
Alceu Valença divulga a tunê "Alceu 80 Girassóis" (Rodrigo Mazuco/Divulgação/PECK)
Alceu Valença: ‘A doidice no palco me revigora’
O mestre Alceu Valença, 79, visitou o estúdio da Billboard Brasil para um papo exclusivo sobre a sua atual fase na carreira. O artista tem show marcado da turnê “Alceu 80 Girassóis“, que aporta em São Paulo neste sábado (28), no Parque Villa-Lobos. Além disso, ele comentou sobre o filme que dirigiu e integra a seleção do festival É Tudo Verdade.
Antes de começar a conversa, ele pede que eu fale alto para que ele ouça cada detalhe. O gesto não é apenas uma necessidade física, mas um reflexo de sua atenção genuína. Alceu é o tipo de artista que interrompe o que está fazendo para ouvir e acolher, com paciência, quem se aproxima para um abraço ou uma foto.
O cantor e compositor tem um palpite porque sua obra continua florescendo para novos públicos.”Rapaz, é palco! Eu estava sonolento antes do papo, sabia? Mas aí falou de palco, eu dou até cambalhota”, conta desperto o alegre artista.
O palco como vitamina e a cronologia dos hits
A transformação de Alceu diante do público é quase mística.
“No palco, minha timidez é zero. Eu me sinto no direito de fazer as maiores doidices”, revela o cantor.
Para ele, os shows não consomem energia; eles a devolvem em dobro.
“Eu sinto que o palco é uma vitamina. Tem a vitamina A de alegria e a C de comunhão. É uma maravilha que renova todas as minhas energias.”
Alceu explica que a turnê “80 Girassóis” utiliza uma cronologia afetiva para guiar o espectador. O roteiro atravessa décadas de sucessos desde o início experimental nos anos 1970. O cantor afirma que redescobre suas composições a cada nova execução diante da plateia.
Além das músicas, o espetáculo de Alceu Valença transforma o palco em vitrine artística. O telão de LED proíbe o estático e exibe um panorama da arte pernambucana, unindo o legado de nomes como J. Borges, Bajado, Wellington Virgolino e Marisa Lacerda ao frescor contemporâneo de Getúlio Maurício e Elvira Freitas Lira.
A experiência visual conta ainda com registros históricos: fotografias raras de Cafi, capturadas no Rio de Janeiro, ganham vida nova através de animações feitas por inteligência artificial.
O desabrochar do “Bicho Maluco Beleza”
As histórias das músicas de Alceu são capítulos de uma vida guiada pela intuição e pelo que ele chama de “HD da memória” Para escolher o repertório do show celebração, ele conta que sempre tem o desafio de não deixar nada de fora.
“No show, se você não tocar tal música, o pessoal vai falar: ‘olha, essa tem que tocar’.”
Mas há também espaço para o seu lado b como a música ‘’Galopada”, mergulho profundo nas raízes da cultura nordestina, inspirada nos cantadores e violeiros do sertão. Além de suas referências Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.
O espetáculo de celebração de sua trajetória traz orgulho para Alceu.
“Uma menina no Leblon me disse que o nome dela era inspirado em ‘Belle de Jour’. Outra senhora me disse que fez o parto do neto ao som de ‘Anunciação’. Fico feliz”, conta.
Ele conta como nasceram alguns dos seus grandes clássicos.
A flauta e o papel de pão que geraram “Anunciação”
“Anunciação” foi lançada em 1983 no álbum “Anjo Avesso”. Uma das músicas mais aclamadas do Brasil, ela já foi tema de torcida de futebol a remix de música eletrônica.
“Legal. Mas eu faço a minha até hoje”, explica o pai da canção sobre o jeito que toca seu violão suingado até hoje.
Ele recorda que “Anunciação” não foi planejada; a melodia nasceu de uma flauta ganha de um fã e de um papel de pão. Ao caminhar pelas ladeiras de Olinda, empolgado em tocar o instrumento que estava aprendendo a tocar, a melodia se impôs. “Eu saí tocando pela rua feito um maluco. Vi as roupas no varal e uma moça me elogiou. Naquele instante, com essas coisas acontecendo, a música desceu para o papel.”
A música feita com pressa e frutas
Já a canção “Morena Tropicana” surgiu de uma parceria rápida com o compositor Vicente Barreto em um hotel paulista, perto da Praça Roosevelt.
“Ele ligou da portaria para o meu quarto e disse: ‘Estou com uma música nova’. Eu respondi: ‘Rapaz, vou descer, falo contigo aí, porque estou esperando o pessoal para ir para o teatro’.
Vicente mostrou a música e Alceu, com pressa e quase que num passe de mágica, escreveu a letra ali mesmo.
“Na hora, achei parecida com ‘Salada de Frutas’, sabe? Só quando voltei do teatro, de madrugada, é que vi que tinha gostado. A inspiração veio das pinturas de frutas de natureza morta do Sérgio Lemos, um pintor pernambucano. No meu caldeirão, aquelas frutas viraram vivas.”
