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Designer de shows de Beyoncé e The 1975 faz alerta para ‘inflação criativa’

Tobias Rylander analisa evolução das turnês nos últimos anos

Tobias Rylander e Matt Healy, do The 1975

Tobias Rylander e Matt Healy, do The 1975 (Jordan Curtis Hughes)

Premiado designer de luz, cenografia e design conceitual, Tobias Rylander trabalha com grandes artistas da música internacional. Ele foi responsável por shows de Beyoncé na turnê de “Cowboy Carter” e a série de shows do The 1975 “At Their Very Best”. Colaborou também com Childish Gambino, Chappell Roan, FKA Twigs, The Strokes, entre outros nomes. Nos últimos anos, Rylander testemunhou a evolução das indústrias criativas para um estado, como ele define, de “inflação criativa”.

Esse momento traz um grande volume de ideias, ferramentas e referências visuais – o que diluiu a singularidade da geração de ideias e o valor da originalidade. Em entrevista para a Billboard Brasil, Rylander falou sobre o tema.

“Venho sentindo isso se aproximando sorrateiramente há muitos anos. Mas fica realmente claro quando você recebe novos ‘tratamentos criativos’ e moodboards de artistas, seus diretores criativos e suas equipes. Muitas vezes, eles são muito parecidos”, explica.

“Incluem as mesmas imagens e referências que você pode ter visto e discutido em um projeto anterior com uma equipe diferente, de outro continente. Minha única explicação para isso é que todos nós somos alimentados pelos mesmos algoritmos no Instagram e no Pinterest. E as imagens mais visualizadas, salvas e curtidas são mostradas para cada vez mais pessoas.”

“É como os memes das redes sociais… de repente, todo mundo no planeta viu o mesmo vídeo engraçadinho. E em um dia, o mundo inteiro já entendeu a mesma referência! O mesmo acontece com a criatividade. Todos nós consumimos e assimilamos as mesmas referências. Portanto, temos as mesmas ideias. Podemos achar que tivemos uma ideia genial para o design de um desfile, mas a realidade é que outras mil pessoas pensaram o mesmo… isso é inflação criativa para mim”, define Rylander.

Tobias Rylander
Tobias Rylander (Divulgação)

Rylander estudou música no ensino médio e teve bandas de rock ainda jovem. Ele operou a mesa de luz em um show, após o pedido de um amigo, e se apaixonou pelo backstage.

Abaixo, o designer falou sobre o mundo criativo, os desafios da montagem de shows e os bastidores de seus projetos.

Billboard Brasil: Seu trabalho transita entre música, teatro, moda, instalações de arte e projetos comerciais. Como trabalhar em tantas disciplinas diferentes te ajuda a evitar a estagnação criativa ou a repetição?
Tenho a sorte de sempre ter um objetivo ou destino em meu trabalho e em minhas tarefas. Na maioria das vezes, meu trabalho e minhas criações são uma resposta direta ou um aprimoramento da criação ou do trabalho de outra pessoa. Meu trabalho é encontrar uma representação visual das criações musicais de outro artista, da narrativa de um diretor ou coreógrafo ou, em alguns casos, simplesmente tentar aprimorar a experiência geral do espectador ou consumidor. Não tenho receio de usar métodos tradicionais de iluminação de palco ou de um artista. Afinal, é a repetição que torna algo tradicional. E funciona. Da mesma forma que a maioria dos músicos de rock usa guitarra ou piano em suas músicas. Tudo se resume ao timbre e a quem está tocando o instrumento. Tento não me repetir, seja copiando a mim mesmo ou a outros. Mas não tenho medo de manter meu próprio “tom” e estilo. Claro que, trabalhando em tantas áreas e meios diferentes, também me deparo com muitas técnicas antigas e novas tecnologias. Acho que esse é o ponto principal. Consigo misturar todos esses mundos enquanto crio novos.

