Published by Mynd8 under license from Billboard Media, LLC, a subsidiary of Penske Media Corporation.
Publicado pela Mynd8 sob licença da Billboard Media, LLC, uma subsidiária da Penske Media Corporation.
Todos os direitos reservados. By Zwei Arts.

Capa do novo àlbum The Mountain do Gorillaz (Jamie Hewlett)

Capa do novo àlbum The Mountain do Gorillaz (Jamie Hewlett)

A montanha sagrada do Gorillaz

Um quarto de século antes de o mundo se dividir entre amantes e haters dos grupos formados por inteligência artificial, o Gorillaz fincava bandeira numa proposta inédita: criar uma banda com músicos de verdade, representada por personagens de cartoon.

Se parecia zoeira no começo, a “banda virtual” formada por um músico britânico e um quadrinista visionário se tornaria um dos fenômenos mais duradouros e artisticamente relevantes da música mundial.

Prestes a completar 25 anos de carreira, Damon Albarn e Jamie Hewlett, os humanos por trás dos personagens 2D, Murdoc Niccals, Russel Hobbs e Noodle, lançam nesta sexta-feira (27) seu 9º álbum, “The Mountain”, provando que o projeto nunca foi brincadeira – apesar de atrair cada vez mais crianças e adolescentes entre seus fãs. Faça o pré-save aqui.

Nessas mais de duas décadas, o Gorillaz construiu um império: vendeu milhões de discos, conquistou prêmios Grammy, Brit Awards, fez turnês de sucesso mundo afora e, mais importante, construiu uma ponte musical entre gerações, gêneros e continentes. Agora, com “The Mountain”, a banda entrega sua obra mais pessoal e espiritualmente ambiciosa.

Damon Albarn e Jamie Hewlett receberam virtualmente a Billboard Brasil em seu estúdio, em Londres, em janeiro, menos de um mês antes do lançamento do novo disco, para uma conversa sobre morte, renascimento, Índia, e por que o Brasil ocupa um lugar tão especial no coração da banda.

Gorillaz - Arte de divulgação do disco "The Mountain" (Jamie Hewlett/Divulgação)
Gorillaz – Arte de divulgação do disco “The Mountain” (Jamie Hewlett/Divulgação)

A MONTANHA E O LUTO

A gênese do álbum remonta a um período de perdas profundas para ambos os criadores. Damon viajou para Varanasi, a antiga cidade indiana sagrada para o hinduísmo, para espalhar as cinzas de seu pai. Quase simultaneamente, Jamie estava em Jaipur com a família quando sua sogra sofreu um derrame fatal; dez dias depois, seu próprio pai também faleceu.

“Quando você está habitando um mundo que não está necessariamente aqui ou lá… é ambíguo o estado em que tudo está”, reflete Damon, com a voz suave. “Mark E. Smith está morto há dez anos, mas na música ‘Delirium’ ele parece estar ali, na montanha. Eu sou um personagem em um barco, esperando algo acontecer. Talvez isso se refira ao apocalipse, mas é mais uma internalização da nossa angústia atual”, define o frontman do Gorillaz, que divide seus fãs com outra banda seminal, o Blur.

Jamie complementa, trazendo a perspectiva que apenas a imersão na cultura indiana poderia oferecer: “O que você percebe é que não há melhor lugar para lidar com a morte do que a Índia. No Ocidente, a morte é final. Na Índia, a tristeza vem de saber que você não verá aquele familiar nesta forma, mas celebramos a ideia de que eles vão recomeçar”.

Essa dualidade, a dor da perda e a celebração da continuidade, permeia cada faixa do álbum. Gravado entre o Studio 13 em Londres, Devon, e múltiplas locações na Índia (Mumbai, Nova Délhi, Rajastão, Varanasi), além de Ashgabat, Damasco, Los Angeles, Miami e Nova York, “The Mountain” reúne artistas que cantam em cinco idiomas: árabe, inglês, hindi, espanhol e iorubá.

Gorillaz - Arte de divulgação do disco "The Mountain" (Jamie Hewlett/Divulgação)
Gorillaz – Arte de divulgação do disco “The Mountain” (Jamie Hewlett/Divulgação)

OS PERSONAGENS ENCONTRAM A ÍNDIA

A arte do álbum, assinada por Jamie Hewlett, é um espetáculo à parte. Pela primeira vez, vemos 2D, Murdoc, Russel e Noodle imersos na paisagem indiana, em ilustrações feitas à mão que capturam a espiritualidade e o caos vibrante do subcontinente.

