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Ele voa, rege de cabeça para baixo… Conheça Maestro Forró, o rebelde do frevo

O regente comanda a sensacional Orquestra Popular da Bomba do Hemetério

Maestro Forro e a Orquestra Popular da Bomba do Hemeterio Marilia Fraga Divulgacao

Maestro Forró e a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (Marília Fraga/ Divulgação)

As orquestras de frevo fazem parte da tradição da música pernambucana. Criadas no início do século XX e com raízes nas bandas de fanfarra européias e big bands americanas (ainda que tenham surgido no mesmo período), elas são formadas por instrumentos de sopro –madeiras e metais, principalmente–, ao lado de caixas e bumbo.

Presentes principalmente no Carnaval, as orquestras de frevo, nas últimas duas décadas, passam por transformações. A Spok Frevo Orquestra, por exemplo, é calcada no jazz; a Transversal Frevo Orquestra, de César Michiles, dá o protagonismo à flauta (que normalmente era relegada ao segundo plano). A Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, por seu turno, traz uma combinação de frevo e qualquer ritmo que surgir à sua frente e tem como líder Maestro Forró, um sujeito que deu um novo sentido ao adjetivo “performático”. 

Forró é uma criação de Francisco Amâncio da Silva, um pernambucano de 51 anos, que criou esse personagem com a ideia de popularizar ainda mais o frevo. “Ele é querido pelas crianças, por exemplo”, disse a este repórter anos atrás. Forró faz de tudo: já regeu de cabeça para baixo, chegou “voando” para receber uma premiação e tem como atrativo o figurino colorido estiloso. Mas não pense que se trata apenas de pose: A Orquestra Popular da Bomba do Hemetério é uma paulada sonora, que vai do frevo à música pop, do jazz às criações de matiz africana e muito mais. 

Às vésperas de mais um Carnaval, Francisco, ou melhor Forró (ou Francisco com vislumbres de Forró) falaram à Billboard Brasil sobre o que estão aprontando este ano.

 

Recife é celebrada por fazer o melhor carnaval de rua do país. O que a cidade, na tua opinião, tem de tão especial que a diferencia de outras regiões?

Entre os vários aspectos, uma das características muito importantes é a diversidade. Eu sempre digo que o Carnaval é uma série de diversidades que se transformam em uma grande e forte unidade. Você já viu o Galo da Madrugada de longe ao sol do meio dia? Dependendo da sua posição em relação ao público, de longe parece que está tudo em uma só unidade. Mas quando você vai se aproximando, vai percebendo que há bêbados, sóbrios, brancos, negros… vários tipos de fantasias. E os sons que rolam nos trios são muito diversificados! Vários estilos de frevos, músicas carnavalescas tradicionais e também várias releituras.

A Orquestra Popular da Bomba do Hemetério traz em seu DNA a musicalidade dos grandes combos de frevo. Mas se estende para outros gêneros, se transformando até num conjunto pop. Como se dá essa mistura?

Bem, eu nasci na comunidade mais rica e diversa em cultura popular do Recife, na Bomba do Hemetério, que fica mais precisamente na zona norte da cidade. E dentro das quatro paredes da minha residência, convivia o tempo todo com os saberes do meu pai Zé Amâncio do Coco, que juntamente com a minha mãe, a professora primária e cantora super afinada Maria da Penha que vieram da zona da mata, no norte de Pernambuco, para a comunidade da Bomba do Hemetério.

Aos 5 anos, eu já brincava com instrumentos como zabumba, sanfona, triângulo e outros instrumentos. Meu irmão mais velho se interessou pela música erudita e virou pianista e regente de Corais. Então, aos 12 anos comecei a estudar a linguagem da academia musical. Mais tarde, comecei a me inquietar e pensar em eruditizar o popular e popularizar o erudito, de modo que pudesse dialogar, mixar, interagir, fundir qualquer estilo musical que eu curtisse para fazer uma liquidificação. Nesse período, comecei a trabalhar como arranjador, diretor musical e trompetista em grupos como: Maracatu Nação Pernambuco, DJ Dolores e Aparelhagem e outros, onde fiz várias turnês nacionais e internacionais, somando mais de 30 países. Onde pude vivenciar nos dias livres, experiências e interações com vários estilos musicais por onde passei e comecei a perceber as fortes similaridades dos variados tipos de músicas praticadas em diversos países com a nossa música brasileira, sobretudo com a nordestina. Então, a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério foi criada por mim em 2002, para pesquisar, manter vivas nossas tradições e principalmente mixar, liquidificar, interagir nossas linguagens com o maior número possível de linguagens de outros países. Gerando assim, sons muito velhos e muito novos ao mesmo tempo.

