“Walk down Portobello Road to the sound of reggae”. Foi nesse verso em inglês de Caetano Veloso que a palavra reggae apareceu pela primeira vez, paradoxalmente, na música brasileira. Em “Nine out of Ten”, lançada em 1972 no álbum “Transa”, Caetano anunciava a novidade que ouvia em suas caminhadas pela rua Portobello Road, em Notting Hill, durante o exílio em Londres.
Entre os jamaicanos que viviam por ali, é provável que ele tenha conhecido o disco “The Undertaker”, de Derrick Harriott & The Dynamites, sucesso na comunidade caribenha. Era o início do gênero: Bob Marley ainda não era uma estrela global e, no Brasil, quase ninguém sabia do que Caetano estava falando.
Em 2023, circulou um vídeo dele explicando a recepção da ditadura militar à canção: “O chefe da censura queria proibir o show, porque não sabia o que significava a palavra reggae. Eu expliquei, mas ele disse: ‘Por que eu tenho que acreditar em você? Eu quero provas’”, conta às gargalhadas no vídeo.
Sete anos depois, o cenário já era outro. Riba Macedo já estava espalhando o reggae no Maranhão e Gilberto Gil lançava “Não Chore Mais”, versão de “No Woman, No Cry” que foi uma das principais responsáveis por popularizar o ritmo no país. Foi nesse embalo que dois baianos, Jorge Alfredo e Chico Evangelista, decidiram abrasileirar de vez a batida jamaicana.
Em 1980, a dupla lançou “Bahia Jamaica”, primeiro álbum brasileiro oficialmente identificado como disco de reggae. Mas o som que criaram não era uma cópia do que Bob Marley fazia com a The Wailers. Jorge e Chico criaram uma síntese com a música da Bahia, especialmente o afoxé. O resultado foi um pioneirismo que, ao mesmo tempo em que propunha um jeito brasileiro de fazer reggae, antecipava fusões rítmicas que mais tarde desembocaram na Axé Music.
Salvador-São Paulo
Ambos nasceram em Salvador, mas se conheceram apenas em São Paulo, talvez porque circulassem em ambientes diferentes da cena baiana. Em pleno momento de expansão do reggae, Caetano e Gil haviam voltado do exílio, moravam em Salvador e davam as suas colaborações ao gênero. Ao redor dos dois, muitos jovens circulavam, inclusive Jorge. Era um meio de artistas e intelectuais pós-tropicalistas. Hoje com 75 anos, ele lembra desse período como de amadurecimento artístico, produção intensa e bastante colaborativo. Ele mesmo quase teve uma das suas primeiras composições, “Rato Miúdo”, gravada por Gil no álbum “Refazenda”, de 1975. Mas a música acabou censurada pela ditadura e ficou de fora.
Nesse primeiro momento da carreira, Jorge montou alguns shows marcantes. O primeiro foi “Salve o Prazer”, com a turma pós-tropicalista que incluía Armandinho Macêdo e Era Encarnação, na banda, e Antônio Risério colaborando nas composições. Depois vieram “Jeito de Viver”, com o qual rodou o Norte e o Nordeste, e o “Banda Elétrica Kamaiurá”, que marcou a sua despedida de Salvador indo para São Paulo. Nesse período também ele teve o primeiro contato com o cinema, quando participou, em 1977, da banda que fez a trilha sonora do filme “A Idade da Terra”, dirigido por Glauber Rocha.
E foi a vontade de investir na carreira que fez Jorge se mudar para São Paulo. O objetivo era gravar o seu primeiro disco. Logo que chegou, em 1978, conseguiu um trabalho no jornal Diário Popular para escrever sobre música. Semanalmente, ele produziu matérias e entrevistas com novos nomes à época: Marina (antes de ser Lima), Zizi Possi, Beto Guedes. Teve também alguns mais consolidados, como Tom Zé e Raul Seixas. Foi nessa fase, ainda como jornalista, que conheceu uma banda de conterrâneos seus: o Grupo Arembepe, liderado por Carlos Lima, Kiko Tupinambá, Dinho Nascimento e o seu futuro parceiro Chico Evangelista.
O Arembepe começou a tocar em Salvador de forma espontânea no início da década de 1970. O som deles misturava as músicas das festas de largo da cidade, dos candomblés, da Jovem Guarda e basicamente tudo que tocava na rua da cidade no período. A grande aceitação em Salvador animou os jovens artistas a se arriscarem numa viagem para o Rio de Janeiro, onde se instalaram inicialmente em pensões e casa de familiares enquanto buscavam um espaço no circuito musical.
