Entrevista: como os Detonautas fizeram o disco mais diferente da carreira
Tico Santta Cruz conta como a banda criou 11 faixas inéditas misturando gêneros

Detonautas (Jorge Daux)
“Rádio Love Nacional” é nono álbum de estúdio dos Detonautas, lançado em março. A banda entrou em estúdio sem uma única música pronta e trouxe aos fãs 11 faixas inéditas que cruzam rock, pop, tecnobrega e eletrônico numa estética assumidamente cinematográfica. O vocalista Tico Santta Cruz conversou com a Billboard Brasil sobre o processo, as escolhas e o que significa se reinventar sem renegar o próprio passado.
A sonoridade híbrida de “Rádio Love Nacional” — que transita entre rock, pop, tecnobrega e eletrônico — não nasceu de uma única motivação. Para Tico, ela é filha de duas forças simultâneas: a inquietação artística genuína e a consciência de que a música, como consumo e como linguagem, mudou profundamente nas últimas décadas.
“Isso vem de uma inquietação artística no sentido de busca por esse diálogo com o público que passou, obviamente, por transformações muito importantes ao longo desses últimos 25, 26 anos”, explica Tico.
“O Detonautas conseguiu passar por todas as transições da música, da forma como era consumida e da forma como era divulgada, conseguindo avançar em relação às gerações, criando hits atemporais e fazendo uma trajetória bastante consistente, mesmo nos momentos onde a banda talvez não estivesse diante de um panorama de protagonismo.”

O ponto de partida do álbum foi “Potinho de Veneno”, faixa que surgiu a partir de uma imersão na obra de Rita Lee (1947-2023) e que estabeleceu, de imediato, o DNA do projeto.
“A gente trouxe uma percepção, uma estética mais cinematográfica”, explica Tico. A música também marcou o início da parceria com os produtores Pablo Bispo e Ruxell – e foi a única existente quando a banda decidiu fazer um disco inteiro.
“A gente não renega o nosso passado. A gente continua tocando os nossos grandes sucessos, a gente se orgulha dos hits que o Detonautas construiu. Mas a gente entende que esse disco é uma nova aba, falando numa linguagem digital, para que a gente possa explorar nuances que não havia explorado antes.”
O resultado, segundo ele, é um Detonautas capaz de encaixar essa nova fase ao lado do repertório histórico sem destoar de si mesmo. O processo criativo foi, nas palavras do vocalista, ao mesmo tempo o mais fluido e o mais desafiador que a banda já viveu. Sem rascunhos, sem pré-produções, o grupo se lançou num território completamente novo.
“Você vem navegando dentro de um mar aonde você sabe as direções e do nada você dá uma virada de trajetória no sentido do seu barco e se joga dentro de um novo oceano, que você não sabe quais são as ondas que vai encontrar, que tipo de vento, qual o tipo de tempestade, como são os arco-íris nesse lugar”, descreve. Músicas surgiram de sonhos, de madrugadas dentro de ônibus, de conversas com Pablo Bispo transformadas em melodias. “Se tivéssemos ficado presos à fórmula no tradicional do Detonautas, jamais teríamos chegado nessa sonoridade.”
Quando perguntado sobre qual música mais tirou a banda da zona de conforto, Tico amplia a resposta para além das faixas: o verdadeiro desconforto foi a decisão de lançar um disco de inéditas, quando o caminho natural seria seguir com um álbum de regravações
“No momento em que a gente resolve fazer um disco de inéditas, gera esse desconforto, mas é um desconforto criativo”, diz.
“Quando você consegue encontrar conforto no desconforto, você consegue enfrentar qualquer situação. Eu acredito realmente que a criação vem do caos. No momento que você se joga nesse lugar caótico e tem capacidade de gerenciar esse caos, você encontra o conforto dentro dele.”
A entrada de Ruxell e Pablo Bispo no processo foi, segundo Tico, absolutamente decisiva. “Não seria possível esse álbum, não seria possível essa construção sem a presença dos dois”, afirma. “É como se eles fossem elementos mágicos dentro dessa alquimia e, quando se conectou junto com a gente, abriu esse novo mundo.”
Ruxell contribuiu especialmente nos beats e arranjos, enquanto Pablo atuou tanto na produção quanto na cocriação das letras – dimensão em que Tico, historicamente compositor solitário da banda, sentiu a mudança de forma mais profunda.
“Ao longo de todos esses anos eu praticamente compus tudo sozinho do Detonautas. Então eu sentia muito falta de conseguir abrir esse caminho para outros universos literários”, finaliza.
Ouça ‘Rádio Love Nacional’ dos Detonautas
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