Por que alguém quebraria 13 videogames para alegrar Marisa Monte?
Batman Zavareze, diretor visual da turnê "Phonica" tem a resposta —e outras mais
Apesar do apelido, Batman Zavareze está mais para hacker do que para herói sombrio. Quando fala com a reportagem, está em Brasília, à beira de um mapeamento visual em uma reinauguração importante na capital federal, ao lado de Arnaldo Antunes. Não é à toa: sua trajetória é uma das mais documentadas da cena cultural brasileira.
Também está em turnê como diretor visual do atual show do Planet Hemp e, mais proeminentemente, é parceiro de Marisa Monte na turnê “Phonica” — na qual a cantora e compositora, mais do que alguém com afinidade, é pesquisadora junto a ele para encontrar soluções visuais que já o fizeram quebrar 13 videogames Wii. Essas soluções têm raízes em experimentações que o artista começou a desenvolver ainda como funcionário da MTV, talvez o lugar mais experimentalmente visual das sintonias VHF/UHF brasileiras. O sinal gratuito que enfeitiçou muitos jovens tinha a marca de Zavareze — um obcecado por super-heróis e por soluções visuais. O apelido, aliás, virou assinatura depois de um empurrão de Zeca Camargo.
Em uma conversa de uma hora com a Billboard Brasil, o artista visual é provocado a contar muitas das coisas já compartilhadas em entrevistas, mas por ângulos que revelem como é esse ping-pong binário-visual, decodificado pela parceria que começou em 2012 e ultrapassa o profissional: é também um diálogo artístico e afetivo que se estende por diferentes fases da carreira de Marisa.
Billboard Brasil: Você participa de uma fase da Marisa que deve ser curiosa para a própria. Muitas pessoas, mais novas, que estão vendo aquele ícone pela primeira vez, reconhecendo-a, espero, como tal. Qual foi a sua primeira vez tendo esse deslumbre?
Trabalhando na MTV, nos anos 1990, já via a Marisa como uma artista muito diferenciada. E, depois, o primeiro show em que me toquei disso e fui realmente impactado tinha o cenário do Ernesto Neto [artista plástico carioca, escultor de obras que ilustraram turnês importantes de Marisa como o “Memória, Crônicas e Declarações de Amor”, do começo dos 2000]. Eu vi nove vezes.
Com privilégio de trabalhar na MTV, eu vi as pessoas, eu vi a montagem, eu via como aquilo era feito. Eu sentava em diferentes lugares sem nenhuma pretensão e sonho, mas já entendendo que aquela artista me provocava muito no campo visual.
Todos os meus encontros com a Marisa têm uma fronteira que vai se embaralhando entre artes plásticas, experiências audiovisuais, como foi o último em “Portas”.
Em “Portas” vocês colocavam um museu de cabeça para baixo. Para “Phonica”, como foi a busca?
Eu tava numa sequência de fazer museus dentro e fora Brasil, museus imersivos, mas fugindo das experiências de entretenimento. No “Portas”, ao invés de projetar no chão, a gente projetou no teto. Agora, esse, investiga essa coisa das percepções mais holográficas, mais tridimensionais dentro do palco, que podem somar àquela experiência presencial. Então, são coisas que a gente já vem conversando pelo menos no último ano. E isso é um privilégio.
Você diz em relação ao tempo que ela te dá para trabalhar uma ideia?
A primeira vez em que a gente fala normalmente de um projeto novo, eu tenho pelo menos seis ou oito meses ou nove meses, assim. Então, isso para mim já é um diferencial. É um envolvimento, uma contribuição radicalmente artística e diferenciada de tudo que eu já fiz. Talvez só trabalhando nas Olimpíadas que eu tenha tido um prazo longo assim, que foram três anos, é tão potente quanto a Marisa. E a Marisa é uma artista que dirige, né? Ela não, ela não fala só os gostos dela, ela é realmente uma, ela se dedica à pesquisa.
