
O grupo paulistano Angra (Marcos Hermes/Divulgação)
Uma grande família chamada Angra
Uma das características do southern rock –uma vertente do gênero americano marcada pela presença acentuada do blues, do soul e da música country, além de longuíssimas improvisações– é de que ele se assemelha mais a um churrasco entre amigos do que uma reunião de músicos e cantores. Basicamente, seriam pessoas que se reúnem num churrasco para comer, beber e “fazer um som” –o que resulta em canções um tanto celebrativas.
O quinteto paulistano Angra pode não trazer o espírito do southern rock em sua essência, mas foi imbuído dessa aura de celebração que reuniu, em fevereiro passado, um punhado de jornalistas e amigos para um churrasco em Aldeia da Serra, bairro nobre da região de Barueri, a 40 km de distância de São Paulo. Ali, em meio a nacos de carne, bebidas variadas e ótimos acompanhamentos (o que era aquela farofa, meu Deus!), o conjunto agrupou praticamente todos os integrantes que fizeram parte da sua história nos últimos 26 anos.
Os únicos ausentes foram dois bateristas: Aquiles Priester, que integrou o combo de 2001 a 2008, e Bruno Valverde, titular do posto desde 2014. Ambos tinham compromissos no exterior que não podiam ser adiados (por outro lado, teve gente que veio da Finlândia e da Espanha só para a comilança paulista, que a tornou a experiência mais cara desde aquela carne preparada por grãos de ouro e servido aos jogadores da seleção).
Um dos motivos do ajuntamento foi celebrar o clima de paz entre seus integrantes, que nos momentos de crise se assemelham ao Cupê Mal Assombrado, do desenho “A Corrida Maluca”. (Não conhece? Pergunte aos seus avós; mas era um carro dirigido por monstros que era seguido por uma nuvem plúmbea a soltar raios e trovoadas sobre seus ocupantes). Outro foi celebrar o mais recente feito do quinteto: serão os headliners do Bangers Open Air, um dos maiores festivais dedicados às diversas modalidades do rock pesado, que acontece nos dias 25 e 26 de abril do Memorial da América Latina, em São Paulo. Será a primeira vez que uma banda nacional encerra um evento dessa majestade, o que vai demandar uma performance além do trivial.
A apresentação será dividida em três partes. Na primeira, eles mostram o repertório composto e gravado com o vocalista italiano Fabio Lione (“Secret Garden”, “Omni” e “Cycles of Pain”, lançados respectivamente em 2014, 2018 e 2023). Depois, entram em cena o vocalista Edu Falaschi e o baterista Aquiles Priester, que ao lado do baixista Felipe Andreoli passaram a integrar o grupo a partir de “Rebirth”, de 2001. A última parte traz Alírio Netto, que faz a sua estreia no posto de cantor do Angra e interpreta músicas da fase inicial do conjunto. Tudo, claro, com a participação imprescindível de Kiko Loureiro –que saiu em 2015 para integrar o Megadeth e hoje segue em carreira solo–, seu substituto, o guitarrista Marcelo Barbosa, e o baterista Bruno Valverde.

O principal feito daquele churrasco, contudo, foi estreitar a distância que muitas vezes separa o rockstar de um sujeito comum. Despidos da pompa que antecede um evento importante, alguns integrantes do Angra se deram ao direito de retomar sua origem, de fãs de rock que um dia criaram uma banda.
Kiko Loureiro, por exemplo, lembrou dos perrengues que passou para assistir aos shows de suas bandas preferidas ou, pelo menos, as únicas disponíveis na longínqua e inóspita década de 1980. Made in Brazil no ginásio do Palmeiras ou em locais como Fofinho e Black Jack, que hoje não existem mais.
Fabio Lione, por sua vez, recordou emocionado do seu encontro com Geoff Tate, ex-vocalista do Queensryche e principal referência dos canários que unem o canto lírico ao pesado (de novo, perguntem aos seus avós: enviarão, emocionados, o link de “Operation Mindcrime”, álbum de 1988 do combo americano).
Rafael Bittencourt, mais filosófico, discorreu sobre as pessoas más que habitam a internet e as disputas entre os fãs de Angra sobre qual seria a fase mais gloriosa da banda.
“São três grupos diferentes e cada um desses admiradores gosta de uma fase em particular”, comentou Bittencourt.
Mas o mais importante é que o Angra é, antes de tudo, uma reunião de fãs de rock que decidiram montar uma banda.
E que banda… Em mais de três décadas de atividade, eles venderam algo em torno de cinco milhões de álbuns –número significativo para o mercado de heavy metal e ainda mais significativo em tempos de streaming– e possuem público cativo no Japão, na França, Grécia e Espanha. Musicalmente, são referência no que se chamou de power metal (também conhecido como metal melódico ou espadinha por seus detratores), que une o peso do gênero a referência de ópera e música erudita e cujas letras trazem temas inspirados em fatos históricos –as Cruzadas, por exemplo, que inspiraram a criação do disco “Temple of Shadows”, de 2004– ou mitologia, em especial a nórdica e a germânica.
O grupo nasce principalmente do sonho do guitarrista Rafael Bittencourt e de Andre Matos (1971-2019), ex-vocalista do quinteto paulistano de power metal Viper. Estudantes de regência e composição da Faculdade Santa Marcelina, também de São Paulo, eles se uniram então ao também guitarrista André Linhares para criar uma banda.
“Eu gostava muito de Halloween [banda alemã de power metal]. Minha ideia era fazer uma coisa que fosse única e original, que não fosse inspirada diretamente no som deles”, diz Rafael Bittencourt à Billboard Brasil.
A mistura de gêneros, nesse caso, foi essencial. “Sempre imaginei que a banda tem de ser um caldeirão de todas as suas referências. Como o Queen foi na sua época, sabe?”, concluiu. Rafael continua. “O André [Matos] tinha muito disso: colocar um pouquinho de cada coisa. A gente quis fazer uso do metal progressivo pesado do Queensryche, com os refrãos fortes do Rainbow [grupo liderado pelo ex-guitarrista do Deep Purple Ritchie Blackmore, que nos anos 1980 adotou uma sonoridade ao gosto das rádios FM americanas]. Mas, ao mesmo tempo, pensou nas flautas e violão de um Tom Jobim”, explica.

