O africano que colocou o AC/DC no primeiro escalão do rock mundial
O produtor Robert John "Mutt" Lange concebeu os três melhores discos do grupo

Brian Johnson e Angus Young, do AC/DC (Reuters)
Em 1979, o AC/DC –que inicia nesta terça-feira, dia 24, uma série de três apresentações no país– era uma grande banda à procura de um disco de sucesso. Embora o quinteto australiano fosse grande no Reino Unido e tivesse uma platéia fiel nos Estados Unidos, faltava a eles um trabalho que os colocasse no panteão das grandes bandas de rock daquele período –casos de Foreigner, Journey, Van Halen e Kiss.
A Atlantic, companhia pela qual o AC/DC lançava seus trabalhos nos Estados Unidos, sugeriu a troca dos produtores George Young e Harry Vanda –que estavam com os australianos desde o início– por alguém que transformasse seu rock básico num produto comercial e palatável para o gosto americano. A primeira sugestão foi Eddie Kramer, produtor de Jimi Hendrix, Led Zeppelin e Kiss. Os australianos o odiaram, principalmente quando ele teve o desplante de sugerir piano em algumas das criações do conjunto.
A solução foi recrutar Robert John “Mutt” Lange, africano de descendência alemã (ele nasceu na atual Zâmbia e foi criado na África do Sul) e que trazia no currículo trabalhos ao lado do cantor e guitarrista Graham Parker (um ídolo do pub rock, versão inglesa do rock de garagem) e do grupo pós punk Boomtown Rats. Lange fez alterações profundas e necessárias no som do combo liderado pelos guitarristas Angus e Malcolm Young. Primeiro, mexeu na potência das guitarras, que por vezes soavam desafinadas. Depois, acentuou as presenças dos vocais de apoio de Malcolm e do baixista Cliff Williams. Os refrãos, por seu turno, ganharam mais importância na receita das composições. O toque final foi um acabamento mais polido, ideal para tocar nas rádios.
Deu certo. “Highway to Hell”, primeiro disco do AC/DC sob a batuta de Lange, atingiu a 17a colocação na parada americana. Em setembro de 2024, “Highway” contabilizou nada menos do que oito milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos. “Back in Black”, o álbum seguinte, foi marcado para substituição de Bon Scott, o maior símbolo do hedonismo na banda, morto de overdose em fevereiro de 1980, pelo inglês Brian Johnson, ex-Geordie. É o ponto alto da parceria de Lange com o quinteto. É o segundo disco mais vendido da história da indústria fonográfica –50 milhões de cópias no mundo inteiro–, quarto mais vendido no mercado americano (perde somente para “Greatest Hits” e “Hotel California, do grupo de country-rock Eagles, e “Thriller”, de Michael Jackson) e tem uma qualidade de som tão perfeita que é usado para testar equipamentos de áudio.
A parceria entre John Mutt Lange e AC/DC se encerrou com “For Those About to Rock (We Salute You)”, o único trabalho a entrar em primeiro lugar na parada americana e vendeu quatro milhões de unidades –uma marca bem mais tímida do que “Back in Black”, que de largada bateu 25 milhões de cópias vendidas.
Mutt Lange, contudo, assimilou sua “demissão” do AC/DC e emplacou outros sucessos. Aqui, dois exemplos de seu toque de Midas no universo pop.
DEF LEPPARD

Um dos principais nomes da chamada “new wave of british heavy metal”, o quinteto surgido em Sheffield mudou radicalmente sua estrutura sonora. O vocalista Joe Elliott adotou um tom mais rascante, Lange adicionou paredes de guitarras –eles eram celebrados por sua sonoridade crua– e refrãos perfeitos para serem cantados em estádios. O resultado foi dois milhões de cópias de “High N’ Dry”, de 1981, e nada menos que dez milhões de cópias de “Pyromania”, de 1983.
O que escutar: “High N’ Dry” e “Pyromania”
SHANIA TWAIN

A exemplo do AC/DC, a intérprete canadense era uma artista talentosa à procura de um grande produtor. Mutt Lange não apenas se apaixonou pela voz de Shania, mas também pelo conjunto –a ponto de se casarem. “Come on Over” e “The Woman in Me”, resultados dessa união, colocaram a intérprete entre as principais renovações da música country dos Estados Unidos. Por mais que utilizasse instrumentos como mandolim e banjo, típicos nesse estilo, mas com guitarras e refrãos próximos do rock de arena.
O que escutar: “Come on Over” e “The Woman in Me”
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