Que tipo de conversa você tem com artistas sobre originalidade quando há pressão para entregar algo grandioso?
Eu sempre começo as conversas criativas com a pergunta: O que queremos comunicar? Como queremos que o público ou espectador se sinta? É apenas entretenimento e espetáculo? Ou estamos construindo um mundo onde também contamos uma história? Estamos sendo inclusivos e imersivos? Estamos trabalhando com escapismo durante o espetáculo, ou estamos aqui, agora, cara a cara com o público? Esse geralmente é um bom ponto de partida para encontrar algo original e inspirador. Eu nunca começo perguntando qual tecnologia devemos usar ou mostrando a eles aquele equipamento de luz ou laser novinho em folha que acabou de ser lançado… Sabendo que muitos dos próximos espetáculos com orçamento terão feito exatamente isso. Para mim, nunca se trata do que há de mais moderno e badalado. E sim de como contamos a história ou comunicamos esse sentimento da maneira mais eficiente e eficaz.

No entretenimento ao vivo, prazos apertados e altas expectativas muitas vezes levam as equipes a recorrer a referências familiares. Como você resiste a essa pressão e, ao mesmo tempo, entrega no ritmo exigido pela indústria?
É verdade. Se déssemos ouvidos à maioria dos gerentes de produção e contadores, todos estaríamos em turnê com telões quadrados e estruturas de iluminação retas… Pelo menos foi assim por muito tempo. Sinto que hoje em dia as produções também se transformam facilmente em uma espécie de competição em tamanho e quantidade de luzes utilizadas. Tenho muito orgulho de tentar criar designs o mais inteligentes possível. Afinal, é isso que um bom design representa: estética agradável com ótima funcionalidade. Nunca apresento uma ideia de design sem saber ou pensar que ela funcionará bem em termos de movimentação e adaptação durante a turnê. Em relação a resistir a referências familiares… eu diria até que as rejeito completamente. Simplesmente não faço isso. Já me pediram muitas vezes para copiar meu próprio trabalho. Quando um artista me procura e quer mais ou menos o mesmo design e conceito que eu já usei com outro artista, eu não aceito. Vejo isso como propriedade intelectual do artista. É lisonjeiro, mas não, obrigado. Preciso sentir a alegria de criar e explorar algo novo para que todo o trabalho árduo e as longas horas dedicadas ao processo valham a pena.

Em relação ao seu trabalho com The 1975 e Beyoncé, qual foi o maior desafio na criação das turnês deles?
São dois mundos completamente diferentes. Com o The 1975, o maior desafio é também o que eu mais gosto! É encontrar e desenvolver novas ideias e expressões junto com o vocalista Matty Healy e a banda. Algo inédito e inesperado. Sem regras, mas com uma direção e um objetivo muito claros em relação ao conceito e às ideias. Sempre começamos com bastante antecedência, muitas vezes antes mesmo do novo álbum ou campanha ser desenvolvido e finalizado, então participo de um processo criativo muito mais profundo. E posso fazer de tudo um pouco. Do design de cenário ao conteúdo de vídeo, direção de tela e design de iluminação. Nesse caso, sou tanto diretor criativo quanto designer, supervisionando todo o processo. É aí que realmente consigo criar e, na minha opinião, fazer o meu melhor trabalho. Para a Beyoncé, tenho feito o design de iluminação das duas últimas turnês em estádios, e diria que a parte mais difícil geralmente é a escala das coisas. Os palcos e a cobertura de iluminação para as câmeras geralmente exigem uma visão de 360°. Pode haver 25 dançarinos no palco, todos captados pela câmera, e o artista precisa ter uma aparência incrível tanto ao vivo quanto diante das câmeras. Tudo isso enquanto o espetáculo precisa ser o maior do mundo. Portanto, a escala é fundamental!

