Published by Mynd8 under license from Billboard Media, LLC, a subsidiary of Penske Media Corporation.
Publicado pela Mynd8 sob licença da Billboard Media, LLC, uma subsidiária da Penske Media Corporation.
Todos os direitos reservados. By Zwei Arts.

Entrevista: entenda como o Navio Pirata do BaianaSystem navega em novos mares

O rapper Vandal com os membros do BaianaSystem, Russo Passapusso, Claudia Manzo e Roberto Barrreto (Divulgação/ Bob Wolfenson)

O rapper Vandal com os membros do BaianaSystem, Russo Passapusso, Claudia Manzo e Roberto Barrreto (Divulgação/ Bob Wolfenson)

O folião que já conhece o verão da Bahia há mais tempo sabe: existe um carnaval antes e depois do BaianaSystem. A musicalidade, a poesia e a mensagem do trio do Navio Pirata navegam por uma multidão que nunca coube em cordas. Todos são convidados a fazer parte desse mar de gente que impressiona a qualquer um.

Na temporada de shows de 2026, a banda se volta para um dos principais cernes da música de carnaval: as fanfarras. Sem se esquecer, é claro, de toda a sua referência à ancestralidade dos blocos afro e à base do sound system.

A bordo de uma embarcação, durante a travessia entre Salvador e a Ilha de Itaparica para o show de estreia, conversamos com Russo Passapusso, Beto Barreto e Claudia Manzo sobre o que move esse motor há mais de 15 anos — e sobre o que podemos esperar da banda em 2026.

O Movimento como Sobrevivência

Billboard Brasil: Colocar o Navio Pirata na rua, sem cordas e em meio a tantas dificuldades estruturais e políticas, é um exercício de resistência. Após mais de 15 anos na ativa, o que ainda motiva vocês a continuar?

Claudia Manzo: Porque o movimento é o que faz a vida, né? Se a gente parar, a gente não vive. Então estar se movimentando, estar na roda, é estar vivo. 

Beto Barreto: Essa pergunta é feita o tempo inteiro para um Bloco Afro, por que continuar naquilo, sendo que aquilo é o que move ele. Tudo joga contra para que a gente saia, mas aquilo dá um sentido. Desde que o Navio Pirata começou, há mais de 15 anos, sempre foi difícil, nunca foi fácil. “Nunca foi sorte, sempre foi trabalho”, como o Russo fala na música que a gente acabou de fazer com o Olodum.

Eu tenho uma relação muito forte com o Carnaval desde sempre. E as pessoas sempre falam “Puxar trio elétrico é quase que uma especialidade”, porque não é qualquer pessoa que consegue fazer. Você pode pegar o cantor que for, a pessoa do palco que for, ele não vai saber conduzir. O Russo teve isso, acredito que por conta do SoundSystem. Ele tem quase uma coisa sensitiva. Muitas vezes ele nem está nessa linha de raciocínio consciente, e aquilo vai acontecendo. A gente foi conduzido assim no Navio Pirata.

Por que continuar? Isso dá um sentido para a gente para o resto do ano, ele acaba tendo um eco, uma energia que resvala para o resto do ano. O nosso trio é muito pequeno, eu ficava ali entre o repertório e o Russo, não conseguia ter dimensão desse mar de gente. Só via depois por uma foto ou vídeo. As pessoas relatavam o que era aquele experimento que a gente estava tentando e isso nos motiva a continuar.

Billboard Brasil: E qual a sensação de ver depois aquele mar de gente ali na imagem seguindo o Navio?

Russo Passapusso: A sensação é de… é muita coisa. Quando você se vê lá na multidão, é a melhor sensação do mundo. Quando você não consegue se ver lá, é a pior sensação do mundo. Carnaval é aquele lugar onde tem tudo para dar certo e dá errado, e tem tudo para dar errado e dá certo.

Então quando você olha para a multidão e você consegue se ver, é muito bom. Então você cuida, você fala, você sofre, mesmo do bom ou do ruim. Você se ver é muito bom. No bom ou no ruim, quando você olha e não consegue se ver, é muito ruim. Por quê? Porque ali na multidão, sendo a gente, fruto do meio que a gente vive, naturalmente ali na multidão tem a permissão de entendimento de identidade mais profunda que a gente pode obter nas nossas experiências. Entendeu? Sendo fruto do meio, estando na multidão e se enxergando ali sem ser você, você está aqui se vendo lá em outras pessoas. É a maior forma de você se reconhecer como identidade.

Claudia Manzo: No coletivo, né? Eu estou há 4 anos nisso e ainda não acostumo. É uma montanha-russa mesmo. Vem aquele momento de adrenalina maior, mas vem também um momento de sensibilidade enorme desse ver humano. Você vê uma pessoa roubando a outra, beijando, fazendo gentileza… Você vê todos os comportamentos que o ser humano tem. 

O ser humano é errante. Então você começa a ter uma permissividade também maior com você e com o outro. Você não tem perfeição, você vê isso na rua e se identifica. Está tudo bem, estamos todos juntos, eu tenho que cuidar de um coletivo também. São muito grandiosas as emoções quando você está num lugar assim. Não tem como normalizar.

Russo Passapusso: É uma mistura de duas músicas: a de Hyldon, que é Inexplicável, com a de Arnaldo Antunes, que é Inclassificável.

