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Batuque na cozinha sinhá não quer. Alguns cristãos também não

Coletivo Candeiro sofre preconceito pelo uso de tambores em canção

Coletivo Candieiro Divulgacao

O Coletivo Candiero (Israel Lima/Divulgação)

Em entrevista para a Billboard Brasil, realizada em março de 2024, o ator Jonathan Roumie, que interpreta nada menos que Jesus Cristo no seriado “The Chosen”, disse que caso o Nazareno sintonizasse a rádio do senhor, certamente estaria escutando uma canção construída a base de cordas e muita percussão. Mas algumas facções evangélicas repudiam qualquer associação da música gospel com tambores.

Lançada em janeiro de 2026 pelo Coletivo Candiero, a canção “Auê (A Fé Ganhou)” tem sido repudiada nas redes sociais porque o uso da percussão faria referência –e, pior de tudo, reverência– às religiões afro-brasileiras. Mais: o Zé e a Maria presentes nos versos “Agora que o Zé entrou e todo mundo viu/ E todo mundo olhou, e todo mundo riu/ Ninguém se acostumou, mas o céu se abriu/ Agora que a fé ganhou e a Maria sambou…” seriam, na verdade, Zé Pilintra e Maria Padilha (a popular “Pomba Gira”), entidades que também estão associadas à umbanda. 

“Alguns religiosos possuem uma visão mística e alienada da fé e uma ignorância das religiões de matriz afro-brasileira”, desabafa Marco Telles, responsável pelo Coletivo Candiero. Criado em 2019, é um agrupamento de artistas nordestinos e cristãos que criam composições a partir de elementos da música popular brasileira –daí a presença acentuada da percussão. “Auê (A Fé Ganhou)” tem participação das cantoras Midian Nascimento e Ana Heloysa e da Banda Camará e surgiu após uma visita de Telles ao centro cultural dos Pataxós, na Bahia. “A gente teve um dia inteiro de experiência e foi maravilhoso. Aprendemos um monte de coisas, dançamos, comemos e celebramos a Deus com eles. Em um determinado momento, um dos pajés disse: ‘Agora vai começar o nosso auê.’ E explicou que auê, em tupi-guarani, é festa”, justifica Telles. “Auê é um grito de identificação entre nós, é uma identificação com a nossa própria cultura. A glória de Cristo não inundou só o norte da América, a Europa ou o Oriente. A glória de Cristo inundou também o Brasil, alcançou gente de toda tribo, língua, povo, raça e nação e, do nosso jeito, nós vamos celebrar esse feito absurdo que foi a Majestade querer gente como nós dentro dos seus salões reais’, complementou o vocalista.

A canção do Coletivo Candiero faz parte do Sermão Musical, uma espécie de pregação em forma de música. A principal inspiração foi a “Parábola do Grande Banquete”, do Novo Testamento, onde um senhor rico oferece uma ceia farta e rica para pobres, aleijados, cegos e mancos depois que seus convidados iniciais inventam desculpas para não visitá-lo. “Eu me sinto como os servos desse senhor que receberam um não daquelas pessoas. A gente sofreu um linchamento por dizer que a marginalidade merece oportunidade”, desabafa Telles. Um dos efeitos do suposto sacrilégio foi o cancelamento de alguns shows/testemunhos da turnê americana do Coletivo em 2026. Por outro lado, em algumas praças brasileiras a procura por ingressos chegou a dobrar. “Isso significa que muitos Zé e Marias se sentiram acolhidos”, conclui o compositor.

Há tempos que a chamada música gospel, seja aqui ou em outros países, absorve elementos pop para ajudar na divulgação da palavra cristã. Gêneros considerados “profanos” como o blues (e suas vertentes, como o rock e o pop), o rhythm’n’blues (e sua variação mais conhecida, a soul music, que une este gênero ao gospel) e até a música eletrônica foram assimilados e usados em pregações  a fim de levar as palavras do evangelho para o maior número de platéias possível. “Auê (A Fé Ganhou)” é um exemplo criativo de utilizar um instrumento surgido no início dos tempos para traduzir palavras de fé e esperança.