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A Gloria Groove é o ‘homem da casa’

A Gloria Groove é o ‘homem da casa’

Por trás da drag, um cara comum da Zona Leste de SP, que celebra sua verdade 

Gloria Groove estrela edição da Billboard Brasil

Um galpão repleto de alegorias lúdicas, em um bairro residencial de São Paulo, soava como um glorioso portal. Ao fim de um corredor nos fundos do imóvel, numa sala de estúdio: camadas e camadas de brilho, glamour e ousadia reluziam no rosto de Daniel Garcia, para dar espaço à Gloria Groove. A longa cabeleira emoldurava o porvir. O corpo ainda receberia trajes inusitados para a drag que costuma sensualizar com looks marcando a silhueta.

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Desta vez, optou pelo dandismo, alfaiataria clássica. O estilo do século 18, com origem no termo “dândi”, significa algo como requinte. Surgiu na Inglaterra, inicialmente entre homens brancos, e mais tarde foi reivindicado por pessoas negras escravizadas como símbolo de poder e subversão. O movimento teve um resgate recente no MET Gala 2025, com nomes como Doechii, Rihanna, Bad Bunny e Doja Cat. Foi a inspiração para nossa menina de vermelho de terno, na produção exclusiva para a Billboard Brasil.

“É uma vestimenta que permite o acesso a lugares onde a pessoa de repente não estaria. Então, como que eu vou dizer que isso não se conecta com a minha vida? Uma vez que eu aceitei a elegância e a exuberância de ser quem eu sou. Essa mistura entre masculino e feminino me atrai, gosto quando tudo embaralha”, provoca Gloria, dando o tom do papo, ora como criatura, ora como criador.

Sua vida é uma dança entre dois mundos, onde a diva dos holofotes é apoiada por uma mente engenhosa. Tal dualidade, apesar de complexa, é o combustível criativo para explorar novos horizontes, seja no palco ou na vida pessoal. E, mais recentemente, também no campo emocional.

“É preciso muita coragem para se olhar no espelho. Que loucura: eu, que passo boa parte do meu tempo me olhando em um espelho, tive que achar outras formas de fazer a mesma coisa, mas de uma maneira completamente revolucionária. Então, reforço o quanto é importante para jovens artistas que pretendem fazer da indústria do entretenimento a sua vida: a gente tem que se conhecer cada vez mais e mais, para poder lidar com as inúmeras questões que vão aparecer no caminho. E eu sinto que só agora, aos 30 anos, eu estou tendo a sensação de que estou dirigindo a minha própria vida”, comenta o multiartista, ao dividir que iniciou um processo terapêutico no meio do ano passado.

A jornada de autoconhecimento abriu espaço para muitas descobertas, inclusive para entender a sua própria verdade: “Tenho escutado muito mais a minha voz de dentro. O que eu criei a partir da Gloria e o que agora a Gloria criou em mim… É uma voz que tem ficado cada vez mais alta, a voz da minha autopercepção. E compreender minhas próprias questões tem sido muito libertador. É algo que eu amo muito; porque mantém minha cabeça criativa, viva, interessada e em constante transformação.”

“Sentir o peso da minha própria criação, do que posso fazer ou deixar de fazer, às vezes me deixa refém, acho que é até normal. Porque, no fundo, a gente acaba se vendo pelos olhos do outro, e aí, quando percebi que isso me limitava, ou que me fazia acreditar que eu era um refém do que eu pensava que os outros pensavam. Aí encontrei a maior jaula que eu mesmo construí. Assim, percebi que o meu maior desafio é continuar me libertando,” desabafa.

Essa busca por liberdade e por uma narrativa autêntica nunca foi fácil, mas sempre fez parte de seu caminho. Quando a Gloria sobe ao palco, o Daniel é quem analisa a situação toda, como se estivesse de fora, “dirigindo um carrão” que parece sempre pronto para acelerar. E, quando o Daniel volta para casa, Gloria Groove se torna o botão que ele não consegue desligar — é a faísca que acende toda sua criatividade, que lê uma frase em um livro e fala: “Quero ver se isso vira uma música.”

 

O aplauso vem como parte de todo esse processo: “É a resposta que recebo do universo depois de lançar minha vida, minha arte e meu estilo no mundo. É um indicador, uma confirmação de que vale a pena continuar fazendo a diferença. Cada aplauso é um reconhecimento que me impulsiona a seguir adiante.”

Por trás do universo lúdico, há ainda uma outra faceta, muitas vezes invisível: é quem dá conta do que há de mais valioso em sua vida — a estabilidade, o cuidado, o amor. “Tenho o Daniel, homem da casa, que acho que as pessoas não veem. É o Daniel, que é o marido do Pedro, que é pai da Lola e do Nico [seus pets], que é filho da Gina, e que tem todas essas responsabilidades, garantir que tá todo mundo bem, que tá vivendo bem, e que eu consiga tempo de qualidade com todo mundo, mesmo com os shows e entrevistas. Acho que esse é o homem que está por trás dessa grande diva, que sustenta toda essa história.” 

