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Paulinho da Costa, o Mágico de Nós, um verdadeiro milagre brasileiro

Paulinho da Costa e João Marcello Bôscoli (Arquivo pessoal)

Paulinho da Costa e João Marcello Bôscoli (Arquivo pessoal)

Aqui na Billboard, ele faz parte de centenas de canções recordistas nas paradas (981 álbuns de ouro e 105 álbuns de platina). As trilhas e canções ns quais tocou têm 12 indicações ao Oscar (ganhou 7 estatuetas). “Star Wars”, “Purple Rain”, “Gremlins”, “Footloose”, “Shaft”, “A Cor Púrpura”, “Os Embalos de Sábado à Noite”, entre dezenas. Na TV, “Simpsons”, “Everybody Hates Chris”, “South Park”, “Tartarugas Ninja”, entre dezenas. Vários Emmys. E, nesse ano, será o primeiro brasileiro homenageado com uma estrela na Calçada da Fama.

Então, naturalmente surge a pergunta: quem é esse cara? Quem é o percussionista mais gravado, e com melhores resultados, na história da humanidade?

Ele é Paulinho da Costa, um agente secreto da música. Gravou a vida de 9.967 faixas e, consequentemente, a carreira de 1.020 artistas.

E quase ninguém sabe da sua existência. Um herói musical anônimo.

Acredite: não é exagero.

No documentário sobre ele, heroicamente dirigido por Oscar Rodrigues Alves, os depoimentos tratam disso diversas vezes. Já na abertura, o maestro Quincy Jones, para muitos o maior produtor musical da história, falou ser possível escrever tudo em partitura, mas não é assim que se consegue música excelente, não é assim que se conecta com Deus. Você precisa dar uma boa estrutura e deixá-lo ser… Paulinho!

Entre centenas de músicos com os quais trabalhou em todo o planeta, falar da sua conexão com o Criador através do percussionista brasileiro no estúdio me emocionou.

Paulinho da Costa nasceu e cresceu em Irajá, no Rio de Janeiro. Um dia, em meio a uma das muitas crises financeiras da sua infância, começou a tocar, batucar na mesa da cozinha de casa. Ali, sentiu a música se manifestando através de si, vinda do impacto de suas mãos na madeira. Assim surgiu a fagulha inicial de tudo que ele construiu.

“Muitas vezes Paulinho acabava a gravação e era pedido pra que permanecesse no estúdio, ganhando por hora, porque ele trazia… sorte”

O menino que em pouco tempo se tornaria prodígio na Portela encontrou uma saída em si mesmo através da música. Foi uma transformação na sua vida. E na música mundial.

Certa vez, num avião, uma pessoa tocou suas costas e se apresentou. “Oi, Paulinho, meu nome é Michael Jackson, sou dos Jacksons e queria te convidar pra gravar com a gente. Sou seu fã.” Era mesmo. No documentário, há uma carta oficial do Rei do Pop dizendo textualmente que ele é o melhor do mundo. Da mesa de madeira ao topo, parece que tudo deu e dá certo pra ele.

É algo mágico, confirmado pelo experiente trompetista Herb Alpert, dono da lendária gravadora A&M e de um álbum instrumental com seu Tijuana Brass, que em 1965 vendeu mais unidades que os Beatles. Para ele, numa variação do que disse Quincy Jones, a música “vem de um lugar mágico, vem da fonte original através do Paulinho”.

O modo como as pessoas (muitas delas estrelas globais) falam dele sempre me impressionou. Muita gente toca bem, claro. O que faz do Paulinho alguém tão especial?

Tocando com ele, entendi tudo. Programei na bateria eletrônica 808 uma batida contemporânea bem carioca e ele, como sempre, levou meus compassos aos céus. Fez tudo soar muito melhor. Me fez parecer especial.

Tempos depois, montamos uma banda pra acompanhá-lo. Até a sua chegada, era uma coisa. Quando ele chegou, espalhando seu sorriso e sua simplicidade mais confortáveis do que um Phantom da Rolls Royce, antes mesmo dele tocar, nossa banda já era outra.

“Arrumar a casa” é também uma especialidade do Paulinho. Dezenas de vezes ele foi procurado pra consertar, ajustar gravações com problemas.

Tudo estava numa fita analógica de duas polegadas, ainda não havia como editar, deslocar, apagar ou substituir livremente como fazemos no mundo digital. Com o resolver? Chama o Paulinho! Ele ouve tudo, pensa, vai para o instrumento e toca algo que matematicamente transforma os erros da gravação em características positivas, numa espécie de alquimia musical.

Além de ajustar faixas condenadas, ele também foi chamado diversas vezes pra resolver gravações. Como no caso de “Tutu”, de Miles Davis.

Marcus Miller, produtor e arranjador da obra-prima, já havia chamado três grandes percussionistas. Nenhum tornou a música aquilo que ela nasceu para ser. Paulinho foi chamado, gravou e Miles estourou.

Aliás, sua fama de ser alguém que traz sorte é grande. Madonna, Michael, Whitney Houston, Prince e Earth, Wind & Fire, por exemplo, depois de períodos difíceis ou de “quase estrelato”, só floresceram e foram para o topo depois das suas percussões. Muitas vezes ele acabava a gravação e era pedido pra que permanecesse no estúdio, ganhando por hora, porque ele trazia… sorte.

E muito profissionalismo. Sua empresária e amor vital, Arice da Costa, é uma das mais competentes gestoras da história do negócio de música.

Quando pega fogo em algum acervo ou arquivo de gravadora, pra quem ligam pra pedir cópias do contrato? Arice e Paulinho, um casal que Shakespeare poderia ter criado. Nunca atrasaram, nunca levaram histórias de um estúdio pra outro, nunca decepcionaram.

Se manter no auge durante o ápice da indústria, gravando com Prince, Madonna e Michael no mesmo mês e não ter nenhum problema com isso é inacreditável, dado o tamanho dos egos envolvidos. Ah! E gravar com ele economiza orçamento, barateia o processo, porque Paulinho grava um álbum numa manhã, por exemplo. De Alicia Keys, Erykah Badu e Aretha Franklin, passando por Red Hot Chili Peppers, Nas e De La Soul, até Stevie Wonder, John Williams e Tom Jobim, todos já viveram o ambiente criado por sua aura.

Paulinho da Costa sabe exatamente o que precisa ser feito, grava normalmente em apenas um take cada instrumento, estruturando a música. Depois ele adiciona alguns canais de surpresas, invenções e… mágica.

Vamos homenagear Paulinho da Costa porque merece e porque está vivo pra saber o quanto o amamos. Tem o Mágico de Oz; ele é o Mágico de Nós, um verdadeiro milagre brasileiro.

* João Marcello Bôscoli é produtor musical, comunicador e empresário. Filho da cantora Elis Regina e do produtor, jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli, é fundador e presidente da Trama, empresa que ajudou a transformar o panorama musical brasileiro neste século.