, como se fosse a continuação daquele universo”. Decidimos pelo reggae, com uma letra legal, que tivesse sentido e dinamismo.

Você compôs ‘O Chá’. Como foi o processo?

Sim. Outra coisa muito simbólica sobre ‘Chá’ é que eu voltei para o estúdio sozinha, depois de passar por tantos formatos de composição. Comecei a carreira escrevendo completamente solo na fase mais rap de ‘Proceder’. Depois, conheci meus parceiros em 2018 e passamos a compor em grupos de três ou quatro pessoas até o ‘Lady Leste’. Já no ‘Serenata da GG’, isso se expandiu para umas nove pessoas no estúdio. Agora, em ‘Chá’, é uma música que eu canetei do começo ao fim. Isso me mostrou que eu precisava de todas aquelas experiências diferentes para chegar na segurança pessoal de dizer: ‘Não, isso aqui eu vou abordar do meu jeitinho, porque sei exatamente o que eu quero’

É muito legal ver que, mesmo mudando de sonoridades, existe uma essência que permanece em tudo o que você faz. Dá para dizer que o grande impacto da sua carreira é esse? Conseguir fluir por todos os gêneros sendo sempre a mesma pessoa, apesar dos vários personagens?

Eu acho que isso conversa muito com a minha vida, porque você está falando de essência. Isso se aplica tanto ao que eu faço musicalmente quanto ao que faço visualmente, né? Eu passo por muitas interpretações de mim mesma, mas o público consegue sentir a verdade que sustenta tudo. Isso vale para o estúdio, na escolha das texturas de uma nova faixa, e vale para a minha vida: as horas em que sou a Glória Groove em cima do palco e as horas em que sou o Daniel Garcia, o criativo, o criador, o empresário, o ator de teatro musical. O que me destaca como artista é que, independente do formato ou do modelo que escolho, você consegue sentir a verdade ali.

E é difícil para você decidir qual personalidade vai escolher a cada momento? Todos nós temos vários papéis na vida, mas no seu caso isso parece ainda mais explícito.

No fundo todos somos muitas coisas, ninguém é uma coisa só o tempo todo. No mercado, as pessoas acham importante você se definir em um nicho, em um estilo, em uma prateleira, para saber de qual mercado você faz parte. Eu fico muito feliz de ter ultrapassado essa dinâmica e conseguir imprimir verdade e profissionalismo independente do estilo em que me jogo.

Mas sim, é um desafio dar atenção a tudo o que te delimita. Por exemplo: quero fazer música para a vida inteira, mas venho do teatro musical da minha adolescência. Há pouco tempo, pude recobrar minha relação com os palcos através de “Wicked”, interpretando a Madame Morrible, mesmo que só em 10 apresentações. Saí dali com a sensação de: “Ok, isso é mais uma coisa que não posso deixar de fazer pro resto da vida, eu preciso estar fazendo teatro”. O palco me mantém vivo no lugar da construção de personagem. A Glória Groove é legal, mas é um único personagem, né? E eu posso ter tantas coisas!

O desafio de quem gosta de muita coisa ao mesmo tempo, de quem lida com muitas interpretações de si, é justamente organizar e setorizar que hora cada engrenagem entra em jogo. A Glória Groove só existe porque tenho uma paixão gigante por divas pop e por tudo o que mulheres como Beyoncé, Lady Gaga, Mariah Carey e Alicia Keys trouxeram para a minha vida. Elas mudaram a minha impressão de mim mesma e o que eu entendo como poder pessoal e carreira. Pensa na cabeça desse menino: um menino gay, afeminado, da Zona Leste de São Paulo, que acreditou tanto no sonho de que poderia ser uma diva como as suas referências… e isso virou realidade, o mundo embarcou nesse sonho junto. É muito especial.

Você falou sobre querer voltar a ter uma pegada mais orgânica. Queria saber se a sua apresentação no “Tiny Desk” influenciou essa decisão, já que repercutiu demais tanto aqui quanto fora do Brasil.

Com certeza! O que eu vivi no “Tiny Desk” tem influenciado muito a minha abordagem de produção musical e o meu entendimento do que me diferencia e do que me destaca como um todo, sabe? Acho que é uma mistura da importância de trabalhos como esse com o processo que tenho feito na terapia e no autoconhecimento, que vai me mostrando a real motivação e também o real diferencial que apresento nos espaços onde me coloco.

Essa volta do orgânico, essa coisa que eu falo de estar conseguindo unir o trabalho do Ruxell e do Pablo Bispo já na produção desde o início, para mim tem essa simbologia de não se nivelar por baixo, sabe? Significa voltar a fazer música excelente, porque é a arte que vai permanecer aqui. Eu acho que vivi uma fase onde o pensamento estratégico poderia estar criando uma névoa de entendimento entre eu e o que eu acredito artisticamente. No mercado, você corre o risco perigoso de achar que o seu gosto mais refinado não vai ser compreendido pelo público que está para te receber, e aí começa a subestimar o gosto das pessoas. A gente não tem por que fazer isso, sabe?

