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Rei das trilhas de novela, Guilherme Arantes lança disco contra a ‘tiktokização’

"Interdimensional" abre festejos de 50 anos de carreira

Guilherme Arantes (Leo Aversa)

Guilherme Arantes (Leo Aversa)

Aos 72 anos, Guilherme Arantes segue como um dos gênios da composição brasileira e um dos grandes hitmakers do país. Em 2026, comemora-se meio século desde o lançamento de seu primeiro disco, “Guilherme Arantes” (Som Livre, 1976), que já trazia o hit “Meu Mundo e Nada Mais”, um hino adolescente que ele escrevera aos 16 anos, cujo conteúdo poderia servir de trilha introspectiva para teens de qualquer geração.

Respeitado pelos nerds da música (nerd com todo respeito — me enquadro aí, inclusive), onipresente no inconsciente coletivo de boomers, geração X e millennials, Guilherme coleciona inúmeras canções que se tornaram trilhas sonoras de novelas e sucessos radiofônicos. De “Meu Mundo e Nada Mais” a “Planeta Água”, passando por “Linda Balão Azul” e “Cheia de Charme”, sua música possui a rara combinação de sofisticação harmônica e pop acessível, garantindo a ele um lugar especial — e quase único — na música nacional.

O cantor e pianista não lançava trabalho novo desde “A Desordem dos Templários” (2021). No entanto, nesta quinta-feira (15), Guilherme Arantes colocou no mundo o álbum “Interdimensional”. O disco marca as comemorações dos 50 anos de carreira solo do artista e chega às plataformas digitais, além de edições físicas em CD e vinil duplo. O trabalho é composto por 15 faixas, mesclando canções inéditas com versões autorais de temas originalmente escritos para nomes como Gal Costa, Alaíde Costa, Boca Livre e Claudette Soares.

“Interdimensional” surgiu de um movimento de busca pelo ponto de vista do outro, um mecanismo que gerou grande parte dos caminhos estéticos do novo repertório. A faixa “Puro Sangue (Libelo do Perdão)”, por exemplo, foi escrita para Gal Costa, que sempre repetia: “Guilherme é um gênio. Ele faz uma música sofisticadíssima, mas que é tão bem acabada que parece simples, toca no rádio, entra na vida das pessoas”.

O álbum retoma o compositor que combina Chopin e rock progressivo, Tom Jobim e Clube da Esquina, em confluências únicas sob sua curadoria. Uma das premissas foi preservar a longa duração natural das faixas, libertando-se das amarras do algoritmo. O disco foi produzido por Guilherme em seu novo estúdio, em Ávila, na Espanha, e conta com participações de nomes como Luiz Sérgio Carlini, Teco Cardoso e Mônica Salmaso, além de arranjos de cordas de Jacques Morelenbaum.

“Queria ser uma espécie de Roberto Carlos”

Na última segunda (12), Guilherme Arantes visitou a Billboard Brasil, onde gravou uma entrevista que fluiu com a mesma liberdade e curiosidade que caracterizam seu novo trabalho. Da influência dos sintetizadores às reflexões sobre física quântica, das histórias sobre novelas e programas de auditório aos processos criativos, o compositor mostrou-se um apaixonado pelo ofício e pela vida. “A gente está aí para geralmente propor alguma coisa diferente”, afirmou.

Guilherme Arantes dá uma palhinha no piano da Billboard Brasil (Claudia Assef)
Guilherme Arantes dá uma palhinha no piano da Billboard Brasil (Claudia Assef)

Leia entrevista com Guilherme Arantes

 

Billboard Brasil — Suas influências musicais são muito diversas. Como tudo começou?

Guilherme Arantes — Fui criado por um pai audiófilo do tempo da bossa nova. Então, tive uma forte influência de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e desse surgimento dos anos 1950. A bossa nova era sofisticada, mas simples o suficiente para ser pop. Tom era um minimalista, assim como Marcos Valle, que também faz parte da minha história. Eles me ensinaram o caminho do pop de qualidade. Depois, os Beatles me pegaram em cheio. Acompanhei a implantação da TV no Brasil, quando a música era central: “O Fino da Bossa”, os festivais, a Jovem Guarda. Minha infância foi mergulhada nisso.

Você começou com sua banda, Moto Perpétuo. Como foi a transição para a sua carreira solo?

Guilherme — Nos anos 1970, eu estava na faculdade de arquitetura, mas queria música. Minhas influências eram Ivan Lins, Taiguara, o pessoal do piano brasileiro. Ao mesmo tempo, fui apaixonado por Giorgio Moroder e Vangelis. Foi a época em que comprei meu primeiro sintetizador, um Minimoog, na mesma leva que Rita Lee trouxe o dela de Londres. O rock progressivo me marcava muito — Emerson, Lake & Palmer, Yes, Genesis. Mas, ao montar a banda Moto Perpétuo e tocar em festivais, percebi uma coisa: o progressivo era aristocrático, não estava na TV, era muito esnobe. Meus ídolos, Gil, Caetano, Chico, Roberto Carlos e os Mutantes eram televisivos. Pensei: “Cadê o progressivo na televisão?”. Aí decidi que queria fazer uma música que fosse um híbrido da sofisticação progressiva com o pop que chegasse ao povo, como a Jovem Guarda fazia. Queria ser uma espécie de Roberto Carlos, no sentido do crossover social.