6Você descreveu o momento atual nas indústrias criativas como um de “inflação criativa”. Quando você percebeu que isso estava acontecendo e qual foi o sinal mais claro para você de que a originalidade estava sendo diluída?
Sim! Venho sentindo isso se aproximando sorrateiramente há muitos anos. Mas tudo fica realmente claro quando você recebe novos “tratamentos criativos” e moodboards de artistas, seus diretores criativos e suas equipes. Muitas vezes, eles são muito parecidos! Incluem exatamente as mesmas imagens e referências que você pode ter visto e discutido em um projeto anterior com uma equipe diferente, de outro continente. Minha única explicação para isso é que todos nós somos alimentados pelos mesmos algoritmos no Instagram e no Pinterest. E as imagens mais visualizadas, salvas e curtidas são mostradas para cada vez mais pessoas… É como os memes das redes sociais… de repente, todo mundo no planeta viu o mesmo vídeo engraçadinho. E em um dia, o mundo inteiro já entendeu a mesma referência! O mesmo acontece com a criatividade. Todos nós consumimos e assimilamos as mesmas referências. Portanto, temos as mesmas ideias. Podemos achar que tivemos uma ideia genial para o design de um desfile, mas a realidade é que outras mil pessoas pensaram a mesma coisa… isso é inflação criativa para mim…

Você disse que os designers têm a responsabilidade de proteger a originalidade, mesmo que isso signifique dizer não. Já lidou com momentos em que você teve que rejeitar uma ideia porque ela parecia muito familiar? E qual foi o custo dessa decisão?
Sim, o pior e mais seguro conselho que já recebi veio de um renomado designer de espetáculos sênior, quando mencionei o assunto depois de sentir que meu trabalho havia sido copiado e minhas ideias “roubadas”. A resposta dele foi: “Bem, Tobias, só existem algumas ideias originais”… Eu não podia acreditar no que ouvia. Acredito firmemente que é minha responsabilidade não copiar, consciente e intencionalmente, a criação de outra pessoa. Nem mesmo a minha própria. É muito fácil, e o custo disso é “sangue, suor e lágrimas”. Criar arte e algo único e belo não é fácil… não deveria ser fácil. É preciso muita tentativa, fracasso, dúvida e sucesso para se tornar bom em algo. Caso contrário, você poderia simplesmente alimentar a IA com seu trabalho… e ela ainda serviria como referência.

Em uma indústria movida por eficiência e produção, como a originalidade pode continuar sendo uma prioridade em vez de um luxo?
Acho que veremos muito mais espetáculos e performances intimistas e “presentes no momento”. É fácil e eficaz usar centenas de luzes móveis e cenários enormes. Telões em uma arena. Tudo o que você precisa é dinheiro, pessoas e caminhões. O novo luxo será a experiência única, íntima e verdadeira, “aqui e agora”, diante de você. Aquela que você não pode compartilhar nas redes sociais. Algo que talvez não fique bem em fotos porque foi iluminado apenas por uma vela; você precisa estar lá pessoalmente para entender. Essa é a nova experiência de luxo puro. 9. Que conselho você daria a designers mais jovens que só conheceram um ecossistema criativo movido a algoritmos? Recusem o desejo de fazer algo parecido com algo que vocês já viram. Se virem algo que realmente amam, tentem criar algo a partir disso. Comecem virando de cabeça para baixo, de lado, ou até mesmo escondendo… Vocês só criaram algo de verdade quando isso for reconhecido como único.

Quando as pessoas olharem para o seu trabalho daqui a algumas décadas, o que você espera que elas digam sobre a sua contribuição para a cultura visual?
Sempre me sinto muito orgulhoso e honrado quando alguém me diz que reconheceu imediatamente que era uma exposição “Tobias Rylander”. Que eu tenho uma linguagem e identidade visual que transcendem qualquer textura ou sensação reconhecível. Então, espero ser reconhecido e lembrado como alguém que sempre se esforçou muito para criar algo único e diferente. De preferência, inteligente! Sempre tento reinventar as coisas algumas vezes antes de me decidir por uma ideia. Usar tecnologia antiga de uma forma nova ou inédita. Ou talvez fazer com que algo muito novo pareça muito clássico. Acho que muitos artistas e pessoas da indústria frequentemente se surpreendem com as ideias e perguntas que faço. Fabricantes de iluminação e engenheiros de palco sempre me cumprimentam com um sorriso e um brilho de medo nos olhos.