Então eu acho que o novo formato de criação me leva a esse lugar de não subestimar quem vai receber, sempre nivelar a gente por cima, sempre manter a barra lá no alto. Vale muito a pena não se contentar e sempre querer mais e melhor. Acho que isso é o que destaca esse momento para mim. O orgânico dentro do estúdio parece uma coisa simples, né? Apenas instrumentos, inclusive vários álbuns de 40 ou 50 anos atrás eram gravados completamente assim. Mas que loucura o processo que a gente entrou dentro da era digital, né? Como isso agora é recebido como uma nova alquimia por mim. A minha impressão é de que eu só estava construindo essa ponte na hora de montar o show, e agora senti que estou trazendo o orgânico para o nascimento da faixa, deixando o que é orgânico de dentro de mim invadir o estúdio. Não são só instrumentos, tem uma conversa muito real e muito sincera com como eu estou me sentindo agora na minha vida e essas novas certezas e impressões mais maduras de onde posso chegar, do que posso fazer e, principalmente, do que me destaca. O que é que só eu posso fazer do meu jeito, com aquelas características que andam comigo para sempre? Acho que existe um novo foco pautado nisso.

Os fãs estão sempre cobrando novas eras, conceitos, clipes e shows. Essa pressão do ecossistema pop te dá um apertozinho no coração sobre como traduzir tudo isso sem se perder? 

Claro, principalmente dentro do ecossistema pop, que está sempre focado na próxima novidade. Então, poxa, eu vou mostrar um clipe amanhã sabendo que depois de amanhã já vão perguntar: “Tá, e o próximo?”. A gente nunca se acostuma totalmente com isso e nem assenta, apenas aprende a lidar com essa cobrança e acha um jeito de fazer com que ela não nos ultrapasse. Você vai definindo limites, levantando formas de pautar as coisas e dizendo: “Não, vamos falar disso aqui agora”.

Você passa a entender a Beyoncé quando ela lança dois álbuns e não divulga material visual nenhum, justamente para obrigar as pessoas a consumirem e se aprofundarem no conteúdo musical primeiro, eliminando completamente a distração da parada. Porque pode parecer descabido o que vou falar agora, mas no pop lembrar que a música é a primeira importância precisa ser um exercício intencional e muito proposital. Como é o estilo musical mais movimentado pela estratégia, pela mídia, pelo buzz, pelo hype e pelo próximo passo, situar o processo criativo como o foco principal é essencial, senão você acaba se perdendo na pressão da novidade.

Claro que, ao mesmo tempo, a gente não acha que o próximo trabalho é sempre o melhor. É que nem olhar o seu Facebook e ver uma foto de 2011 e falar: “Meu Deus”. A gente está sempre se atualizando e dando um update para o mundo de quem nós somos. Como artistas, temos a sorte de atualizar o público sobre o nosso momento de vida através da nossa arte, o que é mais legal ainda. Conseguimos compassar nossos momentos de evolução dentro de um projeto. Mas é um caminho muito natural, porque somos todos seres humanos vivendo isso.

O que eu acho perigoso é tentar encaixar a expectativa do novo momento dentro de uma métrica meramente mercadológica. Seria ignorar o fato de que, para uma nova fase acontecer, as pessoas precisam viver experiências, acumular bagagem, criar um entendimento daquilo e regurgitar de volta. É preciso passar por momentos bons e por momentos de conflito. Essa nova fase da minha maturidade tem muito a ver com proteger o meu lado criativo, porque o nosso criativo é a nossa criança querendo brincar. E nenhuma criança brinca quando não sente segurança ou quando não sente que tem alguém ali cuidando dela.

Eu faço questão de ser um adulto hoje que cuida da minha criança para ela poder brincar. Quando eu falo no meio da coletiva “não revela, não conto”, sou eu fechando a porta da sala e deixando a minha criança brincar lá dentro sozinha, sabe? Percebi que esse precisa ser um trabalho ativo, intencional e proposital. É muito fácil a mente do artista virar algo constantemente monitorado e cobrado, então entendi que deve haver uma proteção particular de como tudo acontece. Vamos liberando as novidades e os louros que ela nos rende no nosso próprio ritmo, no nosso próprio entendimento. Eu vou criando o mundo que acredito ser saudável para o meu processo de criação.

Sim, sem prazos e cobranças de datas ou de fazer por fazer, né? Tem que ter o propósito por trás.

Ritmo, principalmente quando você está no pop. Eu vivi uma super alta do gênero ali de 2021 em diante, e é muito fácil o artista se convencer de que não pode parar, que tem que aproveitar o momento. A gente ouve isso o tempo todo, e isso vai te incentivando a criar até quando você não tem muito mais o que dizer. É aí que começa a ficar perigoso: quando você começa a produzir nesse método compulsório de pensar que, se parar, vai perder tudo ou não vai aproveitar as oportunidades. Às vezes, tudo o que você precisa é parar e observar.

Esse período que eu passei sem criar, pós o final do “Serenata da GG” até chegar aqui em “Chá”, cara, foi tão importante para colocar as coisas em perspectiva na minha vida. Foi fundamental até para ter mais amor e apreço pelo que aconteceu nesses 10 anos. Quando você só vai no automático, é difícil parar para comemorar as pequenas conquistas, porque está muito focada no que tem que ser o próximo passo e o próximo objetivo. Nunca sobra espaço para falar sobre o quão legal foi a semana passada ou o quão da hora foi o que a gente conquistou no mês passado naquele show, naquele dia. Criar espaço e calma te dá mais respiro, e eu consigo reconhecer, dar mais valor e dar mais amor para todo esse esforço que eu tive dentro desses 10 anos. É muito especial pensar assim.

Ouça sucessos de Gloria Groove