Integrante da nobreza do jazz, Bill Charlap se apresenta em São Paulo
Pianista americano toca nesta terça-feira ao lado da cantora Dee Dee Bridgewater

O pianista americano Bill Charlap (Carol Friedman/ Divulgação)
Caso o jazz fosse dividido no sistema indiano de castas, Bill Charlap certamente pertenceria à dos brâmanes, aquela categoria formada por sacerdotes. O pianista, que se apresenta nesta terça no Teatro Cultura Artística (São Paulo), ao lado da cantora Dee Dee Bridgewater, pertence a uma nobre estirpe do gênero. A começar por seus pais, referência nesse universo.
“Minha mãe, Sandy Stewart, é uma grande intérprete de jazz, e meu pai, Moose Charlap, foi compositor da Broadway: criou os temas do musical ‘Peter Pan’ e foi gravado por Astrud Gilberto, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, entre muitas outras”, diz o músico à Billboard Brasil. “A música sempre desempenhou um papel crucial na minha vida. Tive sorte de tê-la ao meu lado o tempo inteiro”, concluiu.
Para ficarmos no gancho das castas, ele trata a música –mais especificamente o jazz– com a devoção de um clérigo. Diretor de Estudos para o Jazz na William Paterson University, em Nova Jersey, Charlap exibe, todo orgulhoso, uma pintura do saxofonista Charlie Parker (1920-1955), um dos pais do bebop. “Foi um presente de Tony Bennett, foi ele quem pintou esse quadro. Hoje mesmo estava pensando no lado pintor dele, em como a cor e a textura são partes importantes no modo como pinta suas obras”, confessa o pianista, que em 2015 uniu-se a Bennett num tributo lindo a Jerome Kern (1885-1945), um dos pais do cancioneiro americano.
Uma das qualidades mais notáveis de Bill Charlap é que ele atua tanto como solista quanto acompanhante –seja instrumentistas do quilate do saxofonista Gerry Mulligan (1927-1996), seu primeiro “chefe”, como cantores celebrados. Como é assumir essa posição de humildade perante ao seu companheiro de palco? “Humildade, diria eu, apenas diante da música, que está acima de todos nós. Mas quando você está com um cantor, é uma parceria, vocês estão tecendo uma tapeçaria juntos e em nenhum momento podemos assumir uma posição de choque”, explica. “Dee Dee uma pessoa que gosta de correr riscos, uma contadora de histórias, uma vocalista virtuosa, ótima improvisadora. Nós meio que mergulhamos de cabeça e confiamos um nos outros de tal forma que tudo é realmente espontâneo e improvisado. A parceria com Dee Dee tem humor, seriedade, riscos e improvisos ao mesmo tempo. E cada noite é uma performance diferente. Mesmo se tocarmos a mesma música, nunca será igual.”
Charlap iniciou seus estudos aos três anos e sua formação incluiu jazz e música erudita. Os primeiros trabalhos, como informado anteriormente, foram ao lado do saxofonista Gerry Mulligan, mestre da melodia e da improvisação. “Eu o adorava porque ele tocava saxofone barítono como se fosse um violoncelo. Esse era o som e essa era a extensão em que ele tocava, e ele tinha um dom melódico único, influenciado por Lester Young e Ben Webster, mas também por Charlie Parker e pela música moderna: ele poderia ir da Broadway ao bebop e à música de Antonio Carlos Jobim”, diz Charlap. “Foi uma grande aula sobre como trabalhar com um artista verdadeiramente original, que exigia o melhor de você. E eu gostaria de poder tocar com ele agora. Gostaria de ter tido a experiência que tenho hoje e que não tive naquela época. Eu era bem jovem, tinha vinte e poucos anos.”
