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‘O Novo Sempre Vem’ traz essa gente bronzeada mostrando seu valor

‘O Novo Sempre Vem’ traz essa gente bronzeada mostrando seu valor

Programa apresentado por João Marcello Bôscoli traz talentos emergentes da MPB

O produtor musical João Marcello Bôscoli (Divulgação)

Trama NaCena é um simpático estúdio situado na zona sul de São Paulo. Encalacrado entre residências e um colégio, ele, a princípio, parece uma casa comum daquela vizinhança. Mas basta adentrar no local para nos deparamos com uma Wakanda urbana, onde o clima acolhedor se mistura à melhor tecnologia que um músico pode ter à sua disposição. 

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As salas de gravação do local, por exemplo, foram cenário do último DVD da cantora Ana Cañas e receberam o cantor e compositor Nando Reis. Recentemente, o quarteto de rap Racionais MC’s fez a pré-produção de seu próximo disco (que foi finalizado em Nova York) naquele local. Nos últimos tempos, o Trama NaCena tem sido palco também de uma pequena revolução no mercado musical. Ali, em meio a nomes de alto gabarito do showbiz nacional, um punhado de artistas iniciantes e outros com uma trajetória de respeito no mercado alternativo se une para as gravações de “O Novo Sempre Vem”, programa apresentado pelo músico e produtor João Marcello Bôscoli e que tem como objetivo mostrar ao público o que existe de mais interessante e – por que não dizer?– instigante no cenário alternativo brasileiro. 

O programa, que estreia no canal da Trama (empresa dirigida por João e pelo seu sócio, o empresário André Szajman) dia 30 de setembro na TV Cultura (São Paulo) e no canal da Trama no YouTube, é uma variação da atração de mesmo nome, que é transmitida na Novabrasil FM. Mas com diversos atrativos a mais. Enquanto naquele aparelho criado pelo italiano Guglielmo Marconi (1874-1937) permite apenas duas canções por programa, o formato televisivo traz praticamente uma mini performance dos convidados, com direito a imagens captadas em 4K e áudio multicanal. Os convidados tocam o melhor de seu repertório e os depoimentos, na maioria das vezes, se resumem a uma vinheta. As intervenções de Bôscoli são mínimas e pontuais – a ideia é ter música rolando o máximo de tempo possível. “É necessário haver agrupamentos de lugares onde as coisas acontecem: uma casa noturna, um estúdio, um selo, um programa de rádio ou de programa de televisão, alguma coisa na internet…”, enumera João Marcello. “Nossa contribuição para esse momento seria o estúdio porque proporciona uma documentação que permite que ela seja visitada em qualquer tempo.” 

“O objetivo principal é criar um espaço para novos nomes na cena, onde eles podem registrar suas músicas, sua imagem, e ter um material de boa qualidade para auxiliar na divulgação. Queremos contribuir com pessoas que estão fora do chamado mainstream. Isso alimenta a alma”, complementa André Szajman, sócio de João no projeto. “A sede de realizar, o brilho nos olhos e a energia dos artistas são fascinantes.” 

O violonista Will Santt (Divulgação)

A gênese de “O Novo Sempre Vem” nasceu de uma visita de João e André aos acervos da Trama – que nasceu em 1998 e foi uma das gravadoras que mais lançou nomes no mercado musical nos últimos tempos. Durante o processo de digitalização do acervo da companhia – material que também comporá a programação do canal Trama –, a dupla comentava sobre novidades do universo musical que porventura um ou outro estava escutando. Não demorou para eles perceberam que estavam diante de um novo projeto. 

O terceiro integrante do grupo é o diretor e produtor Luciano Cury, que tem no currículo passagens pela TV Bandeirantes e pelo canal Arte1. É dele a responsabilidade de transformar as ideias de João Marcello e André para o canal. “Eu dou forma à coleção dos artistas no estúdio. Tenho visto  músicos variados, de diferentes influências e um colorido muito grande”, diz Cury. “João consegue olhar o que há de melhor na música brasileira. Tem essa percepção e a consciência do que é preciso fazer para que a música seja vista e ouvida como merece”, completa. 