Em janeiro vocês lançaram o EP “Maestro Forró sem Conserto”, que traz as canções “Assanhadinho” e “Suíte Alegria”. Poderia falar melhor sobre as composições?

Na verdade, “Assanhadinho” e “Suíte Alegria” são dois frevos instrumentais que farão parte do álbum “Maestro Forró sem Conserto” que será lançado no segundo semestre de 2026. “Assanhadinho” foi composta literalmente correndo. Fui correr uma maratona (42km e 195 metros), na região serrana do Rio de Janeiro, largando de Visconde de Mauá com chegada em Penedo. Detalhe: são mil e trezentos metros de altitude. Ao chegar no quilômetro 30, senti o peso que a maioria dos maratonistas sentem ao chegar no quilômetro 30. E para entreter a mente, e esquecer o cansaço, comecei a praticar exercícios de respiração aliada ao ritimo e para manter a mente no “agora” comecei a compor melodias e assim consegui completar a prova com louvor. Chegando no hotel, saquei o laptop e comecei a escrever no “finale” a obra e assim nasceu “Assanhadinho”. 

Já “Suíte Alegria”, é a cara da espontaneidade do Maestro Forró & OPBH. Uma suíte composta por pedaços da música “Canhão 75” e “Sinal Vermelho” obras de domínio público. Juntas em uma pulsação que proporciona uma belíssima trilha sonora para que o Maestro e sua OPBH possam colocar em prática um conjunto de inovações implementadas no cenário das orquestras brasileiras. Tocando, dançando e atuando às vezes misturando música, teatro e dança. Inclusive, há vários artistas, seja de palco ou das ruas, replicando também essas práticas em seus trabalhos.

Você e a orquestra são responsáveis há anos pela festa de encerramento do Quintas do Galo, que praticamente inicia o Carnaval de Recife. Qual a importância de ser o arauto das festividades na cidade?

Falar do projeto Quinta no Galo é falar de emoção, de pertencimento e de tradição. Pra mim, é uma alegria imensa e uma honra enorme fazer parte desse momento que já virou ritual. Encerrar as quintas no Galo, nas prévias, é sentir a energia do povo crescendo, o frevo tomando conta das ruas e o Carnaval anunciando que tá logo ali. É ali que a gente aquece o coração, testa o fôlego, sente o sorriso de quem já chega dançando e de quem sai com ainda mais vontade de brincar. Cada quinta é um encontro, mas a última… Ah, a última tem um gosto especial. É a despedida das prévias e promessa de um sábado gigante, com o Galo ganhando as ruas do Recife. Já virou tradição, já virou história. E toda vez que subo ao palco para encerrar essa noite, faço com o mesmo sentimento: gratidão, responsabilidade e muito frevo no pé. A Quinta no Galo não é só um show– é um abraço coletivo anunciando que o maior Carnaval do mundo vai começar.

Você já regeu de cabeça para baixo, chegou “voando”… O que irá preparar para este ano?

Então, muitos dos acontecimentos “inusitados” promovidos pelo personagem Maestro Forró são frutos de “insights” chegados intuitivamente que de repente acontecem e dali em diante o Maestro vai inserindo e aprimorando técnica e artisticamente em suas apresentações. Mas para essa temporada carnavalesca, adianto alguns detalhes do nosso mosaico cultural neste 2026. No repertório, além de nossos hits que não podem faltar, como: “ Tô Doidão”, “Pra Tirar Coco”, “Luanda D’Agora” e outros, inserimos um medley em homenagem aos 60 anos de Chico Science. Os novos singles recém lançados nas plataformas digitais “Suíte Alegria” e “Assanhadinho” são releituras das músicas “Ciranda de Maluco” e “Balanceiro” em versões totalmente repaginadas. Inclusive neste Carnaval haverá encontros com artistas de várias gerações, entre eles: Otto, Larissa Lisboa e Juliana Linhares. Além de novos figurinos criados em parceria pela turma do curso de moda e design do Sesc e Senac pernambucanos com o conceito de sustentabilidade. E novo plano de luz criado pelo Lighting Designer Jathyles Miranda. E calçados exclusivamente criados para o Maestro Forró e OPBH pelo designer de calçados Jailson Marcos. E o que mais poderá surgir nessa temporada? Vamos aguardar os insights.