A ambivalência, que poderia ser um campo de batalha, se mostra, na verdade, um terreno fértil de apoio mútuo. “A Diva também ampara o Homem da Casa, porque ela lembra ele que, ok, tá muito lindo, muita responsabilidade, muitas coisas sérias, mas eu quero dar meu close, quero brincar, viver o mundo um pouquinho, vamos lá!”

E, para Gloria, é justamente o lado “Daniel CEO” que dá forma aos sonhos: “É ele quem materializa — quem pega o que estava no plano das ideias e transforma em realidade. O tal do sucesso, né? Tirar da imaginação… e suceder”, explica, entre risos.

O MENINO QUE SONHOU EM SER DRAG

Gloria Groove estampa a capa da Billboard Brasil (Rodolfo Magalhães)
Gloria Groove estampa a capa da Billboard Brasil (Rodolfo Magalhães)

Mas para entender a Gloria que assina o roteiro da própria vida é preciso voltar ao começo. À criança que olhava para o palco como quem vê um destino e que, desde cedo, aprendeu a lapidar sua vocação.

“Crescer sob os holofotes é uma loucura. E, ao mesmo tempo, uma maluquice que é impossível de evitar. Olhar pra câmera, segurar um microfone… Pra mim, essas coisas são tão vitais, tão parte da minha vida. Desde os 7 anos, quando saía da escola e comecei a frequentar o SBT, passando pela Band aos 10 anos, esses momentos são o meu cotidiano”, pontua. 

Daniel viveu a infância e adolescência em ambientes televisivos, dos shows de calouros até a participação na Turma do Balão Mágico. Amadureceu sua arte, emprestou a voz a personagens – um deles é o Doki do canal Nickelodeon, fez backing vocals, de tudo. Na vida adulta, a potência de sua drag nasceu da capacidade de nunca deixar de brincar, de se reinventar, e ser além do que os outros esperavam. 

Sonhou grande e transformou seu desejo em realidade: “Eu simplesmente pegava meu dinheiro de dublagem, ia lá e fazia meu acervo da Gloria Groove. E, quando chegou o momento de contar pra minha mãe, foi um dia muito importante.”

“‘Olha, eu tô fazendo isso, é isso que eu gosto de fazer, e eu acredito muito nisso’, eu falei”. E ela, mesmo que sem entender totalmente na hora, deixou claro que confiava. “Daniel é só mais um da multidão, mas eu vou fazer algo que vai se destacar e vai ter espaço”, garantiu. 

“Desde aquele primeiro passo, minha história se construiu com essa coragem de ser quem eu sou. Eu lembro do Pedro Luiz [marido], que está comigo há 10 anos, e de quando o conheci. Quando eu comecei a me montar, fazia meses, e eu falei pra ele na primeira vez: ‘Olha, eu faço drag, e quero que você saiba disso.’ Aquilo foi um ato de resistência, de afirmação: eu sabia que essa era a minha verdade, mesmo que, na época, fosse vista como uma loucura, uma ousadia.”

Dani relembra uma conversa com Ika Kadosh, uma das pioneiras da cena e a quem chama de mãe drag, ela falava: “Filha, na época que eu comecei a me montar, fazer drag era um suicídio social.” 

Apesar dos riscos, o jovem seguiu o impulso de romper barreiras, tendo como norte também outra referência fundamental. “RuPaul fala sobre se tornar a imagem que nasce na própria imaginação, uma das coisas mais poderosas que tenho”, compartilha sobre a importância da apresentadora estadunidense, cujo programa “RuPaul’s Drag Race” foi e é um catalisador para a cultura queer. 

Gloria rebentou como um anseio de multidões. E não demorou para que o artista reconhecesse o poder da própria obra: “Ela vive no imaginário popular das pessoas, pela força da imaginação no meu CPF. Definitivamente, está marcada na história. De repente, não necessariamente pelo que eu fiz, mas pelo jeito que as pessoas receberam.”

Inclusive, a caneta começa nesse momento: “Eu não tenho lembranças de querer escrever frases e rimas antes de ser drag. Não é à toa que “O Proceder”, meu primeiro álbum, tem aquela cara, tem aquela pegada. Porque a primeira Glória, o primeiro lugar onde eu entendi ‘é aqui que eu vou me libertar’ foi na rima, foi no rap, foi na construção de muitas barras, 16 barras, 32 barras. Eu cheguei no estúdio com vontade de botar pra fora, né? Nada melhor que eu ter a ferramenta do rap pra fazer isso.”

No percurso, se reconhece na força de mulheres que usam a palavra para se afirmar e transformar suas vivências em arte, como Lauryn Hill, Erykah Badu, Nicki Minaj, Karol Conká e Flora Matos.

“São figuras femininas que traziam o rap como uma ferramenta forte e muito presente, elas me empoderaram nesse sentido, porque mostraram que existia um jeito de eu usar o rap dentro da estética e da história que eu estava tentando contar. Como uma bicha afeminada, era normal que eu não sentisse que o rap era lugar pra mim”, conta, em tom confessional. 