“La Belle de Jour” e a confusão das musas
A icônica “Belle de Jour”, do álbum Sete Desejos (1992), é inspirada por um encontro real do cantor com a atriz britânica Jacqueline Bisset, em Paris. O compositor confundiu, na época, Bisset com a francesa Catherine Deneuve,estrela do filme “Belle de Jour” (A Bela da Tarde). Por isso, o nome da canção.
A letra ainda mistura essa musa que ele flertou na França com as memórias de uma namoro rápido com uma bailarina na Praia de Boa Viagem, em Recife.
“Eu namorava uma moça, um namoro pequenininho lá no Recife, na praia de Boa Viagem. Ela era bailarina e resolveu ir para Paris fazer um curso. Rapaz, e aí acabou, né?”, relembra.
“Mas ficou a lembrança. Anos e anos depois, eu estava em Paris fazendo um show no La Villette e resolvi passar no Bar dos Filósofos, que era vizinho ao Teatro Campanha Premier, onde eu tinha feito uma temporada em 1979. Eu quis reviver aquilo. Estando lá, de repente, uma moça começou a olhar para mim. Ao sair para o banheiro, ela perguntou quem eu era. Eu falei: ‘Eu sou um poeta’. Quando voltei, ela me pediu: ‘Faz uma poesia ou um poema para mim’. Eu lembrei de um poema que tinha feito na faculdade de Direito, o ‘Poema Branco’. Peguei o guardanapo de pano e escrevi. Aquilo ficou na minha cabeça e, anos depois, compus ‘Belle de Jour’. Era uma mistura da bailarina com aquela moça linda. Na época, eu confundi ela com a Catherine Deneuve, mas depois descobri que era a inglesa Jacqueline Bisset, que trabalhou muito no cinema francês.”
Herança e homenagens
Alceu não é apenas um guardião do passado; ele é uma bússola para o novo. Ele é constantemente citado por novos artistas como referência de música popular misturada com um jeito roqueiro único, que faz música do jeito brasileiro, fiel às origens. Generoso, ele reconhece a força da renovação. Ele cita com entusiasmo talentos que herdam a sua inquietação como Martins, Almério, Juliana Linhares e seu próprio filho, Juba Valença
“Essa turma nova segue compondo com um fundamento muito grande na língua. Eles vivenciam a cultura da própria terra de um jeito maravilhoso. O pessoal do Nordeste é realmente fantástico.”
Quando o papo se direciona para homenagens no show “90 Girassois”, Alceu conta que o as apresentações também são um tributo ao seu eterno parceiro, Paulo Rafael. O guitarrista, que o acompanhoupor 40 anos. “Ele é, e sempre será, meu irmão.”

Cinema pernambucano
O olhar de Alceu também se volta para a sétima arte. O primeiro trabalho de Alceu Valença nas funções de diretor e roteirista de cinema foi o musical de ficção “A Luneta do Tempo” (2014). A obra une referências do circo, cangaço e das tradições nordestinas.
A gente está com um projeto de relançar esse filme agora porque na época que a gente lançou, não tinha jeito. Não passou tanto o filme porque estava passando o ‘Homem-Aranha’, aquele filme maravilhoso”, conta bem humorado.
Ele comenta que viu o celebrado “O Agente Secreto” e comemora a turma que produz o cinema pernambucano. “Eu tenho um prazer muito grande de estar ao lado de Cláudio Assis e de Kleber Mendonça Filho, e de Lírio Ferreira”, diz.
Antes da experiência como roteirista e diretor, o artista havia trabalhado como ator no filme “A Patriamada” (1985), de Tizuka Yamasaki, e compôs a trilha sonora de “A noite do Espantalho” (1974), dirigido por Sérgio Ricardo.
Alceu Valença entre timidez e “doidices”
Sobre o rótulo de psicodélico nos anos 1970, Alceu esclarece que sempre foi um artista independente. Ele recorda o início da caminhada ao lado de Geraldo Azevedo nas noites do Rio de Janeiro. Naquela época, a timidez quase impediu o mundo de conhecer sua forma única de tocar violão.
Os anos passaram e para milhares de pessoas que vibram com os shows do “bicho maluco beleza”, parece uma ficção que Alceu já teve alguma dificuldade por inibição.
O homem que chegou sonolento saiu do estúdio brincando com as poses de fotos e revigorado pela própria história, provando que para ele, a arte é o combustível da própria vida. E certamente é revigorante para todos que escutam os seus sinais.

Serviço turnê “80 Girassóis” em São Paulo
- Evento: Turnê “80 Girassóis”
- Data: Sábado, 28 de março de 2026
- Horário: Abertura dos portões às 16h00; Show às 19h30.
- Local: Parque Villa-Lobos
- Endereço: Av. Prof. Fonseca Rodrigues, 2001 – Alto de Pinheiros
- Ingressos: Disponíveis nos canais oficiais de venda e site Alceu Valença
Agenda “Alceu 80 Girassóis”
10/04 Salvador
25/04 Curitiba
09/05 Brasília
23/05 Fortaleza
30/05 Belém
13/06 Belo Horizonte