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Elas ainda estão na pista: DJs mulheres 45+ desafiam o etarismo

Billboard Brasil mostra como a cena da música eletrônica está mais inclusiva

DJs com mais de 45 anos arrasam nas pistas (Ilustração: Eduardo Pignata)

DJs com mais de 45 anos arrasam nas pistas (Ilustração: Eduardo Pignata)

Os ingressos para o Berghain, em Berlim, estavam esgotados — o que não é exatamente novidade. Mas o que acontecia ali era: a ítalo-estadunidense Suzanne Ciani, uma das pioneiras da música eletrônica, aos 78 anos, subia à cabine para comandar uma das pistas mais exigentes do mundo. Enquanto observava Ciani hipnotizar a multidão, uma questão vinha à mente: quantas décadas foram necessárias até que uma mulher como ela ocupasse esse lugar?

Na música eletrônica, a ideia de liberdade sempre foi um pilar. Mas, como aponta a DJ sul-africana Lakuti, 49, o simples fato de a idade ser questionada apenas para mulheres já revela onde essa liberdade encontra seus limites. O etarismo, somado ao sexismo, cria barreiras que muitas vezes empurram artistas para a margem — ainda que tenham ajudado a construir o próprio espaço.

E a constatação não é meramente empírica. Um estudo realizado em 2023 pela empresa de tecnologia musical A2D2 constatou que DJ mulheres trabalham quase o dobro de DJs homens, uma média de 23 gigs para elas e, em comparação, 13 para eles. Para quem acompanha as pistas, sabe que – em dois anos – pouco ou nada mudou.  

Mas nomes como a sul-africana Lakuti, a alemã Tama Sumo, 54, e as brasileiras Eli Iwasa, 49, Andrea Gram, 60 e House of Grace, 56, seguem na contramão das estatísticas. Nos fazem ter fé no futuro. 

A DJ Grace Kelly, que passou por um rebranding aos 56 anos e agora atende por House of Grace, é direta: “A idade não é uma barreira, porque ser mulher já é uma barreira maior. Quero que me enxerguem como sou agora. Quero ser a DJ vovó e tocar até os 70.” A house music virou sua base. “Gosto de fazer o público dançar.”

Andrea Gram, na cena desde os anos 1990, oferece uma perspectiva histórica. “Nos anos 1990, passávamos por mil perrengues. O status e respeito foram protagonistas, mas havia cancelamentos ao se falar sobre ‘gêneros’, fortalecendo a ideia de que o que importava era a música e, claro, subentendido quando comandada por uma mulher.” Seu projeto, House of Divas, nasceu dessa urgência: “Lutamos para que não seja sempre dez DJs homens e uma mulher abrindo só pra constar.”

Para Andrea, a resistência também se constrói na curiosidade e na adaptação às transformações culturais. “Cada década traz seu próprio movimento sociopolítico. Me inspiro muito nessa antropologia sócio-musical e transponho para meus sets e performances toda essa história.”

Mesmo que o discurso de diversidade tenha ganhado força, ainda é comum ver mulheres no line-up em posição simbólica: escaladas para abrir a pista, raramente nos horários de destaque. Para artistas mais velhas, os espaços se tornam ainda mais escassos. Embora o cenário independente proponha novos caminhos, no mainstream os critérios seguem guiados pela juventude, estética padronizada e presença digital.

Depois dos 40, a música eletrônica continua. E elas, as DJs, também! (Ilustração: Eduardo Pignata)
Depois dos 40, a música eletrônica continua. E elas, as DJs, também! (Ilustração: Eduardo Pignata)

Grace sintetiza essa nova exigência: “Hoje, estar ativa nas redes sociais é uma luta maior do que tocar.” A relevância, antes sustentada pela trajetória e técnica, passou a ser medida em engajamento e métricas de visibilidade — uma corrida que nem sempre favorece quem constrói consistência no tempo.

A velocidade também redefiniu a cena. Como observa Lakuti, os diálogos sobre propósito e sustentabilidade, que surgiram durante a pandemia, logo cederam lugar à pressa de recuperar espaços e lucros. “Parecia que havia uma corrida para compensar os anos parados”, diz ela. Em meio a essa aceleração, refletir sobre quem fica para trás tornou-se ainda mais urgente.

Eli Iwasa, que completa 25 anos de carreira aos 49 de vida, é exemplo de como atravessar esse cenário de forma consistente. “Mulheres têm que trabalhar mais para mostrar seu valor. A diferença de oportunidades e cachês ainda é gritante”, afirma. Ela volta a chamar atenção para um obstáculo que mencionamos acima: “Mulheres sofrem uma pressão estética gigantesca dentro do mercado, é ainda mais desafiador.”

Contudo, ainda é possível reconhecer mudanças:  “O que foi construído nos últimos dez anos na cena independente foi muito significativo para tornar a música eletrônica mais inclusiva e diversa”, aponta Eli. “Artistas pretos, periféricos, mulheres, pessoas trans ocupam espaços que antes eram inacessíveis. Mesmo que lentamente, é um caminho sem volta.”

Tama Sumo, DJ alemã, reforça a importância de uma visão intergeracional: “Os artistas mais interessantes são os que permanecem curiosos e autênticos. Artistas jovens trazem novas perspectivas, mas os mais experientes carregam um conhecimento que só o tempo constrói.” Para ela, a riqueza da cultura clubber depende justamente dessa troca entre gerações.

Lakuti observa ainda um fator determinante: “Enquanto as posições de poder – promotores, curadores, jornalistas — continuarem ocupadas majoritariamente por pessoas brancas, temo que as mudanças não aconteçam em larga escala”, alerta. 

Em uma indústria que celebra o frescor da novidade, essas mulheres transformam longevidade em revolução. Como diz Eli Iwasa: “Estou no melhor momento da minha carreira agora,  depois dos 40. O tempo só ajuda, você melhora e amadurece como artista.” Talvez seja justamente essa a ameaça que representam: provar que, ao contrário do que sugere o mercado, uma mulher não perde valor ao envelhecer — ganha profundidade, repertório, confiança. E por isso mesmo, continua movendo a pista quando muitos já esperavam seu silêncio”.