A formação do Angra se estabilizou com Matos, Bittencourt, o também guitarrista Kiko Loureiro, o baixista Luis Mariutti e o baterista Marco Antunes. O grupo então assinou um contrato com a gravadora japonesa JVC e partiu para a Alemanha (mais especificamente Hamburgo e Hannover) a fim de gravar seu disco de estreia, “Angels Cry”.
A primeira baixa aconteceu justamente nesse período: Antunes saiu do grupo porque, segundo os produtores do trabalho, não conseguiu emular a sonoridade rápida necessária para o estilo. Coube a Alex Holzwarth assumir a posição – de volta ao Brasil, o Angra escolheu Ricardo Confessori.
Lançado no final de 1993, “Angel’s Cry” tem participação de Kai Hansen, do Helloween, o álbum traz um dos primeiros grandes hits do Angra – a acelerada e melodiosa “Carry On”. Os trabalhos posteriores, “Holy Land”, de 1996, e “Fireworks”, de 1998, ajudaram a consolidar o quinteto na seara nacional e internacional. O videoclipe de “Make Believe”, por exemplo, foi um dos finalistas do Video Music Brasil, maior premiação da produção nacional de videoclipes promovida pela MTV Brasil.
Durante uma apresentação do Angra em Paris, nada menos que Bruce Dickinson, do Iron Maiden, dá uma palinha no concerto dos brasileiros. O cantor teria pilotado seu jato da Inglaterra para a França apenas para fazer essa performance ao lado do Angra.

A primeira cisão na carreira do grupo aconteceu em agosto de 2000. Andre Matos, Luis Mariutti e Ricardo Confessori, descontentes com o empresariamento do Angra, saem em caráter irrevogável e criam o Shaman.
“Quando isso aconteceu, eu pensei em parar com o Angra. Fazer uma carreira solo, montar outra banda, essas coisas”, confessa Bittencourt. “Mas sou um cara de desafios. Não gosto do caminho mais fácil ou opto pela solução que o algoritmo aponta”, conclui.
O substituto de Andre foi Edu Falaschi, vocalista do Symbols, que já tinha sido cotado anteriormente para o posto. “Eu cheguei a passar num teste para substituir o Andre, num período em que ele se desentendeu com os outros integrantes do Angra”, confessa Falaschi. “Mas aí ele voltou ao grupo e não consegui esconder a minha decepção. Tanto que eu fiquei meio sem ação quando o Kiko Loureiro disse que eu finalmente estava no Angra.” (Uma curiosidade: Fabio Lione, então vocalista do Rhapsody of Fire, chegou a ser considerado antes de Edu. Mas ele, polidamente, recusou.)
O gaúcho Aquiles Priester preencheu a vaga da bateria e acabou por sugerir Felipe Andreoli no baixo –os dois eram da banda brasileira de apoio de Paul Di’Anno, ex-cantor do Iron Maiden. “Lembro de ter levado minha bateria com dois bumbos para o estúdio do Kiko Loureiro e ele ter dito: ‘Pô, mas se você não entrar?’ Aí eu falei: ‘Prefiro correr o risco porque, se eu tocar, eu vou ficar. Testa quem você quiser, mas não decida quem vai ser o teu baterista antes de você me ver tocando’”, jacta-se Aquiles, que pegou a posição. Felipe Andreoli foi indicado pelo baterista e também por diversos outros músicos da cena. “Eu acabei ganhando o posto depois de uma jam no estúdio do Kiko”, diz Andreoli.
Batizada como “Nova Era”, a segunda formação do Angra lançou discos elogiados como “Rebirth”, de 2001, e “Temple of Shadows”, de 2004, e encontrou um terreno fértil para o metal melódico. “Bandas como Nightwish e Evanescence ajudaram a popularizar o gênero, bem como a MTV, que passava bastante clipes de metal”, diz Rafael Bittencourt.
O fato dos três dissidentes terem criado o Shaman, uma espécie de “rival” do Angra, também ajudou. “Criou-se uma competição saudável porque as entrevistas do Shaman inevitavelmente falavam também de Angra. Criou-se um ‘Angraverso’ ou ‘Angra World’”, diz Rafael.
O quinteto, no entanto, enfrentou alguns problemas internos. Aquiles foi despedido em 2008 numa votação da banda. “Cheguei a uma reunião que a gente tinha agendado como baterista do Angra e saí dela como dono do meu grupo, o Hangar”, lamenta o músico. “A banda corria o risco de parar caso a gente não tomasse uma decisão”, diz Andreoli. Ricardo Confessori, então saído do Shaman, assumiu novamente as baquetas.

