
LVCAS no show AMND (@moodgate)
‘A liberdade torna a música legal’, diz LVCAS em entrevista
“Gosto de acabar com as coisas enquanto ainda estão sob o meu controle”, reflete LVCAS sobre os diversos projetos artísticos que alavancaram o seu nome, embora a fase seja de adaptação e conciliação.
Do humor no YouTube à reflexões profundas em som pesado, LVCAS percorre o ano de 2026 focado nos palcos. Conhecido como Lucas Vinícius pelo Canal Inutilismo, o artista aposta na turnê de divulgação do EP “abatido mas não derrotado (AMND)”, que traz uma sonoridade que funde elementos de djent, rage, trap e nu metal.
Em um papo exclusivo à Billboard Brasil, ele reflete sobre a adaptação na carreira, especialmente compor em português.
“Acho mais desafiador compor em português do que em inglês. No português, você batalha constantemente contra o risco de soar tosco.”
O lado musical ganhou tração com o projeto “ANO em uma Música” (2016), um mashup frenético e técnico, revisitando os maiores hits e acontecimentos marcantes da cultura pop daquele ano em um único vídeo. O resultado foi o sucesso de mais de 65 milhões de visualizações. Além disso, o sucesso da turnê “Minha Playlist de Funk” (2023) serviu como um laboratório fundamental de amadurecimento.
O álbum anterior, “Humanamente” (2024), já havia estabelecido uma base sólida com milhões de audições nas plataformas de streaming. No entanto, é em 2026 que o projeto atinge sua maior consistência técnica e de direção artística.
Ele se apresenta na turnê AMND acompanhado por uma banda formada por Isadora Sartor (guitarra), Gabriel Bruce (bateria), Ronan Tárrega (pick-ups) e Marcelo Braga (baixo). Com ingressos esgotados em diversas capitais brasileiras, o músico prova que sua relevância não depende da fama como criador de conteúdo.
Talvez tentando constratar com o humor que as pessoas se acostumaram a ver no YouTube, LVCAS se mostra concentrado e sério na entrevista. E ciente que suas diferentes vertentes se somam e contribuem no resultado final.
“A liberdade de se expressar honestamente é o que torna a música legal”, disse LVCAS.
Leia a entrevista com LVCAS à Billboard Brasil
Como você equilibra as facetas de youtuber e músico? O público já te reconhece mais pelos palcos do que pelas telas?
LVCAS: Ainda é difícil ter um diagnóstico preciso, mas é um comentário recorrente, inclusive de colegas que não vejo há tempo: “Que legal que você está mais inclinado para a música”. Penso nessa complexidade diariamente. Como estou começando uma história em branco na jornada autoral, ela exige mais atenção, mas meu desejo máximo é colocar as duas coisas em pé de igualdade.
Como surgiu o metal na sua vida?
LVCAS: Acho que a vida foi me jogando para esse lugar de maneira bastante gradual, desde que comecei com minhas influências de rock and roll mais clássico: Led Zeppelin, AC/DC, Van Halen. Conforme fui afunilando e lapidando meu gosto, vi que me identificava muito mais com músicas densas — como o Black Sabbath, que trouxe elementos de terror e dissonância. Denso.
Uso o termo “denso” porque não necessariamente uma música densa precisa ter uma mega distorção com ganho no talo. Uso muito o exemplo do Pink Floyd, que é uma banda pela qual sou apaixonado e que tem músicas que considero muito pesadas, mas que usam aquele single coil ali, tudo meio contido. A primeira vez que ouvi Sabbath, fiquei maluco. Eu pensei: “Cara, é como se eles trouxessem elementos de terror para o rock”. Aquela coisa soturna e dissonante se conectava muito comigo. A partir daí, trilhei meu caminho para a música visceral, enérgica e catártica; a cultura do mosh pit. Para mim, isso faz muito sentido para aproveitar a experiência de um show: conseguir extravasar.