Améfrica Ladina: A Identidade sem Fronteiras

 

Billboard Brasil: Vocês começam a temporada de shows de 2026 na festa de 203 anos de Independência da Ilha de Itaparica, num momento em que a América Latina está passando por vários momentos críticos. No trabalho de vocês é muito forte a valorização da identidade do sul-americano, do povo latino. Nesse contexto desse verão especificamente, como vocês reforçam isso?

Beto Barreto: Quando o virou o ano de 2026 e no dia 3, antes do 8 de janeiro [aniversário do golpe], acontece aquilo [na Venezuela]. Russo já ligou no mesmo dia, mudou tudo. A quantidade de postagens que eu via com letras recortadas — de “Sulamericano”, “Chapéu Panamá” — as pessoas usando aquilo que a gente está falando há tanto tempo.

Isso tem a ver com o nosso Carnaval, com Itaparica, por isso a gente falou da Independência. No hemisfério sul das Américas a gente está em festa agora, tem esse sol, essa comemoração. 

Como é você estar festejando no momento em que se fala em guerra, em reocupação das Américas? A gente voltou a falar do direito de lutar, de festejar o seu direito de lutar e lutar pelo seu direito de festejar. 

O Carnaval vem dessa ideia de luta, de disputa por espaços para as pessoas poderem ir para a rua pelos que vieram, pela afrodescendência, tudo o que estava acontecendo aqui para essas pessoas ocuparem as ruas, poderem estar na rua. E o Carnaval é uma luta de espaços em todos os sentidos, o tempo inteiro.

Claudia Manzo: É importante colocar a força que o BaianaSystem tem no diálogo que cria com a América Latina a partir da música. No Brasil, coloca um discurso latino-americano de orgulho, de convivência. 

Isso é importante porque aí eu vi o lugar onde eu podia de fato dialogar. Em 2019, quando meu país [Chile] estava vivendo uma revolta, pessoas sendo torturadas, desaparecidas, eu fiquei doida, não sabia com quem compartilhar. Imagina a força que tem o BaianaSystem nesse sentido. Foi: “Então é aqui onde eu posso falar, é aqui onde vou poder dialogar sobre isso”. 

Quem mais está falando sobre a nossa irmandade com a América Latina com esse olhar discursivo, político? Para mim o palco é o lugar dos estrangeiros, está todo mundo que não é a “pessoa certinha”, que vai e vem.

Sobre o momento atual, me preocupa como chegam nossas informações. Temos um cerco muito grande sempre na comunicação. Notícias difíceis de entender do Chile, da Venezuela… mas uma coisa a gente sabe que está errada: vir um imperialista e falar que nossos países estão na mão deles. Isso cria situações difíceis porque nosso país já lembra de todos os golpes de estado que viveu a América Latina.

Estar aqui é muito significativo porque é o lugar de resistência contra quem vem invadir, de cuidar da própria cultura e se sentir soberanos. A América Latina nunca parou de falar sobre as dores. Essa frase que a gente tem conversado, “festejar para lutar, lutar para festejar”, é uma coisa que a gente sabe fazer de cor, porque nunca tivemos paz. 

O Carnaval para a gente sempre foi lugar de resistência. A gente faz cumbia para condenar, para dialogar, para colocar no discurso as coisas que estão erradas. A gente dança criticando — uma coisa que o BaianaSystem faz muito bem porque é muito latino-americano. Já sabemos fazer isso, está na gente. É isso que faz a gente se manter firme e forte com todas as nossas cores, músicas e sabores. Continuar e ter esperança — isso a gente não pode perder.

Baile Pirataria em SP: Memória e Resistência no Memorial

 

Billboard Brasil: No dia 24 de janeiro, o Baile Pirataria (Versão Améfrica) ocupa o Memorial da América Latina em São Paulo. Qual a importância de levar essa “memória” para o centro financeiro do país com convidados como Emicida e Luedji Luna?

Beto Barreto: São Paulo é, talvez, o primeiro lugar fora de Salvador onde construímos um público sólido, mas ainda não tínhamos feito o nosso Baile lá. Fazer no Memorial da América Latina, logo após o Grammy, é simbólico. É um lugar que carrega no nome a necessidade de rememorar nossa história de exploração e, principalmente, de resistência. 

Além do Verão: O Horizonte de 2026

 

Billboard Brasil: Para além da poeira que vai subir neste Carnaval, o que o BaianaSystem projeta para 2026? Podemos esperar novos lançamentos ou o foco será a estrada?

Beto Barreto: 2026 é um ano de muitas tensões — geopolíticas, tecnológicas e também de eleições para nós. Musicalmente, estamos lançando o álbum “Refix” (uma versão Deluxe do “O Mundo das Voltas”), com reinterpretações de produtores e parceiros. 

Teremos a participação de uma cantora da Nigéria em “Praia do Futuro”, o Chan Kut em “Ogulile”, e uma dupla de colombianas incríveis em “Magnata”. Além disso, a Claudia canta uma versão de “Agulha” produzida pelo Philippe Cohen Solal (Gotan Project).

É “o Mundo das Voltas” dando voltas pelo mundo. Tudo isso caminha junto com os novos singles que nascem desse universo das Fanfarras Piratas. O ano será construído no decorrer do próprio ano, no movimento.