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John Lydon Divulgacao

John Lydon, vocalista do Public Image

Mestre do insultos e da renovação musical, John Lydon se apresenta em São Paulo

“Uôrrrdsss!” (tradução livre: “Falem!”), grita John Lydon, com sua famosa voz estridente e anasalada. O ano é 1992, o cenário é o Hotel Hilton, no centro de São Paulo –que naqueles tempos era O local para se hospedar– e o cantor e líder do Public Image Ltd, ícone do movimento pós-punk inglês dos anos 1980, não está no melhor de seu humor na coletiva de imprensa daquela manhã. Cada pergunta dos repórteres era respondida com um coice de dar inveja àqueles cavalos que servem os soldados do rei da Inglaterra. Mas eis que um dos jornalistas presentes à coletiva, cansado de tanto insulto, pergunta o porquê de mr. Lydon dar tanta resposta cretina. “PORQUE VOCÊS ESTÃO AQUI POR CAUSA DAS MINHAS RESPOSTAS CRETINAS”, grita.

Três décadas depois desse embate, um John Lydon muito mais polido –mas ainda afiado feito facas Ginsu– recebe a Billboard Brasil numa entrevista via zoom. Lydon, que um dia recebeu o apelido “Joãozinho Podre” (de seus tempos como vocalista dos Sex Pistols), lembra que seus inquisidores não eram também o que ele esperava. “Não é que eu estava sendo desagradável. As perguntas eram bobas”, esquiva-se. “Talvez eles achassem que éramos tão sem graça quanto todas as outras bandas pop com quem já conversaram.”

 

John Lydon e PIL fazem no dia 8 de abril, no Cine Joia (São Paulo), sua única apresentação em terras brasileiras. E, desculpem pela –visível– empolgação, é um evento que não se deve perder. Nascido 70 anos atrás com o nome de John Joseph Lydon, o cantor e compositor inglês é uma das figuras mais emblemáticas da história do rock. A adoção dos insultos como modus operandi nasceu ainda na infância: Lydon é filho de imigrantes irlandeses que se mudaram para o norte de Londres (então uma região barra pesada) e, juntamente com a população jamaicana no local, aprendeu o que era sofrer o preconceito na pele. “Os londrinos não tinham escolha a não ser nos aceitar: éramos muitos e nos integramos melhor do que os jamaicanos. Quando eu era muito jovem e ia para a escola, lembro-me de pais ingleses atirando tijolos em mim… Éramos a escória irlandesa. Mas ser escória também tem seu lado divertido”, disse ele em sua autobiografia, “No Irish, No Blacks, No Dogs” (“proibida a entrada de irlandeses, pretos e cachorros”, que ele jura ter visto na porta de algumas lojas da Inglaterra nos anos 1960 e 1970).

Lydon tinha 7 anos quando contraiu meningite espinhal, doença que o fez sofrer durante um ano. De tanto que as enfermeiras drenarem fluidos de sua coluna com uma agulha cirúrgica, ele acabou com uma postura curvada, o que mais tarde se tornaria sua marca registrada no palco. Uma das inspirações foi a performance irretocável de sir Laurence Olivier (1907-1989), um dos melhores atores de todos os tempos, em “Ricardo III”, o monarca corcunda, covo e perverso da peça teatral de William Shakespeare (1564-1616). “Eu adorava assisti-lo como Ricardo III e pensei: ‘Sim, eu consigo fazer isso!’. O filme celebrava as inadequações dele, que eu também tinha, e isso me deu um bom ponto de partida. Eu baseei minha carreira na paraplegia”, comenta.

 

A música sempre fez parte da rotina diária da família do vocalista. “Meus pais ouviam tanto rock quanto música tradicional irlandesa. E, como meu bairro tinha muitos imigrantes, fui impactado pelas sonoridades da Grécia, da Turquia, do Chipre… E, claro, ska e reggae por causa dos jamaicanos. Desde cedo, aprendi a não ter preconceitos.”

O cantor e compositor inglês é fã de Oscar Wilde (1854-1900), fabuloso escritor irlandês e um mestre da arte da ironia e dos insultos. “Em seu leito de morte, Oscar olhou para o papel de parede e disse: ‘Isso é horrível, um de nós tem de ir embora!’. E morreu logo em seguida”, diverte-se. “Eu adoro esse tipo de sagacidade.”

