Conheça a Harpa Cristã, considerada a ‘bíblia cantada’
Saiba história por trás dos hinários, pilares da música gospel

A história da harpa cristã (Lucas Vieira/Billboard Brasil)
Em uma manhã de domingo qualquer, em um bairro chique ou em um mais simples, em um templo glorioso ou em um salão nos fundos de uma casa, o mesmo ritual acontece. Munidos de um pedaço de pão e um copo com suco de uva (emulando vinho), cristãos se unem, pelo menos uma vez por mês, para tomar a Santa Ceia, praticando o que a Bíblia aconselha. Para acompanhar o momento sacro, é possível ouvir o mesmo som ecoando há mais de um século: “Alvo mais que a neve / Sim, neste sangue lavado / Mais alvo que a neve serei”. Os versos estão escritos em um livro, de capa dura, provavelmente com as páginas já gastas: a “Harpa Cristã”.
Sua história remonta a 1922, quando a primeira edição foi lançada em uma Assembleia de Deus em Recife (PE). Na época, os suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren rodavam o Brasil como missionários da igreja que eles tinham fundado em 1911 em Belém do Pará e que, com o tempo, se tornou uma das maiores igrejas do país.
Naquele momento, a música também já estava presente dentro da rotina dos adeptos: desde a hora de participar da citada Santa Ceia até o momento de desejar feliz aniversário para um irmão, havia um hino criado para embalar esse momento.
O primeiro hinário registrado foi “Salmos e Hinos”, de 1861, feito pelas Igrejas Evangélicas Congregacionais. Nele, há indicações de passagens bíblicas do livro de Salmos – um dos mais populares das Escrituras – cantados em forma de oração. Com o passar do tempo, diversas outras denominações de igrejas fizeram o mesmo caminho, mas a da Assembleia de Deus foi a que mais se popularizou. “A Assembleia de Deus tem um tamanho muito grande no Brasil, então evidentemente seu hinário se tornou mais popular, inclusive em igrejas que não são necessariamente parte da Assembleia”, explica Robson Santos, pesquisador licenciado em música e fundador do canal especializado Hinologia Cristã.
Esses hinários foram criados para introduzir a música de uma forma mais direta e simplificada nos cultos, além de criar uma espécie de identidade. O livro “Hinário para o Culto Cristão”, lançado em 1990 pelas Igrejas Batistas, tem em sua definição a seguinte explicação: “O cântico reflete a fé, as tradições, os valores, as preferências, as doutrinas, os rumos e a espiritualidade de cada um de nós. Nosso cântico reflete quem somos e onde estamos na peregrinação cristã”.
Assim, como a própria Assembleia de Deus, a “Harpa Cristã” foi crescendo com os anos. Em 1923, ela já contava com 300 hinos; em 1932, eram 400. Em 1937, uma comissão oficial, formada por Emílio Conde, Nyström, Macalão e outros líderes da igreja, iniciou a elaboração da primeira edição com letra e música. São letras diretas e que falam sobre assuntos comuns da rotina de uma igreja evangélica, embaladas por partituras igualmente simples, que podem ser tocadas em qualquer instrumento.
A primeira versão teve uma tiragem de apenas mil exemplares, que foram levados para diversos cantos do Brasil pelo missionário sueco Samuel Nyström, um dos nomes mais importantes da história da Assembleia de Deus. Para compor a primeira seleção de músicas, ele traduziu hinos escandinavos de forma literal. Neste período, conheceu o pastor gaúcho Paulo Leivas Macalão, que adaptou versos, reorganizou compassos, recriou algumas melodias e fez a versão da linguagem para que ela cumprisse seu objetivo inicial: unificar a forma como os cristãos brasileiros cantavam sobre seus costumes e crenças. “Esses hinários evidenciam a identidade cristã de cada uma das igrejas. Você chega em uma igreja em que as pessoas usam a ‘Harpa’ e está todo mundo cantando igual. Eu estou em Recife agora, e a forma que eles cantam hino é igualzinho ao que se canta no Sul, no Sudeste. Os hinários foram criados para padronizar mesmo”, explica Robson.
A Harpa e o gospel
A história de todo cantor gospel brasileiro começou do mesmo jeito: sentado no banco da igreja, com suas Bíblias e hinários em mãos e, vez ou outra, eram convocados para fazer parte de um grupo de louvor, muitas vezes ainda crianças.
Os primeiros acordes e versos aprendidos eram os hinos da “Harpa Cristã”, cantados em conjunto com toda a congregação. “Eu sou neta e filha de crente, já sou a terceira geração evangélica da minha família. Meu avô aceitou Jesus nos anos 1960, e, naquela época, a Harpa era a única música cantada dentro da minha igreja”, conta Sarah Farias, cantora gospel alagoana que soma 1,75 milhão de inscritos no YouTube.
“A ‘Harpa’ faz parte da minha construção como cantora. Por isso eu coloco dentro de todos os meus louvores, em todos os meus álbuns, algum hino da ‘Harpa’. São músicas sacras e ‘cristocêntricas’, sem qualquer desvio doutrinário”
André Valadão, pastor e cantor gospel com mais de 900 mil seguidores no YouTube, chegou a se unir com a dupla sertaneja César Menotti & Fabiano para uma versão de “Porque Ele Vive”. Fernandinho, uma das maiores referências da música cristã, com quase 6,5 milhões de inscritos no YouTube, lançou em 2010 o projeto “Sou Feliz”, em que regravou 11 hinos da “Harpa Cristã”, como “Grandioso És Tu” e “Rude Cruz”.
Outra referência da música gospel, Bruna Karla, que soma múltiplas indicações ao Grammy Latino e mais de 2 milhões de pessoas inscritas no seu canal do YouTube, também nasceu em um berço evangélico. “As canções são a própria Bíblia cantada, tudo está ali. Tem súplica, tem oração, tem uma indicação de como vou me comportar, de como vou agradecer”, disse. Para a cantora, trata-se de um legado que tem ultrapassado o tempo, sem se perder.
A ideia inicial era que todo e qualquer frequentador da igreja pudesse levar um exemplar do livro consigo. Também existia o desejo de que as canções fossem cantadas e tocadas da mesma forma em todo o país. Foi neste cenário que a música gospel cresceu e se impôs no Brasil com suas bases fincadas nos hinários. Hoje, a “Harpa Cristã” é o segundo melhor amigo do cristão – depois da Bíblia, é claro.
Essa reportagem foi publicada na 19ª edição da Billboard Brasil. Compre já a sua.
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