Entenda como Rio e SP transformaram o Carnaval

Destaque da Acadêmicos do Tucuruvi no Carnaval de São Paulo, em 2025 (Grosby)
O Carnaval brasileiro vive uma fase de expansão e reposicionamento na indústria do entretenimento. Rio de Janeiro e São Paulo, cada um à sua maneira, consolidaram modelos que unem cultura popular, mercado musical, turismo e economia criativa. Mais do que festas, seus carnavais se tornaram plataformas de lançamento artístico e termômetros da vitalidade do samba.
São Paulo transformou o Carnaval em uma engrenagem cultural que pulsa tanto na espontaneidade das ruas quanto na grandiosidade do Sambódromo do Anhembi. O Carnaval de Rua paulistano virou fenômeno de massa. Milhões ocupam avenidas e bairros ao som de blocos que transitam entre samba, pagode, axé e fusões com pop. É um Carnaval conectado às redes sociais e à lógica dos festivais: participações surpresa, repertórios híbridos e forte apelo digital.
Blocos jovens ajudam a renovar a cena
Vou dar dois exemplos: na Penha, o Bloco Cacique Social Clube une festa e impacto social. De cunho beneficente, mistura partido alto e sambas-enredo, refletindo a vivência de seus integrantes — muitos compositores atuantes em São Paulo e no Rio. A proposta aproxima o folião da essência criativa do samba-enredo.
O Quintal dos Prettos, ao estrear no circuito do Ibirapuera, simboliza o diálogo entre samba de raiz e novas gerações.
No Anhembi, o espetáculo é narrativa musical. O samba-enredo segue como uma das construções mais sofisticadas da canção popular brasileira. O desafio está na renovação de componentes. Desfilar exige compromisso anual, disciplina e vínculo comunitário — algo que disputa espaço com a lógica imediatista do entretenimento, regida pelos algoritmos.
Exemplos de escolas de São Paulo que estão renovando a tradição: Mocidade Unida da Mooca, que chega pela primeira vez ao Grupo Especial como símbolo de ascensão comunitária. A Dragões da Real se mantém entre as favoritas, acumulando desempenhos de alto nível e batendo na trave do título. Império de Casa Verde e Mancha Verde investem em comunicação digital e formação de base para atrair jovens.
Por isso, a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Liga-SP) vem ampliando sua atuação ao longo do ano com ações voltadas para desenvolver e valorizar sambistas mirins, fortalecendo a transmissão cultural do samba desde a infância. Uma das iniciativas de maior destaque é o “Liga do Amanhã”, também chamado de Desfile das Crianças — um evento criado especialmente para que crianças de 5 a 14 anos tenham uma experiência real de carnaval no Sambódromo do Anhembi.
Se São Paulo cresce em diversidade, o Rio amplia sua escala histórica. Para 2026, o Carnaval carioca projeta alta de 17% nos blocos de rua, ultrapassando 800 agremiações. A expectativa é superar 8 milhões de foliões e movimentar cerca de R$ 5,5 bilhões na economia.
Na Sapucaí, o investimento também cresce: R$ 40 milhões do governo estadual às escolas do Grupo Especial, com aporte total estimado em R$ 78 milhões. O calendário foi ampliado e o quesito Evolução ganhou critérios mais rigorosos.
A grande virada simbólica está na Beija-Flor de Nilópolis. Após 50 anos, Neguinho da Beija-Flor se despede em 2025. Sua sucessão veio de um reality show, “A Voz do Carnaval”. O resultado: Nino do Milênio, já experiente no carro de som, e Jéssica Martin, que se torna a primeira mulher intérprete oficial da escola e uma das raras vozes femininas titulares no Grupo Especial.
A troca marca renovação artística e representativa. Nos bastidores, outras escolas também reformulam equipes, sinalizando um novo ciclo.
Duas potências, dois modelos
O Rio opera em escala global, com tradição midiática e forte investimento. São Paulo avança como polo de produção cultural urbana e laboratório musical. Um aposta na monumentalidade histórica; o outro, na diversidade e expansão territorial. Ambos, porém, enfrentam o mesmo ponto sensível: a renovação geracional do samba.
E o amanhã do Carnaval — quem decide?
Se o espetáculo ficar maior que a cultura, o que sobra do samba? Quando o folião vira apenas consumidor de evento, quem sustenta a tradição no resto do ano? As escolas formarão novos sambistas ou dependerão de profissionais contratados? O Carnaval será território de comunidade ou produto moldado por marcas e algoritmos? O samba-enredo sobreviverá como linguagem artística ou virará trilha de consumo rápido? E quando os mestres se despedirem — quem estará pronto para assumir o bastão?
O futuro do Carnaval não está garantido por recordes de público nem por cifras milionárias. Ele depende de pertencimento, formação e continuidade.
A provocação final é simples: o público quer apenas assistir ao Carnaval — ou fazer parte dele?
Porque, no fim, o destino do samba sempre esteve menos nas arquibancadas e mais nas mãos de quem decide mantê-lo vivo o ano inteiro.
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Patricia Liberato é radialista, apresentadora, jornalista e mestre de cerimônias. Trabalhou nas rádios transcontinental FM ( SP), Band FM, Rádio Disney e criou a RÁDIO Liberato
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