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Ratos de Porão, Black Pantera e Porno Massacre agitam 30 anos do Goiânia Noise

Resenha nada linear do mais longevo festival do Brasil em sua edição de 30 anos

Ratos de Porão (Natália Michalzuk)

Ratos de Porão (Natália Michalzuk)

No final da noite quente de domingo, 08 de setembro de 2025, o Centro Cultural Martin Cererê, um pequeno complexo que envolve dois pequenos teatros gêmeos, de teto abaulado e abraçado por uma área a céu aberto, está em festa. O último show do festival Goiânia Noise 30 anos, o ícone punk paulistano Ratos de Porão, estava prestes a começar. Ali, debaixo das árvores, os criadores da coisa toda, Leo Razuk e Leo Bigode, aproveitam o último dos 4 dias de rolê ao lado de Toshi, uma mistura de escudeiro, samurai e relações públicas do evento, presente na organização há décadas. Vários artistas que passaram pelo festival, estavam mais à vontade com o japonês cabeludo do que com os próprios fundadores do festival. O trio recebia os cumprimentos do público mais fiel pelos 30 anos de transformação na cidade de Goiânia, um celeiro de ótimos artistas desde a década de 60. Importante lembrar que a capital do estado de Goiás foi fundada há menos de 100 anos, em 1933. Um terço da história da cidade tem um festival anual de música como patrimônio cultural. 

“Os Leos” celebravam o final de uma edição muito bem arredondada, como a arquitetura dos teatros do Cererê. Quarenta e dois artistas, entre grandes nomes brasileiros e novos talentos da música se apresentaram nos dois palcos, mais uma porção em um estúdio montado dentro do festival, gravando grupos locais ao vivo para uma coletânea a ser lançada oficialmente pela Monstro Discos, selo papai do Goiânia Noise. 

O festival, agora trintão e dono da coroa de mais antigo em atividade no Brasil, entre os independentes, foi colecionando algumas características que o tornaram bastante único, ao longo de sua jornada cultural. Apesar do “noise” no nome e da explícita predileção dos envolvidos em vertentes mais barulhentas do rock, o evento foi se tornando algo muito mais voltado para atitude, para o “corre” roqueiro do que a própria sonoridade. De fato, passeando pela exposição concomitante ao festival, ocupando o Centro Cultural Cora Coralina, na região central da cidade, e observando seus cartazes e fotos, vemos nomes como Odair José,  Gilberto Gil e Hermeto Paschoal como headliners das edições anteriores. “O Hermeto fez um show mais punk do que a banda mais punk que já tocou em toda a história do Goiânia Noise”, conta Bigode, sentado ao meu lado no anfiteatro que fazia a função de camarim, sala de imprensa e ponto de encontro dos artistas do festival. Razuk, também por ali, completa: “A Layse E Os Sinceros, que tocou ontem, foi um show mais rock do que muito fazem muitos roqueiros”. 

A apresentação da paraense Layse com sua banda foi mesmo um dos pontos altos de todo o festival. O grupo, com a carismática líder cantando (muito) enquanto leva nos braços o ritmo, tocando bateria, apresentou uma sequência de música amazônica sem concessões, mas tocada com uma pressão sonora e uma animação digna de quem tem muita bagagem de palco. Gente acostumada a fazer um bom baile. “Eu comecei como DJ”, conta Layse, ainda com a energia do show que acabara há poucos minutos na pele, “o nosso show é como um jogo de vôlei. A gente está ligado no que as pessoas estão sentindo na hora e vai jogando com o público. E isso se estende para o baile que a gente faz toda quarta-feira no bar Apoena, em Belém. Virou meio que um ponto turístico da cidade. Nossa festa existe há 8 anos e está sempre lotada, porque o show nunca é a mesma coisa”. Caraca… como os Beatles durante sua temporada em Hamburgo, zona portuária em que tocaram antes de explodir para o mundo, pensei. Kleyton Silva, backing vocal, concorda: “a música paraense tem essa coisa de ser dançante, e também tem a característica de baile. A gente precisa, na nossa festa às quartas-feiras, manter o público dançando a noite toda”. 

O quinteto certamente estará despontando no circuito de grandes festivais muito em breve, Brasil afora. Layse comanda como uma maestrina e seu grupo responde com paixão. Temos, na região norte, nossa Esperanza Spalding, festeira e divertida.