A primeira tentativa de entrar na cena foi no Teatro Tereza Rachel, que apresentava novos nomes em sessões que começavam à meia-noite. Contudo, foram informados que precisariam ter algo gravado para participar do projeto. Então, seguiram para a segunda opção, a Phillips, que na época tinha contrato com Gil e Caetano. Lá, ouviram que a gravadora já tinha baianos demais, porém foram encaminhados para a Odeon. Na terceira porta que bateram no Rio, as coisas começaram a dar certo. O som inovador chamou a atenção do produtor Renato Corrêa, que colocou o Arembepe no estúdio. Então, em 1974, eles lançaram um compacto com as músicas “Iaiá” e “Lá na Esquina”. Nas gravações tiveram as participações de João Donato no piano elétrico e Wilson das Neves na bateria.
Contudo, a carreira fonográfica do grupo não foi muito mais longe e o segundo compacto, lançado no ano seguinte com “Rosa Mulher” e “Afoxé Ponto de Oxossi”, encerrou a discografia do Arembepe. Eles continuaram a fazer shows até 1982, com um repertório que ainda hoje segue inédito em álbum. Chico Evangelista seguiu com o grupo apenas até 1978, pois logo após o encontro com Jorge ele seguiu em carreira solo.
A parceria e o disco
Com o fim de seu vínculo com o Diário Popular em 1979, Jorge voltou-se à música e se aproximou-se da gravadora Copacabana Discos. Enquanto gravava seu primeiro LP, começou a compor com Chico Evangelista. A primeira parceria da dupla foi “O Dia”,seguida de “Reggae da Independência”, inscrita no Festival da Canção da TV Tupi. A música foi defendida por Chico, mas as referências nada óbvias à cidade de Salvador e ao 2 de julho de 1823 a fizeram não ser compreendida nem pelo júri nem pela plateia. Se em 2025, o evento histórico das guerras da Independência do Brasil na Bahia é pouco difundido no restante do Brasil, imagine em 1979…
Mesmo assim, a canção foi muito elogiada por nomes como Jorge Ben e Caetano Veloso – este, aliás, declarou à imprensa que ela era “a melhor canção do festival e não foi classificada porque o júri era branco”. O comentário ajudou a projetar a música, o que rendeu a Chico a oportunidade de lançar um compacto com as parcerias já feitas com Jorge Alfredo, e os dois seguiram compondo juntos.
Na noite da eliminatória, comemoraram o resultado em um bar e escreveram “Rasta Pé”, canção que os levaria ao Festival da MPB da Rede Globo no ano seguinte. O sucesso da apresentação, com a Banda Axé, montada especialmente para acompanhá-los, e a participação do afoxé Badauê desfilando pelo teatro, rendeu um compacto de vendagem expressiva e abriu caminho para o álbum.
Com o contrato assegurado, Jorge e Chico decidiram fazer um disco temático que aproximasse Bahia e Jamaica. A inspiração veio de Dorival Caymmi, que certa vez disse em entrevista: “O tambor que bate aqui é o tambor que bate lá”. A frase virou mote.
Lançado em setembro de 1980, “Bahia Jamaica” reuniu dez faixas que celebravam esse encontro de tambores. O sucesso do festival e do disco levou a dupla a uma rotina intensa de shows pelo país e, em 1981, ao lançamento da versão japonesa do álbum (que Jorge só soube anos depois) e à gravação de mais um compacto com as músicas “Felicidade Morena” e “Pipoco da Chinfra”.
Esquecimento e redescoberta
A partir de 1982, os dois seguiram caminhos distintos. Jorge ainda lançou um compacto com “Esperando Badauê” e “Carapiaçaba”, mas logo voltou para Salvador e migrou para o cinema e para o audiovisual. Só em 2020 retornou pontualmente à música com o álbum “Suave Distopia”. Chico Evangelista continuou gravando até o final dos anos 1980, retomando apenas em 2011 com o álbum “Luz e Cor”. Ele morreu em 2017, aos 64 anos, pouco depois de voltar a se reunir com o Grupo Arembepe para registrar o repertório inédito, projeto incentivado por Caio Beraldo, mas interrompido com sua morte.
“Bahia Jamaica” poderia ter sido apenas uma aposta comercial da Copacabana Discos, surfando na onda do reggae, mas a insistência em um conceito temático transformou o álbum em um marco. Relançado em CD em 1996 com a inserção das faixas-intrusas dos compactos de 1981 e 1982, seu valor histórico e artístico está na edição original. Se for buscar nos streamings, procure o de capa branca. É nele que o tambor que bate aqui se encontra com o de lá.








