Published by Mynd8 under license from Billboard Media, LLC, a subsidiary of Penske Media Corporation.
Publicado pela Mynd8 sob licença da Billboard Media, LLC, uma subsidiária da Penske Media Corporation.
Todos os direitos reservados. By Zwei Arts.

Legado: a música eletrônica deve muito a Afrika Bambaataa

Da música eletrônica ao trap, existem toques de Bambaataa por toda parte

Afrika Bambaataa (reprodução Facebook)

Afrika Bambaataa (reprodução Facebook)

Nascido no Bronx, em Nova York, em 17 de abril de 1957, Lance Taylor se tornou Afrika Bambaataa acumulando funções na música; DJ, rapper, produtor e um dos fundadores da cultura hip-hop.

Ele viveu a violência das gangues de rua, chegando a ser líder dos Black Spades. Seu encantamento pelo filme “Zulu”, de 1964, que narrava o conflito entre o exército britânico e o Reino Zulu, somado a uma viagem à África, visitando países como Costa do Marfim, Nigéria e Guiné-Bissau, que ele ganhara num concurso de redação da UNICEF, que o moveram a seguir uma nova filosofia de vida, deixando a violência para trás e focando na união e força dos povos pretos.

Ele fundou a Universal Zulu Nation, uma organização que oferecia uma alternativa pacífica às gangues, promovendo a paz, unidade, amor e diversão através dos quatro pilares do hip-hop: o DJ, o MC, o breaking e o graffiti. Essa base comunitária foi essencial, pois foi a partir dela que Bambaataa começou a experimentar e a difundir um novo som que iria mudar a música para sempre.

‘Planet Rock’: o Big Bang da música eletrônica

O marco zero dessa transformação foi o single “Planet Rock”. Lançada em 1982 em parceria com o Soulsonic Force, a música foi um verdadeiro divisor de águas, pois bebia de uma fonte europeia e eletrônica, o quarteto alemão Kraftwerk, para construir um som totalmente inovador, misturando o sequenciador eletrônico preciso como um relógio com o groove e o peso de suas rimas.

A genialidade de “Planet Rock” reside na sua fusão inovadora. Bambaataa e o produtor Arthur Baker pegaram emprestada a melodia de “Trans-europe Express” e a batida de “Numbers”, ambas do Kraftwerk. Em vez de samplear, eles recriaram esses elementos usando as ferramentas mais avançadas da época: uma bateria eletrônica Roland TR-808, um sintetizador Prophet-5 e um vocoder para processar sua voz. Esse foi um dos primeiros usos da TR-808 em uma gravação de hip-hop, e o som característico de sua caixa de bateria e seus graves profundos se tornariam um pilar dos pilares da música eletrônica de pista.

O impacto de “Planet Rock” foi imediato e profundo. A música não era apenas rap. Era algo novo, uma mistura de breakbeats do hip-hop e linhas de sintetizador do Kraftwerk. Com isso, Bambaataa deu origem a um gênero inteiramente novo: o electro.

A música plantou as sementes para inúmeros gêneros que viriam a seguir. A faixa é amplamente creditada por pavimentar o caminho para o Miami bass e a própria dance music como a conhecemos. O som robótico e futurista que Bambaataa ajudou a criar influenciou diretamente o techno de Detroit e a cena house de Chicago, que, por sua vez, moldariam a música eletrônica global nos anos seguintes.

A influência de Afrika Bambaataa se espalhou por todo o mundo, chegando com força ao Brasil. A base de “Planet Rock” foi um dos pilares fundamentais para o surgimento do funk carioca nas décadas de 1980 e 1990, servindo de inspiração para as “melôs” que embalavam os bailes do Rio de Janeiro. O próprio Bambaataa reconhecia essa ligação e veio ao Brasil inúmeras vezes, se apresentando fosse em grandes festivais ou em pequenas festas no Centro de São Paulo – eu mesma já encontrei com Bambaataa almoçando num restaurante por quilo no centro, sozinho, acompanhado apenas da toalhinha de rosto que se tornou sua marca registrada.

Afrika Bambaataa faleceu nesta quinta (9), deixando um legado que transcende a música. Como um dos criadores do breakbeat, DJ, seu papel como líder e padrinho do hip-hop, ele mostrou que a tecnologia poderia ser a alma da música negra e urbana. Se olharmos de perto, a música eletrônica contemporânea, do techno à house, do synth-pop à bass music, vai dar para encontrar um pouco do DNA de Lance Taylor.