Porno Massacre se apresenta no Goiânia Noise (Natália Michalzuk)
Porno Massacre se apresenta no Goiânia Noise (Natália Michalzuk)

Outra característica bastante conhecida do Goiânia Noise são os palcos alternados. Acaba um show no teatro Pinguá, corre para o Iguá porque já está começando outro. E eis que, durante cada noite, vão sendo servidos de forma bastante dinâmica uma degustação de estilos musicais, estéticas e padrões. Ou sua quebra. Como aconteceu com outro show comentado em todos os cantos do Martin Cererê, da banda Porno Massacre, liderada por Lupita Romero. Falando sobre sexo, diversidade de corpos, liberdade e uma caótica estética BDSM, o grupo paulistano é um representante vivo do glam rock brasileiro. Musicalmente, honra MC5 e New York Dolls sem olhar para o chão. “A gente espera que o show da Porno Massacre mude a concepção do cenário goiano sobre presença de palco”, me conta Leo Bigode. 

Muito provável. Porque se o festival é um acontecimento para o público, também é para os artistas, que circulam livremente pelo parque, assistindo a vários shows de outros colegas. Rinaldo, guitarrista dos Garotos Podres e responsável por outro grande show da sexta-feira, estava pulando ao som dos mineiros Black Pantera, banda com a missão de  encerrar a noite. E essa energia do “quero ver tudo” estava em todos os lugares. Principalmente porque (e aqui vai outra marca registrada do evento) o Goiânia Noise tem uma curadoria bastante diferente do que se vê Brasil afora. Grande parte do line up é composto por bandas no começo do voo artístico, de todos os cantos do país, embora muitos artistas sejam locais. Em conversas de bastidores, cruzamos com garotos que pegaram quase 20 horas de estrada, no carro, para estarem ali, como os integrantes da ótima banda de hardcore Budang, de Florianópolis, ou a gana deslumbrante de “conhecer todo mundo”, como o que acontecia com a molecada do Maré Tardia, de Vitória. “A gente nunca fez concessões e coloca para tocar aquilo que nos toca”, explica Bigode, “talvez de forma até irresponsável, se for pensar em outros festivais”. Que sigam assim. Em um cenário onde os números nas plataformas de streaming contam, em muitos eventos, mais do que a qualidade musical ou a voracidade no palco, o Goiânia Noise é um dos últimos a manter  a “cara de festival dos anos 90”, momento em que os brasileiros se abriram para o novo no cenário musical brasileiro. A década em que o festival nasceu.

Black Pantera no Goiânia Noise (Natália Michalzuk)
Black Pantera no Goiânia Noise (Natália Michalzuk)

“O Noise surgiu em uma era pré internet. O Leo me chamou para fazer um festival para as bandas daqui e para colocar as bandas daqui para tocar. A ideia era dar uma visibilidade para essa cena que estava tocando aqui. Para o resto do Brasil, rock em Goiânia era a coisa mais improvável no mundo. O festival surgiu em 1995 na Praça Universitária da cidade. No dia do primeiro festival a gente ainda estava procurando tomada para saber onde ligar a energia. Foi ensandecido, lotado”, me conta Marcio Jr., que participou da organização das primeiras edições e acabou deixando o grupo para se dedicar à sua banda, Mechanics. Como “indenização” pela amizade e o sangue doado no começo da jornada, o grupo de Marcio passou a ser chamado para tocar em todas as edições seguintes. Naquele final de semana, o grupo comemorava o feito de ser a única banda que se apresentou em todas as edições, nos 30 anos do Goiânia Noise.

A persistência, claro, modificou a cidade. A capital do estado tem uma produção criativa enorme, com bandas surgindo o tempo todo e algumas despontando para o mundo. Caso dos Boogarins, por exemplo. Todas passaram pelo Noise. Leo Bigode tem consciência disso. “A gente não vai bancar aqui o modesto e dizer que não houve transformação na cena goiana depois do Noise. O festival ajudou a mudar, sim, muita coisa. Além do evento anual, a produtora Monstro também realiza o Cidade Rock, todo mês, com artistas de todos os cantos do país.

 Como é que se chega tão longe? A resposta é outra das características interessantes do festival. Teimosos e perseverantes, Bigode e Razuk não veem nenhum problema em encolher o festival, de acordo com as condições econômicas voláteis que enfrentam, na condição de festival independente brasileiro: “a gente faz o Goiânia Noise com muito dinheiro, com pouco dinheiro ou sem nenhum dinheiro”, explica Bigode. Em um ano, o festival ocupa o gigante Centro Cultural Oscar Niemeyer. Em outro, volta à sua simpática casa, o Martin Cererê. Pelos palcos, o público goianiense recebe ícones do rock alternativo mundial como Mudhoney, barões da música brasileira como Gilberto Gil ou potências independentes de outro país, usando o festival como plataforma para novas conquistas. O inegociável é: todo ano tem Goiânia Noise. Que venha 2026!