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Por que assistir ‘Os Olhos de Nara Leão’, espetáculo que vai além da Wikipedia

Peça musical é estrelada por Zezé Polessa e tem direção de Miguel Falabella

Zeze Polessa Priscila Prade Divulgacao

A atriz Zezé Polessa em "Os Olhos de Nara Leão" (Priscila Prade/ Divulgação)

Há tempos que o canto da capixaba Nara Leão (1942-1989) faz parte da vida de Zezé Polessa. “Eu cantei um dueto dela com Chico Buarque na escola”, lembra a atriz, em entrevista à Billboard Brasil. Nos tempos de pandemia, contudo, essa simbiose se mostrou mais forte. Zezé comprou “Ninguém Pode com Nara Leão: Uma Biografia”, do jornalista Tom Cardoso (que deve também virar filme produzido por Manu Gavassi e pelo empresário Felipe Simas) e voltou novamente a se encantar com a vida dessa intérprete de voz mansa, mas de personalidade forte.

O resultado desse novo arrebatamento é “Os Olhos de Nara Leão”, monólogo em cartaz no Teatro Clara Nunes (Rio) desde o início de março. Zezé revive Nara em alguns dos momentos mais cruciais da “musa da bossa nova” –epíteto que, claro, mostra-se redutor ao longo do espetáculo. “Eu era uma adolescente da Tijuca [bairro localizado na entrada da zona norte do Rio] e me encantava com as matérias sobre ela e as entrevistas que Nara dava”, prossegue Zezé.

Em “Olhos de Nara Leão”, a cantora (interpretada por Zezé, claro) entra em cena para compartilhar com o público alguns dos principais momentos de sua carreira. Mas não espere ver no palco uma imitação da intérprete de “A Banda”. “Eu não procuro imitar o seu jeito de falar ou cantar, existe uma liberdade em todo este processo, não poderia ser diferente com alguém que sempre foi tão livre”, esclarece Zezé. Mas há, claro, uma preocupação com a qualidade da interpretação. A atriz reproduz alguns dos cavalos de batalha da capixaba, como “Diz que fui por aí”, “Corcovado” e “Opinião”, entre outras.

Nara Lofego Leão foi uma pessoa à frente de seu tempo. Era adolescente quando passou a dar aulas de violão na escola dos instrumentistas e compositores Carlos Lyra (1933-2023) e Roberto Menescal. No mesmo período, abrigou a dupla e mais uma leva de autores e pensadores, numa reunião que posteriormente se tornaria um movimento musical conhecido como bossa nova. Nara, contudo, não se contentou em fincar os pés somente nesse gênero. Em seu disco de estreia, de 1964, ela abriu espaço para os chamados compositores do morro como Cartola (1908-1980), Zé Keti (1921-1999) e Nelson Cavaquinho (1911-1986).

“Ela saiu da bossa nova e trouxe para a luz da alta burguesia uma coisa que não se conhecia. Ninguém olhava para as entranhas da cidade.”, reconhece Miguel Falabella, responsável pelo texto e pela direção de “Os Olhos de Nara Leão”. A cantora ajudou ainda a legitimar movimentos como a tropicália (participou de “Panis et Circenses”, disco que foi o marco-zero da trupe criada por Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé. Canta, lindamente –o trocadilho é inevitável– “Lindoneia”, parceria de Gil e Caetano). Ela seria responsável também pela legitimação de Roberto e Erasmo Carlos junto ao público classe A ao soltar “…E que Tudo Mais vá pro Inferno”, de 1978, composto de canções da dupla.

Mas se você quiser se aprofundar sobre o trabalho de Nara Leão, este que vos escreve faz seu o texto que Falabella colocou no meio do espetáculo. “Dá um google!” “Eu não tento fazer Wikipedia”, brinca Falabella. Ou seja, o espetáculo é muito mais uma valorização do talento de uma das maiores artistas do país –a cargo, claro de uma atriz e um diretor de alta patente– do que o festival de dados biográficos e datas que são jogados em 99,% dos musicais brasileiros a respeito de personalidades da música e da TV.

“Infelizmente ainda não conseguimos fugir das biografias”, reconhece Miguel Falabella (nota do redator: cujo “Império”, em cartaz tempos atrás no Rio, é um dos musicais mais criativos do cenário brasileiro). 

Contudo, “Os Olhos de Nara Leão” joga luz sobre o trabalho e a importância da cantora, que a seu modo delicado e firme, se posicionou contra o machismo e a ditadura militar, realizado por dois talentos de alta patente –que tem ao seu lado a direção musical de Josimar Carneiro, cenário de Marco Lima, aulas de canto a cargo de Cecília Spyer e preparação vocal de  Mariana Baltar. É um passo importante para uma nova maneira de se fazer musicais à brasileira.

 

 Os Olhos de Nara Leão

Local: Teatro Clara Nunes

Rua Marquês de São Vicente, 52, Gávea, Rio de Janeiro, RJ

Bilheteria:(21) 2274-9696 |

Temporada: de 06 de Março a 26 de abril de 2026

Horários:

Sextas às 20h

Sábados às 20h

Domingos às 19h

Ingressos à venda pela bilheteria do Teatro ou online pela Sympla

Plateia: R$160 (inteira), R$80 (meia), balcão: R$140 (inteira), R$70 (meia)

Classificação etária: livre

Duração: 80 minutos

Redes Sociais: @osolhosdenaraleao