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‘Música que Não Toca por Aí’ recebe Evandro Okàn em novo momento

No sexto episódio do videocast, artista revisita memórias afetivas e carreira

Evandro Okàn e Monique Dardenne (@marcosbacon)

Evandro Okàn e Monique Dardenne (@marcosbacon)

O videocast Música que Não Toca por Aí, apresentado por Monique Dardenne, recebe Evandro Okàn em seu sexto episódio. Ao longo da conversa, o cantor, compositor e diretor artístico compartilha reflexões sobre memória afetiva, ancestralidade, trajetória profissional e o reencontro com sua expressão artística.

Para Evandro, escolher cinco discos que representam uma vida foi como fazer uma arqueologia de si. “Foi um momento de olhar para a história, mas também de tortura”, confessa, rindo. “Porque escolher poucas músicas te leva ao encontro de memórias, de momentos que você estava vivendo enquanto ouvia aquele artista. É um exercício de priorizar afetos.” O recorte escolhido, acredita ele, é um mapa de sua trajetória — e um convite para que o ouvinte também encontre conexões com as próprias histórias.

O violão e a sensação de pertencimento

O primeiro disco escolhido por Evandro é Luz, de Djavan. A conversa abordou a relação com o artista alagoano, que começou antes mesmo de ele entender o que as letras diziam. “Na adolescência, quando comecei a passar pelos primeiros desafios amorosos, eu ouvia Djavan e chorava. E quanto mais eu chorava, melhor me sentia. Foi ali que entendi o poder emocional da música”, comenta.

Mas Djavan fez mais do que embalar corações partidos. Em um período no qual sofria com piadas e preconitos por ser um menino negro e sensível na escola, aprender a tocar violão — e tocar Djavan — foi essencial para um encontro com o pertencimento e, de certa forma, uma virada de chave. “As meninas pediam as músicas no recreio e aquilo me dava uma sensação de inclusão. A música fazia com que as pessoas me vissem de outra forma, para além dos estereótipos. Djavan me trouxe pertencimento.”

Ele participou e aprendeu a tocar no Projeto Guri e foi lá, aos 15 anos, que ouviu Baden Powell pela primeira vez — artista do segundo disco escolhido, Nosso Baden. “Naquela aula, entendi o que queria fazer da vida.” O violonista segue sendo seu preferido até hoje.

Dona Jacira: a mulher que redefiniu lugares

Falar de música, para Evandro, é inevitavelmente falar de sua mãe, Dona Jacira, uma mulher negra multiartista que aprendeu a ler e escrever sozinha e rompeu padrões para não repetir o destino imposto às mulheres de sua época. “Ela sempre dizia que cultura e educação eram fundamentais para darmos os próximos passos. Ela tinha uma visão de mundo muito à frente do seu tempo”, compartilha.

Evandro é o caçula de cinco filhos, criado em uma família matriarcal na Zona Norte de São Paulo. A sensibilidade que carrega hoje, ele sabe, vem desse berço. E veio também do sacrifício silencioso de Dona Jacira, que se esforçava para garantir o valor da condução do filho até a aula de violão. “Ela queria investir 100% no meu caminho musical. Hoje me pergunto se não deveria tê-la ouvido e seguido integralmente, mesmo com medo das dificuldades. Mas ver o esforço dela me fez querer ‘me virar’ rápido, monetizar cedo, ajudar em casa.”

Ele teve vários empregos — servente de pedreiro, gerente de fast-food — e tocava violão em bares para ganhar um dinheiro extra. A música sempre foi o centro, mas a urgência de sobreviver e ser independente também se impunha.

A síndrome do preto único e o mercado musical

Evandro construiu uma trajetória sólida no mercado musical, primeiro como empreendedor e gestor, antes de retomar o próprio caminho artístico. Foi um dos primeiros homens negros a ocupar certos espaços de poder na indústria e a solidão, em muitos momentos, foi grande.

“Durante muito tempo, vivi a síndrome do preto único. Eu olhava em volta e não via ninguém parecido para trocar. O mercado era ainda mais preconceituoso e excludente; não se falava de diversidade e inclusão na época.” Ele ressalta, porém, que sua forma de ser e de construir networking possibilitou a abertura de muitas portas por grandes lideranças.

Ele conta que encontrou acolhimento principalmente em Altay Veloso, músico e compositor — “uma das únicas pessoas com quem consegui dialogar e me aconselhar sobre questões raciais dentro do mercado”. Foi Altay quem o ouviu nos momentos em que precisou tomar decisões que sua própria comunidade, às vezes, não compreendia.