Eu fui aproveitando as viagens dela, aproveitando o final da turnê do “Portas”, em que ela ainda tava fazendo as viagens internacionais. A gente começou a cruzar. “Olha, vai ter um show de tal artista, vamos lá ver, tem uma uma exposição que tá acontecendo”.
Deixe eu aprender com vocês, então. O que vocês viram?
Vou fazer um exercício de lembrança aqui. Me pegou desprevenido. Em janeiro, eu tava fazendo um trabalho em Nova Iorque e ali eu eu mergulhei muito numa coleção de construtivismo que tava acontecendo no MoMA, do Rafik Anadol [turco-americano, considerado pioneiro em construção com dados e inteligência artificial]. Também teve o show da Adele que foi outra coisa que coincidiu nessa viagem — e a Marisa também já tinha visto.
Basicamente, é o sonho de um artista, não? Trabalhar com alguém que te considere artista e que veja aquele desenvolvimento como uma parceria, não como um contratante.
A primeira vez que eu encontrei Marisa, eu mapeei o corpo dela — e não existia essa possibilidade técnica, tecnológica de mapear um corpo tridimensional em movimento.
Que foi quando você hackeou o Wii, né?
Eu quebrei 13 Wii! Em que outro lugar eu teria essa possibilidade? Quando você vai fazendo esse processo e juntando conhecimentos, você consegue alguma proposta de inovação. Lá atrás a Marisa já fazia o que hoje é comum: o timecode. Essa precisão, esse rigor do espetáculo que gera muitas possibilidade. O trajeto e também o tempo que a gente começa a discutir acaba trazendo para mim uma situação muito confortável que é experimentar e testar e errar, errar, errar e chegar na estreia, mesmo com as inseguranças e ansiedades (que qualquer artista tem que se deparar com uma estreia). Mas é muito seguro porque com alguns caminhos eu não vou me preocupar, porque eu já testei, já errei — e alguns erros eu incorporo como uma linguagem.
E como foi testar isso até virar natural incorporar esses testes, esses erros?
As pessoas da equipe, de câmera, dos efeitos, perguntam mais uma vez. Passa um dia e no seguinte já vem um “tem certeza? É isso mesmo que você está me pedindo?” E eu falo: “É, vamos errar, vamos errar.”
Me dá um exemplo.
São coisas tecnicamente delicadas, poéticas. Hoje, quando você chama um editor, ele tem que ser um exímio cortador, preciso. E, em alguns momentos, eu estou chamando ele para não fazer corte nenhum. Isso cria um embaralhamento maluco: eu estou chamando câmeras incríveis, com um olhar super sofisticado para fazer uma música inteira desfocada. É desfocada!
“Eu quero ela completamente em partículas e a roupa dela. E a luz que vai estar iluminando, vai se transformar num grande efeito visual”. Em vez de você criar um conteúdo prévio, artificial, a gente constrói ao vivo. E, para isso, eu preciso de uma cumplicidade muito grande. O profissional vai precisar se desconstruir. Vai ter que olhar para aquela tela e imaginar que não está fazendo um uma transmissão tradicional. Às vezes, uma composição tem cinco câmeras construindo uma única imagem — eu preciso que esse profissional tenha uma escuta muito diferenciada.
Pedir algo completamente desfocado para um câmera é quase pedir para ele ter um infarto, né?
Ainda mais hoje, geral pensando com cabeça de “audiovisual para YouTube”, de “conteúdo para rede social”. Tem que ser assim pra engajar, tem que ser assado para não dispersar.
E esses efeitos que são sobrepostos não são nada mais que um desfoque para a gente tirar esse mundo super-mega-ultra-4K, super-HD-8K. Chatas. A gente vê, sei lá, o poro, o cravo que está na nossa pele que ninguém quer mostrar.
Hiper-realismo absurdo.