Em 2011, o vocalista Edu Falaschi foi defenestrado do conjunto após uma desastrosa apresentação do grupo no Rock in Rio –tempos depois, soube-se que seus problemas vocais eram causados por refluxo. Em ambos os casos, mesmo sabendo que a saída da dupla era inevitável, Bittencourt atuou como um conciliador.
“Venho de uma família de desembargadores e juízes, estou acostumado com a coisa. Tanto que o sobrenome do meu pai é Prudente. O lance da prudência, o lance de pensar antes de falar, é muito valorizado. E a banda tem esse lado romântico”, conclui.

O italiano Fabio Lione assumiu o posto de Edu Falaschi e levou a banda para um outro patamar. Em 2014, Bruno Valverde entrou no lugar de Confessori. Kiko Loureiro, por seu turno, entrou para o Megadeth, principal referência do thrash americano e cedeu o posto para Marcelo Barbosa. Os anos seguintes foram marcados por grandes discos e algumas farpas na imprensa, onde a bílis falou mais alto do que o cérebro.

Coube inicialmente a Andreoli a missão de reaproximar Falaschi e Priester ao núcleo do Angra. “Eu já tinha entrado em contato com o Edu por causa de questões burocráticas dos discos dos quais ele participou”, conta o baixista. Mas a situação com o Aquiles exigiu um pouco mais de tato. “Um dia, perguntei se poderia conversar com ele. Passamos duas horas no telefone, onde muita coisa foi dita”, complementa o baixista.
O ponto de partida para a reunião do Angra surgiu em 2025, pouco tempo após a terceira edição do Bangers Open Air. Márcio Sizanto, um dos acionistas do festival, viu uma foto de Falaschi, Priester e Andreoli juntos e sonhou com um retorno triunfal da chamada “Nova Era”. Inicialmente, a ideia era que somente aquela formação participasse do evento. Mas foi então que Damaris Hoffman, vice-presidente de operações do festival, e Paulo Baron, empresário do Angra, tiveram a ideia de fazer um show que honrasse as três formações do quinteto paulistano.
Nesse ínterim, o grupo sofreu um baque com a saída de Fabio Lione. Ele não concordou com o hiato que o Angra faria e decidiu partir para novos projetos. Em seu lugar, entrou Alírio Netto, vocalista do Queen Extravaganza, grupo tributo ao quarteto inglês, e que recentemente participou do Shaman. “Eu chorei quando o Baron me convidou”, emociona-se Alírio. Ele fará sua estreia no Bangers, mas é amigo de longa data do conjunto. Por exemplo, integrou, ao lado de Barbosa, o grupo de metal progressivo Khallice e cantou nos projetos solos de Kiko Loureiro.
O novo Angra tem pelo menos dois projetos além da participação histórica do Bangers. Eles farão um show extra com o repertório de “Rebirth” no Espaço Unimed, em São Paulo, e irão celebrar o aniversário de “Holy Land” em setembro no L’Olympia de Paris. “Iremos tocar num local que os Rolling Stones já estiveram”, comemora Andreoli.
A apresentação do Bangers, na visão deste escriba, dá um ponto final digno na contribuição de Edu Falaschi e Aquiles Priester, bem como uma despedida merecida de Fabio Lione –aliás, “Cycles of Pain”, de 2023, é um dos melhores trabalhos da discografia e contou com muitas ideias de Lione. E como está a emoção do vocalista? “Sinceramente, não sei exatamente o que responder nisso porque nunca você vai ter realmente a sensação 100% de quando você vai ficar lá no palco. Mas com certeza será um show legal”, diz o italiano.

Há trabalhos futuros depois disso? Os “Angras” dizem que esperam pelos próximos resultados no palco ao passo que Netto sonha com um disco que traga sua voz. Mas nunca duvide da capacidade de regeneração desses músicos: o Angra é uma fênix do metal. Mas, aproveitando… Quando será o próximo churrasco?
*com reportagem de Noel Bielecki
