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Latinidades celebra 18 anos com Larissa Luz, Luedji, Karol Conká e Érika Hilton

Latinidades celebra 18 anos com Larissa Luz, Luedji, Karol Conká e Érika Hilton

Maior evento da América Latina dedicado às mulheres negras reuniu mais de 10 mil

Larissa Luz apresenta show com rocks de Gil no Latinidades (Foto: Tais Mallon)

Brasília se transformou em palco da potência das mulheres negras no último fim de semana, ao receber o Festival Latinidades, o maior evento dedicado às mulheres negras da América Latina, que celebra 18 anos em 2025. Mais de 60 atividades artísticas, culturais e políticas tomam a cidade entre os dias 23 e 31 de julho, com shows, espetáculos, debates, cinema, literatura, artes visuais e rodas de conversa — reafirmando o lema que dá nome à edição: Mulheres Negras Movem o Mundo.

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Luedji Luna no Festival Latinidades (Foto: Tais Mallon)

De Zezé Motta a Karol Conká

Zezé Motta no Festival Latinidades 2025 (Gabriela Pires @gabiiiils / @ocreimagem)
Zezé Motta no Festival Latinidades 2025 (Gabriela Pires @gabiiiils / @ocreimagem)

Zezé Motta, literalmente, abriu os caminhos com a força de quem canta e atua há décadas pela dignidade das mulheres negras. Larissa Luz veio em seguida com seu novo espetáculo, um tributo roqueiro a Gilberto Gil — em especial às canções com pegada rock do mestre baiano.

Veja também: Zezé Motta brilha em show e relembra Caetano: ‘Você é uma das tigresas’

“Quando eu vi o rock, pensei: precisamos falar sobre o rock, porque o rock, antes de ser considerado rock, já tinha uma mulher preta fazendo rock, que era a Sister Rosetta. O rock tem uma origem negra muito forte”, afirmou Larissa.

Larissa Luz apresenta rocks do Gil no Latinidades (Foto: @rodgueto)
Larissa Luz apresenta rocks do Gil no Latinidades (Foto: @rodgueto)

Ela destacou também o significado da música “Rock do Segurança, que fala sobre ser julgado pela aparência e barrado: “Para mim, isso é muito rock and roll.”

A emoção tomou conta ao lembrar de Preta Gil, falecida recentemente: “Preta foi um exemplo de mulher que usou tudo o que tinha para abrir portas, plantar sementes, trazer pessoas que não estavam sendo vistas para o front, para a luz. Ela mudou a vida de muita gente. O legado dela está aqui.”

Luedji Luna estreia "Um Mar pra Cada Um" e "Antes que a Terra Acabe" (Foto: Tais Mallon)
Luedji Luna estreia “Um Mar pra Cada Um” e “Antes que a Terra Acabe” (Foto: Tais Mallon)

Luedji Luna estreou sua nova turnê com os discos “Um Mar Pra Cada Um” e “Antes Que a Terra Acabe”, num show marcado por emoção crua, ancestralidade e amor em suas múltiplas camadas.

“Por mais que eu tenha anos fazendo isso, esse frescor do disco novo traz uma adrenalina, uma ansiedade, um nervosismo. Minha boca tava seca, como se fosse a primeira vez.”

“Aprender a se amar e se reconhecer como alguém digno de amor é urgente. Nunca quis ser uma cantora que fala de amor, mas percebi que ainda estamos engatinhando nisso. A expressão máxima do amor é você se amar. Depois, sim, amar os outros.”

Veja também: Como foi a estreia da nova turnê de Luedji Luna com ‘discos gêmeos’

Duquesa no Latinidades 2025(Foto: @rodgueto)
Duquesa no Latinidades 2025(Foto: @rodgueto)

Duquesa trouxe irreverência e força. No palco, combinou versos afiados, riso solto e presença cênica magnética, com seu balé — reafirmando o protagonismo de uma nova geração que não teme a própria voz.

Karol Conká, a Mamacita, se apresenta no Festival Latinidades (Foto: @rodgueto)
Karol Conká, a Mamacita, se apresenta no Festival Latinidades (Foto: @rodgueto)

No encerramento, Karol Conká entregou energia de superação, cantando clássicos como Tombei, É o Poder e Dilúvio:

“Depois de muitas subidas e descidas na minha vida, o que eu levo como aprendizado é que não tem como evoluir ficando parado ou vivendo de passado. O que me faz seguir é essa vontade de ver uma construção coletiva bonita — e eu só sei que isso é possível quando a gente se entrega às vivências e tem acolhimento.”

A programação teve ainda nomes como Malía, Nessa Preppy, IAMDDB e Isa Marques.

Cultura não é acessório!

No centro da celebração, a deputada federal Érika Hilton destacou o caráter político do festival, que reúne e empodera mulheres negras, enfrentando o racismo e o machismo estrutural: “O Festival Latinidades é um festival de resistência, de luta, de enfrentamento, de coragem, produzido a partir da perspectiva da vida das mulheres negras. É uma preciosidade do Brasil, é nosso, é latino, é de mulheres pretas para mulheres pretas.”

Ela alertou para o sufocamento das vozes negras na política e o descaso com a cultura: “Identidade tem sido combatida pela política porque não querem que novas vozes disputem espaços de poder. Ainda somos minoria, lutando contra uma maioria odiosa e intolerante.”

Apesar disso, reconheceu avanços: “Temos um presidente e uma ministra da Cultura que valorizam a cultura, mas o Congresso Nacional ainda vira as costas para essa pauta.”

Mobilização popular e acesso

Festival Latinidades (@annalidiapaes)
Festival Latinidades (@annalidiapaes)

Até o momento, mais de 10.100 pessoas já passaram pelo festival desde o dia 23. Pela primeira vez, a organização disponibilizou três ônibus gratuitos saindo de Planaltina, Ceilândia e São Sebastião — todos lotados, graças a um sistema de inscrição online e coordenação com monitores voluntários.

Além disso, dez ônibus foram oferecidos para que estudantes de escolas públicas pudessem assistir à mostra Cine Afrolatinas, ampliando ainda mais o acesso à arte e à memória negra.

A fundadora do Latinidades

À frente do Latinidades, Jaqueline Fernandes, diretora-geral e fundadora, resumiu a essência da festa: “18 anos de um festival feito por mulheres negras, para mulheres negras, colocando mulheres negras no centro dos debates, mostrando a potência e a resistência.”

Ela celebrou o apoio financeiro conquistado nesta edição, que permitiu dignidade a todos os envolvidos: “Quando elas são impulsionadas, as mulheres negras movem o mundo ainda mais, porque somos potência.”

Jaqueline também cobrou mais espaço no mercado cultural: “Precisamos de mais investimento, mais equidade nos palcos, atrás dos palcos, nas funções diretivas, com dignidade e estrutura.”

O Festival Latinidades, ao completar sua maioridade, reafirma não apenas a arte e a cultura, mas o compromisso da comunidade negra com a luta, a memória e a transformação social. Em Brasília, a música, a palavra e a força das mulheres negras moveram o mundo — e seguem movendo.

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