BaianaSystem estreia verão 2026 com mergulho ancestral e grito por educação
Navio Pirata transformou o palco em um quilombo de resistência e celebração
O calendário oficial para o BaianaSystem começou de fato no momento em que os pés tocaram o solo da Ilha de Itaparica (BA). A celebração dos 203 anos de independência da cidade não foi apenas o cenário para a estreia da temporada de verão; foi um retorno à fonte. Para a banda, Itaparica não é apenas um destino, é uma lente.
“A Ilha de Itaparica é um dos melhores lugares do mundo para ver o mundo”, explica o vocalista Russo Passapusso. “Através do olhar da Ilha, passamos a entender Salvador e, por conseguinte, o Brasil. É ver de fora para ver de dentro.”
O eco de “O Futuro Não Demora”
A conexão não é de hoje. Foi em Itaparica que o grupo se refugiou para gestar o premiado “O Futuro Não Demora” (Grammy Latino de 2019). Aquela pesquisa sonora e cultural, que fundiu a guitarra baiana ao som das fanfarras locais, continua a ecoar. Neste verão de 2026, os instrumentos de sopro e a estética das filarmônicas assumem o protagonismo, herança direta das vivências na Ilha e do canal de amizade com o pesquisador Felipe Peixoto Brito.

O rito: caboclos, fanfarras e a bênção de Mãe Nadira
O show foi estruturado como um rito de passagem, respeitando a hierarquia do território. A abertura não poderia ser diferente: a saudação aos Caboclos de Itaparica, donos da festa de 7 de janeiro, evocando a ancestralidade que garantiu a expulsão dos invasores em 1823.
Na sequência, a Bamuit (Banda Municipal de Itaparica) trouxe o peso do metal para o palco. A relação é íntima: membros da fanfarra colaboram com o grupo desde o clipe de “Reza Forte” e das apresentações de Sambaqui. O ápice simbólico ocorreu na transição para o corpo principal do show, com a entrada de Mãe Nadira Maria, do terreiro Ilê Axé Oyá Lassan. Em um momento de silêncio e respeito, ela e seu filho, o professor Osvanil, abençoaram o público e a banda, selando o início da temporada.

Repertório e catarse coletiva
Com o caminho aberto, a catarse foi inevitável. Sucessos como “Miçanga”, “Porta-retrato da Família Brasileira”, “Magnata” e “Bola de Cristal” incendiaram a Ilha. O encerramento, ao som de Forasteiro e Balacobaco, contou com a presença lúdica e visceral dos Caretas de Manguinhos, fechando o ciclo artístico com a tradição das máscaras e da subversão carnavalesca.
O palco como trincheira social
Para o BaianaSystem, o público nunca é passivo. As rodas clássicas convivem com o protesto. Durante o show, o protagonismo retornou à plateia quando uma faixa foi erguida exigindo uma universidade pública na Ilha de Itaparica, demanda que se tornou o coro mais repetido da noite.
Felipe Brito, historiador e colaborador da banda, resume a simbiose entre o som e a fúria:
“O BaianaSystem é uma ode à cultura brasileira. Quem faz o movimento político e social somos todos nós. As pautas que defendemos são muito maiores do que nós e perpassam nossa existência todos os dias.”
Ao final da madrugada, a mensagem ficou nítida: se o verão de 2026 promete ser um dos mais intensos da história do grupo, é porque ele começou bebendo da água mais pura da independência brasileira. O Navio Pirata zarpou, e a bússola aponta para a liberdade.