É! Basta de realidade, vamos entrar num mundo de poética. Vamos sonhar um pouquinho, né? Só um pouco, né?
Gozado pensar também que essa liberdade que você tem com a Marisa tá longe de ser possível nas oportunidades mais comuns na música mais comercial, não?
É. A Marisa, primeiro, tem muito escuta. Dois: ela sabe o que ela quer, pesquisa. É de uma ousadia tremenda ela embarcar nessa viagem. A primeira referência que ela nos trouxe era do século XVI, era é Rembrandt. Hoje a gente tem uma frase dentro da equipe, dos light designers, com o Arthur Farinone: a gente chama de “luz Rembrandt”. Vamos fazer a “luz Rembrandt”.

Então, ela pesquisa, traz imagens, quadros. Às vezes, ela fala de um filme: “Você já viu esse filme do [François] Truffaut, esse do [Federico] Fellini?”. Ela tem uma consistência — e eu gosto de embaralhamento, de colocar muitas camadas para achar alguma autoralidade. Ela foge das referências convencionais.
É isso, não sei se eu me perdi na sua pergunta.
De jeito algum. Você falou do Ernesto Neto, de você acompanhando o trabalho dele durante o final dos 1990 e o começo dos 2000. Você chegou conhecê-lo pessoalmente, teve trocas com ele antes de assumir um trabalho que ele vinha fazendo já com muita identidade?
Eu conheci e o conheço. Mas quando fui convidado ainda teve o Claudio Torres durante a turnê “Infinito Particular”. Então, eu estava muito envolvido com o Cláudio, que é um parceiro de vida da Marisa. Ele foi incentivando essa parceria que nós tivemos, incentivando a Marisa, que foi tendo mais confiança em mim — a confiança que talvez nem eu tivesse em mim mesmo.
Ó, eu resgatei aqui uma matéria sobre a turnê “Memórias…” da Marisa, e ela tava na Folha de São Paulo tentando evitar que o jornalista a rotulasse como cantora “cult”. E eu passo um pouco dessa bola pra você: como é estar no mainstream mas fazendo coisas na contramão dele – e, ao mesmo tempo, sei lá, sendo muito bem aceito?
É, Yuri… A Marisa é um despertar. O fato dela ser adorada por diversas linguagens da música… Ela, eu acho, reflete muito do que eu tô vivendo hoje, né? Hoje eu tô fazendo uma direção artística ou a direção visual do Planet Hemp, do Arnaldo Antunes, do Paulinho da Viola, do Zeca Pagodinho… Do novo show do Xande de Pilares, do próximo da Marisa, que vai estrear já já. Acabei de terminar uma turnê bem enorme do Natiruts, de estádio… Do show do Ney Matogrosso. Por que eu tô falando isso?
Porque são artistas de visões e lugares diferentes que convergem no seu trabalho.
Isso. Então tem muitas convergências que eu poderia tranquilamente cair numa fórmula e me autoplagiar. A Marisa, ela acabou, eu acho que, despertando. Eu tenho que me interessar pelas coisas que eu nunca fiz. Eu tenho que investigar coisas novas.
——————————–
A série de shows “Phonica” terá o maestro André Bachur no comando de 55 músicos de uma orquestra sinfônica junto da banda da Marisa Monte: Dadi Carvalho no violão e guitarra, Pupillo na bateria, Alberto Continentino no baixo e Pretinho da Serrinha no cavaquinho e percussão
Agenda PHONICA Marisa Monte & Orquestra Ao Vivo
18/10 – Belo Horizonte – Parque Ecológico da Pampulha
01/11 – Rio de Janeiro – Brava Arena Jockey
08/11 – São Paulo – Parque Ibirapuera
15/11 – Curitiba – Pedreira Paulo Leminski
29/11 – Brasília – Gramado do Eixo Cultural Ibero-Americano
06/12 – Porto Alegre – Parque Harmonia