E como surgiu a entrada nas trilhas de novela?

Guilherme — Fui procurar a Som Livre. Eles me acharam parecido com Elton John, que era um fenômeno mundial na época. Eu já tinha “Meu Mundo e Nada Mais”, que fiz aos 16 anos. A música era angustiada, de um jovem sozinho, e o povão se identificou. Foi uma bênção. Consegui uma credencial para entrar nos estúdios da Globo, conheci atores como José Wilker, diretores, e fui me entrosando. Algumas músicas foram encomendadas, como “Linda Balão Azul” e “Brincar de Viver”, mas a maioria foi aproveitada. “Deixa Chover”, por exemplo, foi escolhida por Gilberto Braga para uma novela da Sônia Braga. As novelas tinham audiências monstruosas, chegavam a 90%. Isso foi essencial para a minha carreira.

 Você sempre manteve uma relação intensa com os sintetizadores. Como é essa paixão?

Guilherme — É uma paixão de vida. Meu primeiro polifônico foi um Octave Plateau, uma raridade. Depois veio a era do DX7, D-50, dos samplers. Muitos se perderam, mas guardo minha LinnDrum, que usei em hits dos anos 1980. Hoje, tenho máquinas como Waldorf Iridium, Access Virus, Prophet e Moog Subsequent. Recentemente, consegui uma raridade, o Vermona Mono, lançado em poucas unidades. Adoro explorar texturas. No clipe de “Intergaláctica Missão”, estou em uma nave cheia deles. É uma delícia.

 O novo álbum tem faixas longas, fugindo dos padrões atuais. Por quê?

Guilherme — Uma das premissas era não obedecer a algoritmos. Não vale mais fazer esse sacrifício. Minhas músicas sempre foram longas e tocaram no rádio: “Planeta Água” tem mais de cinco minutos, “Um Dia, Um Adeus” tem quatro. Se já é difícil emplacar, vamos ocupar o espaço de maneira predatória. O disco reflete isso: deixei fluir, sem pressa. Morando em Ávila, na Espanha, eu compunha ao piano durante os longos pores do sol. A música que fecha o disco é uma versão instrumental, cinematográfica, para ser ouvida com tempo.

O título “Interdimensional” e algumas letras trazem reflexões cósmicas, até da física quântica. De onde vem isso?

Guilherme — Estou muito envolvido com as descobertas do universo. Os telescópios nos mostram que somos imateriais, feitos de energia e campos magnéticos. A ciência hoje se aproxima da religião. A física quântica fala do entrelaçamento: o que você faz em uma partícula acontece em outra, independentemente da distância. Talvez o amor seja essa tecnologia interdimensional que civilizações avançadas já dominem. Jesus, para mim, é uma figura interdimensional. A música “Intergaláctica Missão” é um diálogo com essa instância. É um papo meio Raul Seixas, mas sem o componente químico. Raul é um portal para algo muito estranho e fascinante.

 E como você vê o uso das redes sociais hoje?

Guilherme — Sou limitado a um escopo de “papo cabeça”. Uso o Facebook como um instrumento para escrever um livro em público. Armazeno tudo em um blog. Viro meio cronista. Isso vai na contramão da fragmentação das redes, porque sou prolixo. Para desenvolver uma ideia, preciso de espaço. Muita gente diz: “Não li porque é muito grande”. Mas adoro o textão. É um uso peculiar.

 O que significa, para você, amadurecer na música?

Guilherme — É permanecer apaixonado. A paixão é o principal. Ver gente como Vince Clarke ou Trevor Horn, que são malucos por sons, me inspira. E entender que a música pode nos deslocar para uma dimensão atemporal. Como os Beatles faziam, como o Coldplay faz. São músicas que nos tiram da realidade cotidiana. E talvez sejam justamente essas as canções de que a gente precisa agora: não apenas para esta dimensão, mas para uma vida paralela, mais generosa com os sons e as palavras.

Assista ao vídeo com a entrevista com Guilherme Arantes

+Leia mais – Guilherme Arantes comenta novo disco ‘Interdimensional’ faixa a faixa

Veja agenda da Turnê “50 Anos-Luz”, de Guilherme Arantes

Ingressos: www.50anosluz.com

07/03/26 – São Paulo (SP) – Espaço Unimed
14/03/26 – Rio de Janeiro (RJ) – Vivo Rio
21/03/26 – Curitiba (PR) – Teatro Positivo
11/04/26 – Recife (PE) – Teatro Guararapes
18/04/26 – Belo Horizonte (MG) – Minascentro
25/04/26 – Porto Alegre (RS) – Araújo Vianna
09/05/26 – Ribeirão Preto (SP) – Multiplan Hall
15/05/26 – Belém (PA) – Assembleia Paraense
16/05/26 – Manaus (AM) – Studio 5
22/05/26 – Vitória (ES) – Espaço Patrick Ribeiro
23/05/26 – Brasília (DF) – Centro de Convenções Ulysses Guimarães
30/05/26 – Santos (SP) – Convention Center

Ouça “Interdimensional”