“Eu levei uma fotógrafa com a gente”, explica Jamie. “Não ia tentar desenhar imagens indianas de memória – isso levaria para sempre. Eu queria colocar os personagens nesse mundo real. Pesquisei muito sobre os deuses hindus, fiz muitas perguntas”, ele conta.

O desafio, para Hewlett, foi encontrar o tom certo: “Os personagens do Gorillaz vivem em um mundo de sarcasmo há muito tempo. Isso não seria adequado para este álbum. Precisava encontrar um equilíbrio entre isso e contar a versão deles da história. Eles estão tendo essa experiênca em nosso lugar. Por serem cartoons, podem morrer, se reencarnar e voltar para nos dar algum vislumbre”.

Damon observa a evolução visual com admiração de quem vê o parceiro de longa data ainda se superar: “A coisa interessante é que, de certa forma, eles são desenhados em um estilo completamente diferente a cada vez que fazemos algo. O jeito que são desenhados agora é tão diferente de 2001. Realmente evoluiu”.

Evolução que, para Jamie, tem um propósito quase pedagógico: “Jovens amam animação. Eles veem os cartoons, investigam, escutam a música. Aí entram no mundo do Gorillaz e descobrem Ibrahim Ferrer, Bobby Womack, Dennis Hopper. Isso abre o mundo para coisas que talvez nunca descobrissem sozinhos”.

Gorillaz - Arte de divulgação do disco "The Mountain" (Jamie Hewlett/Divulgação)
Gorillaz – Arte de divulgação do disco “The Mountain” (Jamie Hewlett/Divulgação)

O EXÉRCITO DE COLABORADORES

Falar de um álbum do Gorillaz é inevitavelmente falar de uma constelação de colaboradores. “The Mountain” eleva isso a um novo patamar. A lista inclui nomes como Ajay Prasanna, Anoushka Shankar (presente em múltiplas faixas), Asha Bhosle (aos 91 anos, emprestando sua voz atemporal a ‘The Shadowy Light’), Asha Puthli, Bizarrap, Black Thought, Gruff Rhys, IDLES, Jalen Ngonda, Johnny Marr (o icônico guitarrista dos Smiths, presente em três faixas), Kara Jackson, Omar Souleyman, Paul Simonon, Sparks, Trueno e Yasiin Bey.

Além deles, vozes de amigos que já partiram como Bobby Womack, Dave Jolicoeur (De La Soul), Dennis Hopper, Mark E. Smith, Proof (D12) e Tony Allen reencarnam no álbum de forma belíssima.

“Eles são como parte da banda para este disco”, diz Damon sobre Johnny Marr e Anoushka Shankar. “Porque, na maioria das vezes, sou eu no estúdio. Qualquer um que se junte é muito bem-vindo. Senão, fica um negócio solitário”, ele resume.

A faixa ‘The Manifesto’ exemplifica essa ponte entre mundos. O argentino Trueno troca versos com Proof, do D12, em um momento que Jamie descreve como “arrepio sagrado”. “Nós gravamos o rap do Proof minutos antes de ele entrar no estúdio. É muito poderoso vê-lo olhando nos olhos, cantando sobre a morte, dado quão pouco de vida lhe restava”, descreve Albarn.

Sobre as colaborações brasileiras, ele se anima ao lembrar de MC Bin Laden. “Foi o slowthai quem nos contou sobre ele. Aquela foi uma sessão divertida no Rio de Janeiro. Eu adoro ir a estúdios de outras pessoas ao redor do mundo. Passo muito tempo em lugares familiares quando estou gravando, então isso foi maravilhoso”, conta o cantor, compositor e produtor de faixas que atravessam gerações.

Gorillaz - Arte de divulgação do disco "The Mountain" (Jamie Hewlett/Divulgação)
Gorillaz – Arte de divulgação do disco “The Mountain” (Jamie Hewlett/Divulgação)

O BRASIL NO RADAR

Falando no país, a conexão do Gorillaz com o público brasileiro é algo que ambos reconhecem como especial. A última passagem do grupo, em 2022, no festival MITA, deixou marcas.

