A IA não vai ocupar seu lugar no mercado de trabalho
História do desenvolvimento tecnológico pode nos deixar menos catastróficos

Gabrielle Guido, coordenadora de Projetos da IDW Company (Divulgação)
Estamos sendo bombardeados com debates sobre o uso da inteligência artificial: como ela impacta nossa cognição, qual o futuro do trabalho, listas e listas de empregos que vão acabar. As transformações são inegáveis, mas ao passo que funções morrem outras nascem. A pergunta é: que mudança é essa? Conseguimos conviver com ela sem parecer o fim dos tempos (analógicos)?
Quando a fotografia surgiu, achamos que a pintura ficaria reservada aos museus. Nossa percepção era de que éramos dominados pelas máquinas. Vilém Flusser, filósofo tcheco do século XX, escreveu que nossa relação com máquinas era “um jogo de Xadrez”. Era o mistério da Caixa Preta. Uma tecnologia quase mágica. Para ele, as imagens fotográficas abalariam até a escrita (ele dizia que havia uma crise do texto, a textolatria). O tempo foi passando e, apesar da sua inegável importância, a gente vê que o cenário de crise é um pouco diferente.
E a história se repete: o surgimento da televisão, em algum momento foi ameaça para o cinema; as notícias em tempo real, matariam o jornal impresso (ok, esse vive em crise, sabemos, mas morrer é forte.); o podcast mataria o rádio, mas o que vimos foi o rádio cada vez mais nichado e o podcast com outra liberdade criativa; Até os matemáticos, tinham medo das calculadoras eletrônicas, mas elas são inegavelmente insubstituíveis.
Para não dizer que nenhuma tecnologia ficou obsoleta: não temos mais a datilografia, só para os escritores hipsters e uma vibe analog que está se popularizando no Tik Tok. A tecnologia vem, a gente se adapta. Ela só surge pela nossa ânsia de resolver problemas.
E as palavras-chave são: adaptação e flexibilidade. A palestra: Thrive Or Survive: Why Creativity is the Key to an AI-Future (tradução livre: Prosperar ou sobreviver: por que a criatividade é a chave para um futuro com IA), com Ifeoma Ajunwa, Ned Johnson, Mike Pell e Andrea Virgin no SXSW 2026 traz essas duas palavras como um caminho para lidar com as intensas tensões que a inteligência artificial tem provado em nossa sociedade.
Não estou aqui dizendo que não há problemas, tem sim. Um dos pontos mais discutidos é a importância de manter um cérebro saudável para continuar criando. Isso significa lembrar que criar é também parte de uma musculatura, portanto se a gente só delega, a gente esquece como faz. Sabemos que é algo maior do que a nossa ação individual, envolve política pública, regulação das redes e a imensa força das Big Techs.
O que não podemos abrir mão é de estar na mesa de debate e surfar nessa teia de poderes, afinal de contas, estamos falando de uma das coisas mais importantes do que nos torna humanos: o poder de fazer conexões e de criar a partir disso. E por isso, os olhos estão voltados para a nova geração. Como Andrea Virgin disse: É fácil dizer “aff essa nova geração” e revirar os olhos, mas é ela que estará em breve no mercado de trabalho e junto conosco” (citação e tradução livre). E aqui, precisamos ficar atentas ao impacto no desenvolvimento do trabalho da juventude porque é o trabalho mediano que está em jogo. E neste contexto, como preservar o tempo do aprendizado?
Existem muitas dúvidas e debates, isso faz parte. Mas uma coisa é consenso: precisamos entender como formar uma sociedade que está integrada a essas ferramentas, entendendo as bordas e colocando-a como uma ferramenta de suporte e NUNCA como a realizadora principal de tarefas. E podemos aplicar isso às diferentes áreas: escrita, dia a dia no escritório, cálculo, etc.
Como disse o médico e neurocientista brasileiro, Miguel Nicolelis, não devemos temer que a Inteligência Artificial (IA) nos substitua, mas devemos nos preocupar profundamente com o que nós estamos fazendo e com nós mesmos ao utilizá-la. E mais, o termo foi apenas uma jogada de marketing: ele afirma categoricamente que a IA “não é nem inteligente e nem artificial”. Para ele, a inteligência é uma propriedade exclusiva da matéria viva e orgânica, uma característica adaptativa moldada por bilhões de anos de evolução e eventos aleatórios.
Por fim, é sobre entender o que é essa tecnologia e como usaremos ela. Na minha forma de encarar, a história está se repetindo, só que mais complexa e sofisticada, mas se repetindo. Nosso desafio é menos sobre substituição, fim de funções ou qualquer coisa do tipo, mas sim sobre uma atrofia cognitiva – quando deixamos de usar a energia do nosso cérebro da melhor forma possível. Nicolelis cita um estudo do MIT mostrando que jovens que usaram IA para escrever textos não lembravam do que haviam escrito e apresentavam 54% menos de conectividade cortical, ou seja, eles não estavam pensando, estavam no automático.
A mensagem deste texto é essencialmente uma: um robô que até o nome está errado não vai roubar seu emprego. O medo não nos ajuda a focar no que mais importa: entender de verdade a ferramenta para que a gente use da melhor forma. Ela não vai te substituir porque criar é inegociavelmente nosso. É sempre lembrar o que é da máquina e o que nos torna humanos. Nós já passamos por esse dilema e mesmo assim, chegamos até aqui.
*Gabrielle Guido é Coordenadora de Projetos da IDW Company. Graduada em Produção em Comunicação e Cultura pela UFBA e mestranda em Economia e Política da Cultura e Indústrias Criativas pela UFRGS/Itaú Cultural/ Ministério da Cultura, Fez parte da turma de 2023 do GNI Startups Lab Brasil – Google Brasil. Atua com economia criativa, na elaboração e avaliação técnica de projetos desde 2017 e teve iniciativas premiadas pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
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