Lydon tinha 19 anos e era um dos frequentadores da Sex, boutique da estilista Vivienne Westwood e de seu então marido, o empresário Malcolm McLaren, quando foi convidado a participar do conjunto musical que Malcolm estava formando. Os “requisitos”, segundo consta nas biografias, foram o cabelo pintado de verde, os dentes limosos e uma camiseta do grupo de rock progressivo Pink Floyd na qual Lydon sapecou um “Eu odeio!” por cima. O teste teria sido uma versão gritada de “I’m Eighteen”, do roqueiro Alice Cooper, que tocava no jukebox da loja. 

Os Sex Pistols, criação de Malcolm McLaren, foi a personificação do movimento punk trazia de mais desafiador: um punhado de moleques insolentes, que faziam um rock’n’roll básico e porco e insultavam as instituições inglesas (confira o single “God Save the Queen”, xingamento à então rainha Elizabeth II). Ou seja, tudo o que a juventude daquele período, assolada pelo desemprego e pela falta de perspectiva, mais ansiava. O grupo durou dois anos, mudou a cara do rock e pouco tempo atrás teve sua história transformada em série pelo cineasta Danny Boyle –que Lydon simplesmente odiou. “Eu odiei. Parecia um episódio de “Friends” com o que eles acham que é punk rock”, disparou. “O pior de tudo é que um dia eu cheguei a gostar daquelas pessoas. Agora não os suporto porque, passados 50 anos, eles não fizeram nada que pudesse ser considerado uma boa música. Por outro lado, eu tenho carinho por eles porque sua mediocridade faz com que meu trabalho possa parecer melhor do que é. Então, que a inutilidade deles continue!”, dispara. 

O dono do PIL lidou com muitas perdas nos últimos anos. Uma das mais dolorosas foi sua mulher, Nora Foster, em abril de 2023. Lydon homenageou a amada, consumida pelo mal de Alzheimer, com uma das mais belas canções de sua lavra –o reggae “Hawaii”, no qual recorda a viagem que o casal fez para o arquipélago americano. “Mais recentemente, perdi meu tio favorito e meu primo favorito. Bem, o que se pode fazer? Não dá para ficar em casa se lamentando, é preciso sair e celebrar a energia vital que eles representavam. Por isso, minhas músicas nunca serão tristes e melancólicas, serão sempre sobre o lado mais feliz da vida. Sou grato o suficiente por ter uma vida”, explica.

Criado pouco depois do fim dos Sex Pistols, o Public Image LTD passou por diversas formações (até Steve Vai, virtuoso da guitarra, chegou a participar de um disco do grupo) e alternou estilos que vão do rock básico à disco music, reggae e até heavy metal (uma variedade de repertório que será revisitada na apresentação brasileira). A atual formação conta com o guitarrista Lu Edmonds, o baixista Scott Firth e o baterista Mark Roberts. “Você precisa ver Mark tocar. Ele tem a fúria e a desenvoltura de um Ginger Baker”, diz o cantor, referindo-se à lenda inglesa da bateria –e que também tocou no Public Image. Em 2023, o conjunto lançou “End of World”, um dos melhores trabalhos de sua discografia. Dali sai “Being Stupid Again”, cuja letra traz a ironia que apenas Lydon é capaz de fazer. “Vocês estão agindo como estudantes de novo/ Agindo de forma estúpida de novo/ Muito bem, são estudantes de novo/ Proíbam a bomba/ Salvem a baleia/ Deem uma chance à paz”, diz um trecho da canção. “Ela tem uma linha de baixo incrível, não? Ela fala que as pessoas têm de pensar por si mesmas”, explica. 

Public Image LTD Divulgacao
John Lydon e o Public Image LTD, em sua formação atual (Divulgação)

Lydon, de repente, volta ao tema inicial. “Eu não me acho um cara cínico, eu tenho somente um lado cínico aflorado. E eu me importo muito, muito profundamente com tudo. Só que me recuso a ficar atolado em bobagens intelectuais. Porque acho que na vida você aprende mais se divertindo do que sendo miseravelmente pseudo-intelectual”, confessa. “Gandhi é meu herói político, porque ele não acreditava em violência. Eu não consigo machucar uma borboleta. Mas se você tentar prejudicar minha família… Bem, você vai se ver comigo!” 

Uma vez Joãozinho Podre, sempre Joãozinho Podre…

 

PUBLIC IMAGE LTD
Onde: Cine Jóia (Praça Carlos Gomes, 62, Liberdade, São Paulo)
Horário: 21h3o
Ingressos: Fastix