Ebony lança ‘KM2 (De Luxo)’ com sete faixas inéditas; ouça agora
Versão expandida do disco traz funk, MPB e rap

Ebony (Fernando Mendes)
Ebony lançou, nesta segunda-feira (6), a “KM2 (De Luxo)”, com sete novas faixas – incluindo as da primeira versão do disco e “Dona de Casa”, single divulgado previamente em dezembro do ano passado. O projeto mergulha fundo nas referências que fazem parte da trajetória da rapper. Musicalmente, segue a estética já apresentada pela artista desde o último trabalho, passando por gêneros como funk, bass, drum, MPB e rap.
A faixa que já indica as questões raciais que acompanham todo o trabalho da cantora, e que aparecem ainda mais latentes nesse novo projeto, é “Sangue Ruim”, que segue em rimas que não têm medo de tocar nas feridas mais profundas. “Eu sou Deus. Mas, se eu morro, ninguém sente minha falta”, continua a letra da abertura.
O impulso, segundo ela, veio como resultado do momento em que o mundo está passando, com casos de feminicídio, especialmente contra mulheres negras, atingindo números cada vez mais alarmantes. As palavras, então, aparecem como uma estratégia de guerra.
“Pensar sobre a mulheridade, sobre ser negra, sobre movimentar o mundo silenciosamente nas costas quando todo mundo pensa o pior de você é incrível! Porque eu sei que isso é combustível para todas nós. Acho que a sociedade não sabe o tamanho da capacidade que as pessoas excluídas têm para transformar isso em cura”, diz Ebony.
Depois de “Sangue ruim”, a segunda novidade aparece na faixa 4, depois das já conhecidas “KM2” e “Parte do Mundo”. É nesse momento que a figura de Soujourner Truth entra em cena para trazer a reflexão que a confrontou e mudou sua trajetória em 1851: “E eu não sou uma mulher?”. Sem música, apenas voz, Ebony usa o respiro entre a terceira música e a quinta — “Gin com Suco de Laranja”, talvez a mais romântica e sensual do álbum — para contar brevemente sobre a abolicionista e ativista que entrou para a história ao vencer uma ação judicial e recuperar o filho vendido ilegalmente.
A pesquisa e estudo de mulheres negras como ela sempre fizeram parte da trajetória de Ebony, especialmente pela busca de referências. Adotada por pais brancos, decidiu recorrer a figuras que gerassem identificação desde que a frase “Eu sou uma mulher negra” passou a fazer sentido em sua vida.
Na ativista que nomeia a quarta faixa, viu um espelho e o incentivo para reivindicar um lugar que até então lhe era negado: “Faço rap há 10 anos e, em vários momentos, senti que poderia ser qualquer coisa, menos a mulher inteligente que sou. Sojourner Truth pareceu estar questionando o óbvio para a época dela, e esse lugar de reivindicação me pega muito”, analisa.
Na sequência do álbum, antes de passar por “Hong He” e a esperada “Dona de Casa” — que aparece primeiro como rascunho no modo Rough para só depois ser apresentada na versão mixada —, “Rimo em qualquer batida” (faixa 6) vem de uma reflexão bem mais profunda do que os versos cantados junto a um coro de crianças deixam indicar. Ao se depararem com a rima em ritmo de canto militar, fãs mais atentos talvez identifiquem desde o primeiro play o que a cantora pretende com aqueles poucos segundos.