Por que cantar rock pesado em português?
Eu encaro cantar em português como um desafio. Cada um tem o direito de escolher o que quiser, mas eu quis colocar isso como parte da minha jornada autoral para testar minhas capacidades, ainda pouco lapidadas, como compositor. Acho mais desafiador compor em português do que em inglês. No inglês, você está protegido por uma “casca”; muita gente nem entende a língua e é mais fácil se expressar sem correr tanto o risco de soar “tosco”. No português, você batalha constantemente contra esse risco, principalmente no rock. Além disso, eu gosto muito do Brasil e vejo muita coisa acontecendo aqui. Hoje, não tenho a ambição de levar o projeto para fora — embora não vá me opor a isso —, mas olho muito para o que temos aqui.
Você já tentou compor em inglês?
LVCAS: Oficialmente, não. Eu e meu produtor compomos o que chamamos de “língua dos anjos”: fazemos o instrumental e solfejamos uma melodia sem significado real por cima. O balbuciar acaba sendo intuitivamente puxado para o inglês, mas nunca tive um rascunho oficial nessa língua.

Como o funk entrou na sua vida a ponto de gerar turnês de versões metal?
LVCAS: Estudei em escola pública a vida inteira e o contato com a música de periferia era latente. Vi no funk um lado cultural rico, com grooves e percussões que combinam muito bem com o metal. Fazer esses rearranjos foi um experimento fundamental para a minha transição para o trabalho 100% autoral.
No álbum “Humanamente” (2024), você fala dos tais temas densos que você citou. Foi difícil “despir” o personagem do YouTube para mostrar esse lado vulnerável?
LVCAS: Foi no estilo “fechar o olho e ir”. Se eu parasse para pensar, não lançaria nada. O “Humanamente” é um “Frankenstein” de coisas que reprimi por anos. É aquele discurso do palhaço: “quem faz o palhaço rir?”. Eu vejo beleza nessa face melancólica e existencial. É legal que as pessoas que me acompanham possam ver esses lados diferentes.

Você é multi-instrumentista e compositor. Se uma banda como Angra te convidasse, você ficaria mais feliz tocando ou compondo?
LVCAS: Eu teria que passar um tempo estudando! Na adolescência, o Kiko Loureiro era minha referência máxima; quando tirei os solos de “Nova Era” e “Acid Rain”, me senti um grande guitarrista. Seria uma baita honra, pois bandas como o Angra pavimentaram o caminho para a minha geração.
E como pintou esse lado multi-instrumentista?
LVCAS: Surgiu da necessidade. Na adolescência, eu queria ter banda e sempre faltava alguém. Fiquei de saco cheio e decidi aprender para não deixar de tocar. Sou guitarrista de ofício, nos outros eu “me viro”, mas tenho paixão. Se faltar um músico numa “canja”, eu dou um jeito.
Vamos formar uma super banda só com as ídolos? Quais são suas referências em cada instrumento?
LVCAS: Difícil, mas vamos lá. Na bateria eu preciso dizer dois nomes. O primeiro é o Eloy Casagrande, de quem tive o privilégio de virar amigo e ter aulas. Ele é o melhor baterista do planeta. O outro é o Jimmy “The Rev” Sullivan (falecido, do Avenged Sevenfold). Ele tinha uma identidade forte e conseguia cantar vocais de apoio agudíssimos enquanto tocava.
Na guitarra, Eddie Van Halen e James Hetfield pela mão direita. O Steve Vai, para mim, é Jesus Cristo.
Olha, já no baixo, o Flea do Red Hot Chili Peppers. Além de tocar bem, ele tem uma atitude extremamente rock and roll.
Para a voz, Corey Taylor, do Slipknot. Ele é minha referência máxima. Parece que, quanto mais ele envelhece, melhor fica. É um vocal super exigente tecnicamente e fisicamente, e ele entrega tudo.

Seu som foge de rótulos. Como você define seu estilo musical hoje?
LVCAS: Ah, eu uso elementos do nu metal, como o DJ e o groove de bateria, porque cresci nos anos 2000, mas não quero me apegar em nostalgia. Não gosto de rotular; meu som muda conforme o que estou ouvindo no momento.
As retrospectivas musicais do YouTube ficaram para trás ou você pretende retomar o projeto?
LVCAS: Foi uma fase importante que me projetou e me deu aptidão para arranjos, mas o ciclo se encerrou. Não quero falar pelo meu “eu do futuro”, mas hoje não quero voltar. Gosto de acabar com as coisas enquanto ainda estão sob meu controle.
Como está a vida de turnê agora em 2026?
LVCAS: Estamos em simbiose com a banda. Sinto que atingimos um nível de maturidade maior. Lancei o EP “abatido mas não derrotado”, que é mais conciso que o anterior. Quero que as pessoas saibam que meu próximo trabalho sempre será diferente. A liberdade de se expressar honestamente é o que torna a música legal.