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Paulinho da Costa: Desvendando o segredo do groove brasileiro

Paulinho da Costa (Divulgação)

Paulinho da Costa (Divulgação)

Diretor e produtor de documentário na Netflix contam como foi retratar o brasileiro que ajudou a moldar a ritmo do mundo

O nome do percussionista brasileiro Paulinho da Costa aparece em tantos discos tão famosos que não dá pra entender como até hoje ficou escondido do grande público. Paulinho estava com Michael Jackson em “Thriller”, o disco mais vendido da história. Esteve por trás de “We Are theWorld”, o estrondoso single pela África que virou o mais vendido em 1985. Está nos créditos de álbuns de nomes como Earth, Wind & Fire, Madonna, Stevie Wonder, Ray Charles, Aretha Franklin, Quincy Jones. Está em trilhas sonoras de filmes que com certeza você já assistiu e em músicas que você sabe de cor. Mas isso vai mudar. Um documentário patrocinado pela Johnnie Walker, que está em cartaz na Netflix, busca corrigir essa distorção histórica. E faz isso com a mesma perfeição que sempre guiou a carreira de Paulinho.

Oscar Rodrigues Alves, diretor do filme, levou seis anos entre o primeiro telefonema e o “sim” definitivo. Nesse intervalo, ouviu alguns “nãos”, muitos silêncios e aprendeu que Paulinho tem uma vaidade do ofício. “Ele sempre cuidou muito das relações, da qualidade técnica, do próprio legado”, diz Oscar. “Era preciso confiar em mim como pessoa física e na produtora como pessoa jurídica. Ele só toparia se tivesse certeza de que seria tratado com o mesmo rigor com que sempre tratou sua música.”Quando o “sim” veio, não houve tempo para roteiro. O produtor e amigo Quincy Jones tinha acabado de sair do hospital após um ataque cardíaco, e Paulinho e Arice, sua esposa, entenderam que era hora de registrar tudo. “Se o Quincy é tão importante na história, não dá para deixá-lo de fora”, disseram. Vinte dias depois, Oscar estava diante de Quincy, câmera ligada, sem roteiro, mas com 36 anos de admiração acumulada. Era o início de uma jornada que passaria por Los Angeles, Vancouver, Rio, São Paulo e Cachoeira, na Bahia, onde Paulinho, aos 69 anos, pisou pela primeira vez.

O filme também registra despedidas. Quincy, Bill Withers e Lalo Schifrin deram depoimentos emocionantes — e partiram pouco depois. Bill chegou de andador, debilitado, mas ao lado de Paulinho o eterno compositor de “Ain’t No Sunshine” reencontrou algo que parecia perdido. “Ele disse: ‘Agora percebi que estou sem dor’”, lembra Oscar. Lalo, pianista argentino criador do tema de “Missão Impossível”,que não podia mais tocar por causa do Parkinson, sentou-se ao piano e começou “Manteca”. Paulinho olhou para Oscar, Oscar olhou de volta, e o inevitável aconteceu: os dois tocaram juntos. “O Paulinho despertou nele a vontade de tocar”, conta emocionado o diretor. “Esses encontros só aconteceram porque o filme começou antes mesmo de o roteiro estar pronto.”Entre o ’sim’ do Paulinho e a data de filmagem como Quincy tínhamos só 20 dias! E eu não ia perder essa chance de ouro!”, conta Oscar. “Conheço a obra do Paulinho pelos créditos nos álbuns desde os 9 anos, sabia que podia começar a filmar mesmo sem um roteiro final”.

“A gente é mais impactado pela música pop, mas o que ele fez com esses caras (do jazz) é de cairo queixo”, diz Oscar Rodrigues Alves

O produtor Alan Terpins chama o projeto de “trabalho de amor”. Foram anos de pandemia, fusões de estúdios, crises financeiras e uma equipe que, segundo ele, “lutava para não terminar nunca”. Alan reuniu nomes de peso, gente com Oscar e Grammy no currículo — Glen Zipper, Doug Blush, Moogie Canazio, Darran Tiernan. Ele não precisou de promessas, mas contou simplesmente com a força gravitacional da própria história de Paulinho. “Eles quiseram estar aqui”, diz. Isso porque Paulinho tem algo que não se ensina. Oscar chama de “veneno do groove brasileiro”.  É o elemento que muda a faixa. Earth, Wind & Fire esperava meses pela agenda dele. Maurice White dizia que uma música só ficava pronta quando Paulinho chegava. Verdine White lembra que a banda ia ao estúdio só para ver “o que o Paulinho ia aprontar”. Paulinho não entrou oficialmente na banda porque não queria abrir mão de trabalhar com Michael Jackson, Miles Davis, Dizzy Gillespie — e de estar perto da família. Mas a conexão era tão forte que ele virou parte do som do grupo. “Ele estava em Los Angeles num momento de explosão criativa”, diz Oscar. “Os artistas se apaixonaram por ele.”

O documentário busca dar conta dessa trajetória: o menino de Irajá que virou o percussionista mais requisitado do planeta, mas que continua sendo o músico que chega ao estúdio ouvindo antes de qualquer coisa. Uma das marcas do Paulinho é justamente saber quando não tocar. Produtores contam que ele escuta a faixa e, muitas vezes, devolve: “isso aqui já está pronto”. Oscar ouviu isso repetidas vezes durante as filmagens. “O que o Paulinho faz é a verdade para aquela faixa”, diz o diretor. “Ninguém diz para ele o que tem que fazer. Ele coloca exatamente o que precisava — e, quando não precisa, ele não toca.”Num ambiente em que todo mundo quer deixar uma marca, Paulinho da Costa ficou conhecido por fazer só o que a música realmente pedia.

O filme também mostra como Paulinho transitava entre mundos. Oscar define isso de um jeito simples: “Paulinho é a esquina do pop com o jazz naquele momento.” Ele estava nos discos que moldaram a música pop global, mas também nos projetos de Dizzy Gillespie, Lalo Schifrin e Miles Davis. “A gente é mais impactado pela música pop, mas o que ele fez com esses caras é de cairo queixo”, diz o diretor.

A campanha que acompanha o filme quer apresentar, aprofundar e reconhecer esse legado. E, pela primeira vez, talvez o Brasil esteja pronto para ouvir o que o mundo já sabe há décadas: Paulinho da Costa não é coadjuvante de ninguém, ele é parte estrutural do som que moldou a música global.