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Fome de arte: conheça a diretora criativa Fernanda Correrua

Fome de arte: conheça a diretora criativa Fernanda Correrua

Entre brechós e aulas, ela construiu trajetória na contramão da elitização

Fernanda Correrua

Nascida e criada no Grajaú, Zona Sul de São Paulo, Fernanda Souza – também conhecida como Fernanda Correrua – se descreve como uma mulher comum, mas muito curiosa. Aos 30 anos, sua trajetória até a indústria do audiovisual foi marcada por desafios sociais: abandono familiar, racismo, violência policial e gravidez na adolescência.

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“Eu tinha medo de me considerar artista, porque achava que não era para mim, que não era possível”, conta a diretora criativa e fotógrafa (especializada em imagens analógicas) para a Billboard Brasil. Contra as expectativas de uma indústria elitista, o sonho de viver da arte virou realidade.

A curiosidade de Fernanda a levou à liderança de campanhas para grandes marcas, como Nike, Mizuno e Lacoste, à direção de clipes de Ajuliacosta e consultoria para a série “Sintonia”, da Netflix, além de realizar projetos audiovisuais com MC Hariel. Em 2025, ela foi contratada como diretora na DLKTSN, uma das maiores produtoras de audiovisual do Brasil.

Fernanda construiu sua formação acadêmica com esforço. Foi bolsista em Letras no Instituto Presbiteriano Mackenzie, em São Paulo. Enquanto estudava, acumulava empregos para se sustentar e pagar os gastos dos estudos. Trabalhou em uma rede de fast food, em telemarketing, e em lojas de surfwear, além de limpar casas e ser babá de famílias ricas.

“Sempre estive em contato com pessoas de outro mundo social. Muitas vezes comentam que sou xucra ou firme demais, às vezes até briguenta, mas não sabem de onde eu vim e por onde passei”, afirma. O contato com a música, moda e o hip-hop era graças a um “gato” na rede elétrica, que possibilitou à sua família assistir à MTV em uma televisão de tubo em casa.

Quando vi o primeiro clipe do Kondzilla, eu falei: ‘É isso’. Me identifiquei. O que faço hoje sempre esteve dentro de mim”, diz Fernanda, referindo-se ao vídeo de “É O Fluxo”, do MC Nego Blue, lançado em setembro de 2012.

MC Hariel em projeto com Fernanda Correrua
MC Hariel em projeto com Fernanda Correrua (Amanda Adász)

De 2013 até 2020, a jovem trabalhou como professora de português da rede pública, lecionando em escolas consideradas as piores da região sul da capital paulistana – em bairros como Santo Amaro e Grajaú. Seu objetivo era tornar os alunos letrados, conectando educação e realidade social. Nas aulas, incentivava trabalhos envolvendo fotografia e vídeos.

“Às vezes usavam meu celular”. Atrás do sonho, Fernanda folheava revistas de moda em busca das fichas técnicas e estudava os profissionais por trás dos ensaios editoriais. Após a pandemia, ela pediu demissão e, com a rescisão, organizou um editorial que viralizou nas redes sociais.

“Esse trampo mudou minha vida. Eu carregava um fundo azul [de fotografia] nos braços nas ruas. Peguei cada centavo para fazerem o tratamento das fotos. O retorno foi financeiro, social… Foi quando realmente vi meu potencial, me enxerguei”

Recentemente, ela voltou às salas de aula. Agora, para ensinar técnicas e ferramentas de direção criativa no Projeto Click na Favela, em Paraisópolis, São Paulo, para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. “Eu tinha fome de justiça social, pessoal e de gênero. Passei por muita coisa, mas essa trajetória contribuiu para quem sou hoje. Quero me ver no mundo. Preciso de mais três vidas para poder executar todas as ideias que eu tenho.”

[Esta matéria faz parte da 18ª edição da Billboard Brasil. Adquira sua revista aqui.]

Projeto de Fernanda Correrua
Projeto de Fernanda Correrua (Amanda Adász)

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