“Sim, é um aspecto realmente lindo, é intergeracional”, diz Damon sobre ver famílias inteiras na plateia. “Talvez não no começo, mas definitivamente nos últimos 15 anos. Fizemos um show de Halloween em San Francisco há alguns anos e foi aí que começamos a notar a quantidade de crianças e adolescentes que vinham aos nossos shows com seus pais. E isso é incrível”, diz Jamie.

Quando questionados sobre a famosa frase “Come to Brazil”, que fãs brasileiros usam para atrair artistas globais, Damon é enfático: “Para mim, não há lugar que seja longe demais. Tudo parece estar perto. Não sinto que exista um lugar na Terra que seja longe. Então com certeza o Brasil está sempre no radar”, conclui.

Ainda sem data confirmada, o Gorillaz deve se apresentar no Brasil entre novembro e dezembro deste ano.

Produtor conhecido por fazer álbuns completos com recursos mínimos, como um tablet e softwares gratuitos, Damon Albarn confessa ser cada vez mais avesso a tecnologias, apesar de usá-las.

“Eu não tenho um celular, por exemplo. Não me faz falta, me sinto livre”, resume.

“Sim, eu ainda faço praticamente todas as minhas demonstrações no iPad, só porque… Eu era muito bom com o Tascam 4-track, e agora sou muito bom com o GarageBand. Eu realmente, realmente luto com qualquer outra forma, como o Fruit Loops, eu luto com… Eu consigo fazer, mais ou menos. E depois coisas como o Pro Tools e o Cubase, tudo isso é além de mim.”

Gorillaz - Arte de divulgação do disco "The Mountain" (Jamie Hewlett/Divulgação)
Gorillaz – Arte de divulgação do disco “The Mountain” (Jamie Hewlett/Divulgação)

O SISTEMA DE ALERTA GORILLAZ

Uma das marcas da banda sempre foi seu posicionamento político, desde “Demon Days” (2005). Em “The Mountain”, isso se manifesta de forma mais sutil, mas igualmente incisiva. “The Happy Dictator” (com Sparks) é descrito por Jamie como uma canção que “toca na dança catastrófica entre líderes que vendem mentiras palatáveis e seus exércitos de facilitadores involuntários”.

Damon reflete sobre o momento atual: “Nós estamos tentando avisar as pessoas há muito tempo sobre o que está acontecendo agora. E agora estamos tentando avisar sobre o que vai acontecer nos próximos 20 anos. ‘Demon Days’, por exemplo, estava 20 anos adiantado. Foi apenas parte do sistema de alerta Gorillaz”.

“The Mountain” vai além da crítica social. É um álbum que encontra na espiritualidade indiana uma resposta para a angústia contemporânea. “Quando ouço ‘The Sad God'”, diz Jamie, “penso em Vishnu, o deus hindu cujo trabalho é proteger o universo, basicamente dizendo: ‘Vocês ferraram tudo’. E o Damon repete a palavra ‘paraíso’ até que o significado se esvazie e se torne o oposto. É tipo: ‘Adeus, vocês estão por conta própria agora'”.

Damon ri da interpretação. “É deprimente? Suponho que em alguns aspectos sim. Mas o desafio que nos propusemos foi fazer um álbum sobre a morte que fizesse as pessoas terem menos medo dela. A música pode realmente fazer isso? Não sei se conseguimos, mas já vi a música fazer as coisas mais extraordinárias. Você derrama a tristeza e bebe a luz”, arremata.

KONG STUDIOS E O FUTURO

“The Mountain” também marca o lançamento do selo próprio da banda, KONG, com distribuição global da The Orchard. “É difícil dizer o que é ainda”, admite Jamie. “Este ano foi louco – fizemos o álbum, a exibição de 25 anos, os shows em setembro, e agora preparamos a turnê. Criamos três anos de trabalho em um. Quando a poeira baixar, vamos realmente mergulhar no selo”, diz Jamie.

A turnê promete ser um espetáculo à parte, com datas já esgotadas no Reino Unido e uma grande apresentação no Tottenham Hotspur Stadium em junho. E a América do Sul? “Vai ser na melhor parte do ano”, garante Damon. “Não vemos a hora. É sempre uma parte muito divertida da turnê. Somos muito bem recebidos.”