Em “Tocador de Violão”, uma das letras da safra recente de Paulo César Pinheiro (um dos maiores compositores da MPB em todos os tempos), ele professa que ser músico é como pertencer a uma casta diferenciada ou uma sociedade – como, por exemplo, os maçons. Pois os versos de Pinheiro foram lembrados nas vezes nas quais a reportagem da Billboard Brasil esteve presente nas gravações. Ou seja, quem é do ramo se conhece. Havia ali não apenas um comprometimento com a música que iriam apresentar como todas as conversas giravam em torno do processo de composição (havia uma ou outra anedota sobre as trapalhadas de um certo cantor, mas foi uma exceção). 

Outro detalhe que chama bastante a atenção foi a variedade musical dos convidados. A escalação ia desde a nova bossa nova do cantor e compositor Will Santt ao pop ensolarado da dupla Benziê, da mistura de jazz com funk carioca do trombonista Josiel Konrad ao amálgama de rock e ritmos afro-brasileiros da cantora Bea Duarte, da MPB de Vanessa Moreno ao afro/funk/folk do grupo Tuyo

O grupo Tuyo (Divulgação)

As gravações de “O Novo Sempre Vem” foram feitas em maio passado e até agora contam com 64 nomes – mais do que o suficiente para duas temporadas. O investimento inicial é de 750 mil reais e no momento João Marcello e André buscam patrocinadores para o projeto. Os convidados, por seu turno, também irão lucrar com o programa. “O modelo contempla uma participação do artista nos rendimentos futuros, inclusive no modelo clássico de patrocínio de marcas fundadoras. Mas ainda estamos buscando a melhor forma de custear o investimento”, diz André Szjaman. 

A dupla Benziê (Divulgação)

“O Novo Sempre Vem” é um bálsamo para os músicos, que nos últimos tempos foram recrutados mais para ser objeto de gracinhas na televisão – participar de brincadeiras, dar entrevistas para falar de intimidade em vez de de seu trabalho – do que mostrar o que têm para oferecer. “Participar de ‘O Novo Sempre Vem’ foi como receber um sinal de que estamos no caminho certo. Num país onde o espaço para a música autoral independente ainda é raro, ser visto, ouvido e valorizado por quem admiramos é um presente imenso. Mais ainda porque o convite veio exatamente no momento em que queríamos gravar o nosso álbum ao vivo, e isso aconteceu ali! É muito lindo sentir os olhos atentos de quem ainda acredita e quer descobrir o melhor da nova música brasileira”, diz Du Pessoa, que compõe a dupla Benziê ao lado de Vic Conegero. “O programa tem uma superestrutura e, ao mesmo tempo, tem um clima descontraído. É sempre bom trazer minhas composições e divulgá-las para o público”, diz a Vanessa Moreno, que se apresentou ao lado do cantor Tarcísio Santos.  

João Marcello Bôscoli foi influenciado pela música muito antes de nascer. Ele –literalmente– teve seus primeiros contatos com essa arte na barriga da mãe, Elis Regina: ela só deixou o palco quando completou oito meses de gravidez. A primeira incursão do jovem João se deu aos 3 anos quando assistiu, in loco, à gravação de “Elis & Tom”, obra-prima da música brasileira. No final dos anos 1990, uniu-se ao empresário André Szjaman na criação da gravadora e produtora Trama. Em mais de uma década de existência, a companhia amparou desde talentos da MPB como Max de Castro e Simoninha, aos eletrônicos Fernanda Porto, os DJs Marky e Patife, além do universo do rap e do rock alternativo. Max de Castro, aliás, estampou uma edição da revista americana Time ao lado de nomes como Shakira e Björk

 “A música é uma atividade que ajudou a apresentar o Brasil ao mundo”, reconhece João Marcello. Elis Regina cantou certa vez que “O Brasil não conhece o Brasil/ O Brasil nunca foi ao Brasil…” (em “Querelas do Brasil”, de João Bosco e Aldir Blanc). O filho de Elis, por seu turno, mostra em “O Novo Sempre Vem” uma nação musical que está doida para ser reconhecida. 

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