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Tensão, insegurança e identidade: assistimos ao documentário do BTS na Netflix

Produção registra criação de 'ARIRANG' em Los Angeles; veja análise com spoilers

BTS

BTS (Netflix)

O novo documentário do BTS, “O Reencontro”, chega ao catálogo da Netflix nesta sexta-feira (27). A Billboard Brasil já assistiu e traz todos os detalhes da produção. Atenção: este texto contém spoilers.

Vale estabelecer desde o início: este documentário não é um panorama da trajetória do grupo. Apesar de o trailer sugerir uma cobertura mais ampla do período pré-exército e do hiato em si, o que se vê na tela são basicamente as mesmas cenas que já circulavam no material promocional.

Com cerca de 1h30 de duração, o documentário é, essencialmente, um registro do processo de criação do álbum de retorno “ARIRANG”, lançado na última sexta-feira (20). Quem esperava um mergulho histórico mais fundo vai precisar recalibrar as expectativas.

O filme abre com a live de RM, Jin, J-Hope, Suga, Jimin, V e Jung Kook na praia de Los Angeles, nos Estados Unidos. Eles passaram meses no país para produzir o novo álbum.

Esse ponto de partida dá o tom do que vem a seguir: os bastidores tensos da criação do disco, a pressão do comeback após quatro anos longe dos palcos e a dinâmica entre os integrantes depois da pausa causada pelo alistamento militar.

+ Leia mais: BTS: show de retorno alcança 18,4 milhões de espectadores na Netflix

BTS
BTS (Netflix)

Los Angeles como personagem

Geograficamente, o documentário se passa quase inteiramente em Los Angeles.  Isso não é só um mero detalhe. A cidade funciona como personagem narrativo: é o espaço neutro, fora da bolha coreana, onde o grupo se reinstala coletivamente para se reaclimatar como uma unidade. Há algo de confinamento voluntário nessa escolha: todos voando juntos para uma casa compartilhada, longe dos refúgios individuais de cada um, reconstruindo a rotina de grupo quase como nos primeiros anos – uma mistura de “Bon Voyage”, “In the Soop”, mas com muito, muito trabalho.

“Ficamos muito tempo fora”, diz Jimin em uma cena durante um jantar. “Agora que finalmente saímos do serviço militar, não queremos prolongar essa pausa.”

O processo exposto

Este é, provavelmente, o ponto mais forte do documentário. Pela primeira vez, o BTS expõe o processo criativo de maneira mais crua: desde a primeira apresentação do conceito por trás de cada escolha para “ARIRANG”, desde os detalhes de composição, produção até curadoria de faixas.

Quem acompanha o BTS há anos sabe que os bastidores sempre fizeram parte da comunicação do grupo. Os quadros “Bangtan Bombs” e os “BTS Episodes” no YouTube são disso prova. Mas há uma diferença aqui. Esses formatos tradicionais são mais rasos, mais editados, mais controlados. O documentário deixa passar coisas que, antes, provavelmente seriam cortadas na ilha de edição.

“Quero fazer música livremente, mas parece sistemático, como trabalhar em uma fábrica”, desabafa J-Hope em uma das cenas. A frase resume bem a tensão que perpassa o filme: um grupo com escala global tentando preservar instinto artístico. “Estamos fazendo muitos experimentos, tentando descobrir o que nos torna especiais”, reflete RM. “O que nos faz ser o BTS?”.

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BTS (Netflix)

Um dos momentos mais tensos envolve Bang Si-hyuk – presidente da HYBE, em investigação por fraude – em reunião com o BTS. O executivo insiste para que a faixa “Body To Body” tivesse uma versão mais longa de arirang, a música folclórica sul-coreana que dá nome ao álbum, enquanto J-Hope diz preferir a versão mais curta.

“Lembra quando ouvimos sons da África e do Brasil?”, diz RM. “A gente ficou: ‘Nossa, que diferente e incrível’. Para os fãs não coreanos, [arirang] pode ser fascinante. A questão central desse álbum é uma só: até onde estamos dispostos a ir? Quanto queremos mudar? Isso é fundamental para nós.”

Outro ponto de debate foi a escolha do primeiro single, “SWIM”. Alguns membros achavam que a faixa poderia ter energia baixa demais para abrir a nova fase, até lembrarem que haviam duvidado de “Dynamite” em 2020, que se tornou um dos maiores sucessos internacionais do grupo.

Há também um ponto delicado envolvendo Jin. Nos primeiros minutos, ele chega a Los Angeles depois dos outros seis membros, após encerrar sua turnê solo. A cena é sutil, mas resume a complexidade de reintegrar sete trajetórias individuais numa dinâmica coletiva após quatro anos. Ele chegou com o álbum praticamente pronto e sua insegurança, justamente por não ter participado da criação desde o início, é palpável.

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“Não sinto pressão. Sei que resultados são importantes, mas quero que a gente seja feliz durante esse processo”, diz Jin num jantar. “É uma pena você ter perdido parte do processo”, responde RM, em um dos momentos mais honestos do documentário.

Para o público não familiarizado com o BTS, é uma porta de entrada honesta: apresenta o grupo como artistas dentro de uma agência criativa real, imersos no processo de trabalho complexo e nem sempre harmonioso.

Para quem já é fã, o ganho é mais sutil: não há grandes revelações individuais, e o período do hiato permanece em grande parte na sombra. O que o documentário oferece é aprofundamento de algo já conhecido, agora visto com um pouco menos filtro.

A cena de Jin chegando alguns dias depois dos demais resume bem a mensagem de “O Reencontro”: o BTS voltou diferente. Em “They Don’t Know ‘Bout Us”, J-Hope fala diretamente sobre isso: “You said we changed?/We feel the same, shit” (“Você diz que nós mudamos? Nós sentimos o mesmo”). Voltaram mais questionadores, experimentais. Mas talvez precisassem de mais tempo para que a “reaclimatação” acontecesse com mais calma e que Jin pudesse participar integralmente de “ARIRANG”.

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Jin, do BTS (Netflix)

Ouça ‘ARIRANG’, de BTS