Sobre a logística monstruosa de levar o Gorillaz à estrada, Jamie relembra: “Na turnê de ‘Plastic Beach’, por exemplo, tínhamos nove ônibus só de artistas. Voltamos da turnê mundial com nenhum dinheiro no bolso. Não por extravagância, mas pela quantidade de gente e equipamento.”

Gorillaz - Arte de divulgação do disco "The Mountain" (Jamie Hewlett/Divulgação)
Gorillaz – Arte de divulgação do disco “The Mountain” (Jamie Hewlett/Divulgação)

O LEGADO E A LIBERDADE

Após 25 anos, o que mantém a chama acesa? Para Damon, a resposta está na organicidade. “Nós fazemos quando estamos prontos. Não nos forçamos. Há um espaço entre os projetos. Cada um tem seus outros interesses. Quando voltamos, acontece organicamente, através de aventuras, conversas e colaborações. Ainda não é fácil, mas não é necessariamente desafiador. É apenas emocionante.”

Jamie, que passou uma década sem ouvir música intencionalmente (“não apertei um botão para ouvir música por dez anos, outras pessoas tocavam para mim”), agora se prepara para uma imersão. “Comprei 300 CDs selecionados. Vou entrar no meu bunker, ouvir, e sair de lá transformado novamente.”

Damon se admira: “Ele era o garoto da escola primária que usava todos os giz de cera. E ainda é.”

A ÚLTIMA LIÇÃO

Pergunto a ambos qual foi a memória ou lição mais dura de se engajar com a cultura indiana para criar este álbum.

“Sou fascinado pela história social de um lugar como a Índia”, diz Damon. “É tão interessante, satisfaz essa parte da minha alma.”

Jamie pondera: “Não é uma pergunta fácil de responder rapidamente. Mas as pessoas que conhecemos lá… atitudes muito diferentes das que conhecemos aqui. Isso foi muito forte para mim. Boas pessoas. E a comida do templo. E não tem nada a ver com o jeito que eles veem a morte. Para nós, é completamente diferente.”

Ele conclui: “Não foi por isso que começamos nossa jornada, mas aconteceu com nós dois. E acho que levamos isso juntos, tentando, de alguma forma, fazer sentido da loucura de tudo através do trabalho que fizemos.”

“The Mountain” é, acima de tudo, um lembrete de que a música pode ser um veículo para o transcendente. Em um mundo cada vez mais fragmentado, o Gorillaz continua construindo pontes – entre o virtual e o real, o Oriente e o Ocidente, a vida e a morte. E nos convidam, mais uma vez, para a festa na fronteira entre este mundo e o próximo.

Capa digital Gorillaz

“The Mountain”

Selo: Kong (distribuição The Orchard) 

  • “The Mountain” feat. Dennis Hopper, Ajay Prasanna, Anoushka Shankar, Amaan Ali Bangash e Ayaan Ali Bangash

  • “The Moon Cave” feat. Asha Puthli, Bobby Womack, Dave Jolicoeur, Jalen Ngonda e Black Thought

  • “The Happy Dictator” feat. Sparks

  • “The Hardest Thing” feat. Tony Allen

  • “Orange County” feat. Bizarrap, Kara Jackson e Anoushka Shankar

  • “The God of Lying” feat. IDLES

  • “The Empty Dream Machine” feat. Black Thought, Johnny Marr e Anoushka Shankar

  • “The Manifesto” feat. Trueno e Proof

  • “The Plastic Guru” feat. Johnny Marr e Anoushka Shankar

  • “Delirium” feat. Mark E. Smith

  • “Damascus” feat. Omar Souleyman e Yasiin Bey

  • “The Shadowy Light” feat. Asha Bhosle, Gruff Rhys, Ajay Prasanna, Amaan Ali Bangash e Ayaan Ali Bangash

  • “Casablanca” feat. Paul Simonon e Johnny Marr

  • “The Sweet Prince” feat. Ajay Prasanna, Johnny Marr e Anoushka Shankar

  • “The Sad God” feat. Black Thought, Ajay Prasanna e Anoushka Shankar

Faça o pré-save aqui

Abaixo, veja os clipes já divulgados do àlbum “The Mountain.

“The Happy Dictator” (feat. Sparks) 

“The Manifesto” (feat. Trueno & Proof)

“The God of Lying” (feat. IDLES) 

“Damascus” (feat. Omar Souleyman & Yasiin Bey) 

“The Hardest Thing” / “Orange County”