Essa é uma alegoria que eu tenho feito bastante no meu show e acho que ainda vou fazer muito ao longo da minha carreira. É sobre como acho o mundo militar, desses homens que se levam a sério, parecido com o mundo das crianças. Para mim, é sempre muito bobo. Gosto de pensar que, para ganhar do bicho papão, a gente tem que conseguir rir dele”, provoca.
Com “Dona de Casa” nas faixas 8 e 9, as novidades voltam a aparecer na 17 e 18 — com “Baddie Radio” e “Chefe”, respectivamente. Na primeira, Ebony ocupa a persona de uma locutora de rádio para preparar os ouvintes para a finalização de uma história que começou com os versos doloridos de “Sangue Ruim” e se conclui com o final feliz de quem chegou ao topo. “Você está ouvindo em tempo real a ascensão de uma jovem negra”, diz a locução antes de cortar rapidamente para uma notícia.
Quem ouviu KM2 e sua versão completa até aqui talvez se prepare para o anúncio de mais alguma tragédia com jovens negros na Baixada Fluminense, região do Rio de Janeiro de onde a artista vem. Mas, dessa vez, bem diferente do que acontecia quando alguma gravação de jornal aparecia entre as músicas, é a própria Ebony quem anuncia a sua vitória.
“Manifestantes estão ocupando as ruas em protesto: eles estão revoltados com a rapper Ebony que, quando perguntada como se percebia no mundo, respondeu: preta, foda, quente”, diz pouco antes de anunciar “Chefe”. Na última faixa do álbum, a letra é repleta de versos cheios de orgulho e autoestima. Versos de quem entendeu o próprio valor como mulher e como artista. “Eu me acho, me achei, ainda tô me achando. Eles não gostam porque ainda ‘tão se procurando”, canta.
Milena Pinto de Oliveira, a Ebony, se achou na poesia das palavras e nos palcos. Com “KM2 (De Luxo)”, o convite é para que se juntem a ela em uma jornada musical de imersão e representatividade. “Gostaria muito que as mulheres negras se vissem nisso — se não nas músicas, nos gestos e na minha vontade de deixar tudo impecável”.
Tão impecável quanto uma obra de arte, como a capa, feita pela artista plástica Hester Landim, retrata. Com uma paleta mais fria, verdes e tons claros, a releitura do projeto visual se propôs a criar um clima quase idealizado, mas com uma tensão silenciosa no ar.
“A obra constrói um cenário de harmonia, onde relações afetivas e um espaço religioso sugerem pertencimento e comunidade. No entanto, a presença isolada da ‘Ebony criança’ rompe essa ideia”, explica. Outro detalhe foi a tinta vermelha: na capa original, ela representa uma figura humana, enquanto, aqui, assume forma de pegadas. “Elas marcam um percurso que parece invisível aos outros. E a cor vermelha, a mais forte que a pintura tem, traz à tona questões de memória, dor e traumas”, conceitua.

Quem é Ebony?
Rapper e compositora, nascida e criada em Queimados, na Baixada Fluminense, Milena Pinto de Oliveira, conhecida como Ebony, iniciou a sua carreira musical aos 17 anos, com publicações de faixas autorais no SoundCloud. Um ano depois, aos 18, lançou oficialmente sua primeira música. Apaixonada por moda, entretenimento e música, aos 25 anos, se consolida no mercado como uma das principais vozes do rap feminino no Brasil, e é lembrada pelo público como uma figura marcante no cenário social e político brasileiro.
Com letras no topo dos charts do Spotify e presença nos maiores palcos do país, o reconhecimento nacional da cantora foi acompanhado de uma trajetória consistente de lançamentos e performances. Em 2023, Ebony conquistou o primeiro lugar no Viral Brasil do Spotify com a faixa “Pensamentos Intrusivos”, de seu álbum Terapia, além de emplacar outras músicas do projeto entre os rankings da plataforma.
Em 2024, estampou a capa da revista “ELLE” em uma edição dedicada ao rap feminino, ao lado de Duquesa e Ajuliacosta, e se apresentou ao vivo no Prêmio Multishow, uma das principais premiações brasileiras de música. No mesmo ano, também fechou parcerias de conteúdo com o YouTube e sua imagem foi exibida país afora, em outdoors em Nova York, Los Angeles e Londres.
Em 2025, Ebony tornou-se a primeira artista feminina nacional a ser capa da revista internacional “Galore”. E também surpreendeu fãs e críticos ao lançar de surpresa o álbum “KM2”, trabalho autobiográfico que revisita sua adolescência no Rio de Janeiro e transforma vivências pessoais em narrativas coletivas, abordando temas como identidade, realidade periférica, traumas, autonomia e família. Com “(De Luxo)”, o projeto ganha seu tom completo e mais referências ao adicionar sete novas faixas, como a já conhecida “Dona de Casa”.
Nos palcos, Ebony se destaca pela força artística e por uma estética que dialoga com gerações mais jovens, tecnologia e cultura urbana. Festivais como Rock The Mountain, The Town, Afro Punk Bahia e Movimento Cidade, além de apresentações em projetos de grandes veículos musicais — como o Une Verso Sounds, da Billboard Brasil — marcam sua trajetória.

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