A discografia do pianista está repleta de trabalhos grandiosos, mas pelo menos dois álbuns merecem atenção redobrada: “Somewhere: The Songs of Leonard Bernstein”, dedicada ao maestro e compositor americano, e “Plays George Gershwin: The Piano Soul”, que traz clássicos de um dos pais do cancioneiro dos Estados Unidos. “Os dois são essencialmente nova-iorquinos, intensos, judeus, e tinham em vista a ideia de uma grande música americana, que se equipara-se às tradições europeias – França, Rússia, Itália e Áustria”, por exemplo. “E ambos saem de backgrounds diferentes. Gershwin já havia escrito centenas de canções populares antes de compor ‘Rhapsody in Blue’, seu ‘Concerto para Piano’ ou ‘Sinfonia de Paris’. Já Bernstein já havia escrito quartetos de cordas, sinfonias e música para piano antes mesmo de compor ‘Lucky to Be Me’ e a trilha sonora de ‘West Side Story’, entre outras obras.”
Embora seja versado nos mais diferentes tipos de música, Bill Charlap confessa seu pouco conhecimento da composição brasileira. “Sou um grande, grande fã e tenho o maior respeito pela arte dos grandes artistas e compositores brasileiros, bem como pela estética. Mas sou filho de Tin Pan Alley”, diz, fazendo referência ao escritório de autores musicais da Nova York do início do século passado. Ele, contudo, se permitiu a uma incursão por um gênero local em “Double Portrait”, seu trabalho ao lado da mulher, a também pianista Renee Rosnes. “Chorinho” é uma composição do pianista Lyle Mays (1953-2020), que por anos acompanhou o guitarrista Pat Metheny –que nunca escondeu o amor pela MPB. O mesmo álbum traz “Ana Maria”, composição de Wayne Shorter (1993-2023), que o saxofonista fez para a mulher. “Ela era portuguesa, daí o nome. Mas sei dos trabalhos de Shorter com Milton Nascimento.”
E como o mestre de jazz Bill Charlap vê o desenvolvimento de seus alunos? Pelo que ele ensina e observa, existe futuro para o jazz? “São alunos especiais, que faço questão de ensinar individualmente. Claro, existem disciplinas rigorosas que todos precisam seguir, e nós temos que trabalhar muito duro nisso –mais ou menos como em uma Olimpíada– para alcançar o domínio necessário: esquecer a parte técnica da música e simplesmente se concentrar na essência. Isso leva muitos e muitos anos. Mas cada aluno é um indivíduo. E você pode ouvir atentamente o que pode ajudá-los a desenvolver o que é necessário para que alcancem o próximo nível de sua expressão. Então, tudo isso é uma espécie de conversa recíproca. É que talvez eu tenha um pouco mais de experiência do que eles, só isso. Mas eles são muito, muito sérios e muito singulares, e realmente têm uma história para contar, sabe? Eu também aprendi com eles”, explica.
Charlap aproveita a deixa para reforçar a importância de assistir ao recital desta terça. “Mal posso esperar para estar lá com a Dee Dee. Sabe, eu simplesmente a adoro e a admiro muito, e temos um carinho muito forte uma pela outra como amigos, e a Dee Dee tem a capacidade de se abrir. Ela deixa o público entrar. Ela é exatamente como você a vê”, derrama-se. “É uma das coisas que diferencia os cantores dos instrumentistas. Eu tenho este grande piano atrás do qual estou sentado. Tem pedais, abre, tem cordas, é feito de, sabe, pesa toneladas, poderia matar alguém com aquilo. Saxofonista, ele tem um saxofone, baixista, ele tem um baixo, sabe, baterista, ele tem uma bateria. Cantores lá em cima sozinhos, cara. É você. É Tony Bennett lá em cima sozinho. Ou Frank Sinatra, Carmen McRae… Eu adoro cantores porque quero que eles se sintam seguros, confiantes, quero que eles sintam que podem arriscar qualquer coisa”. Seja com risco ou não, assistir a Dee Dee Bridgewater com Bill Charlap é o mais próximo que se pode atingir do moksha, o estado de êxtase hindu.
BILL CHARLAP e DEE DEE BRIDGEWATER
Onde: Teatro Cultura Artística
(Rua Nestor Pestana, 196, centro)
Horário: 20h
Ingressos
https://culturaartistica.byinti.com/#/event/dee-dee-bridgewater-voz-e-bill-charlap-piano
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