Com essa nova habilidade, a persona artística passa a escrever a vida que quer viver: “Quando estou compondo, a excitação vem da sensação de já estar no futuro, sendo a minha melhor versão e dividindo aquele momento com o mundo. É como fantasiar o futuro e tentar capturá-lo numa imagem.”

O processo de criação é intuitivo, a partir de olhar e escuta atentos: “A direção pode ser uma palavra, um tema, uma poesia, um sample, um BPM ou uma nota de voz gravada no celular. Acredito que a primeira fagulha de uma canção que está querendo nascer pode começar por qualquer um destes ‘canais’”.

DE LADY LESTE PARA O MUNDO

A trajetória de Gloria Groove está marcada pelo território que a forjou e que ela chama de lar. “Lady Leste vai estar para sempre no meu coração, porque o que esse álbum representou pra mim, na verdade, é que eu tava finalmente colocando uma identidade extremamente minha dentro da minha música. Quando consegui construir esse conceito, Lady Leste, contando o lado verdadeiro de tudo que posso ser e que quero ser — meu lado da Vila Formosa, da Zona Leste, aquilo que nunca vou negar, que marca tudo na minha história — senti que tinha encontrado uma forma de reafirmar minha raiz.”

“Meu alter ego tem um alter ego. São muitas camadas, muitos desdobramentos “, brinca.

Lançado em 2022, com 13 faixas – incluindo sucessos como “Vermelho”, “Bonekinha” e a “Queda” – “Lady Leste” é um manifesto que une origem, potência pop e vanguarda. A obra marcou uma virada na carreira, consolidando Gloria como uma artista de relevância nacional — com fôlego para alcançar o mundo.

Antes disso, a popstar já vinha construindo sua trajetória com hits que mesclavam influências do R&B, do rap, do pop e da música brasileira. Seu disco de estreia, “O Proceder” (2017), mostra sua versatilidade. Em seguida, o EP “Affair” (2020) consolidou sua veia romântica em composições mais introspectivas, como “A Tua Voz” e “Suplicar”.

Em 2024, ela virou mais uma chave com “Serenata da GG”, uma label de pagode — com álbum ao vivo, lançado em dois volumes, e um repertório para rasgar os corações apaixonados. “Minha arte me provoca antes de provocar o outro. Eu não faço nada que não me tire do lugar. Gosto de sair da zona de conforto, de brincar com o novo”, resume.

“Serenata da GG” é isso: uma carta de amor à própria história — em voz alta, com harmonia, muito groove e coração.

AS MUITAS CAMADAS

Gloria Groove incorpora dandismo (Rodolfo Magalhães/Billboard Brasil)
Gloria Groove incorpora dandismo (Rodolfo Magalhães/Billboard Brasil)

Quem é Gloria Groove — e quantas camadas existem entre ela e Daniel? “São muitas pra contar!”, ri ao responder, mas logo mergulha fundo, e o que emerge é menos um número e mais uma consciência: a de que cada camada é translúcida, intransferível e reveladora. “Juntas, todas são fractais da minha alma”, revela. 

O fato é que de onde saiu Gloria, ainda há muito o que esperar. “Eu não limito as minhas possibilidades nem um pouco. Morro de vontade de voltar a atuar, de produzir músicas para outras pessoas… A Gloria foi um dos sonhos que tirei da minha pastinha, e ela acabou virando a minha vida inteira. Depois olhei pra dentro e pensei: o que mais será que tem guardado aqui?”

Nesse horizonte, o que move Daniel — e, por consequência, Gloria — é a busca por mais honestidade. E, pasmem, a emoção que ambos querem aprender a performar melhor é a audácia: “Tirar os filtros, apertar o botão do f*. Ser mais honesto comigo, com o que eu sinto, com o que eu desejo. Porque é quando falo de mim assim que crio um espelho — e seguro ele pra você se olhar também.”

A “instalação artística viva”, como se autodefiniu, certa vez em entrevista ao programa “Provoca”, com Marcelo Tas, alcançou o patamar de nada mais do que ser a drag queen mais ouvida do mundo, segundo dados do Spotify. 

Mas a ascensão teve um preço. Por muito tempo, aceitou agendas abarrotadas, maratonas exaustivas de compromissos, na tentativa constante de se provar. “Acho que o erro com o qual mais aprendi até hoje foi através da minha dificuldade de falar não. Eu aprendi que o ‘sim’ era um ‘sim’ pra mim”, avalia.

Especialmente sendo quem é: “A gente tem que se provar, tem que fazer três vezes melhor do que um artista hétero para garantir, para explicar que aquele espaço é digno…”

Talvez por isso, neste mês do Orgulho LGBTQIAP+, o orgulho venha com outro peso, outro calor. “Tá batendo diferente”, reflete. “É revolucionário sentir orgulho de absolutamente tudo que eu escolhi fazer. Do estilo de vida que levo, do jeito que decidi ser visto no mundo, da escolha de ser cada dia mais bicha. Isso é resposta e abraço pra minha criança. Tô vivendo o que prometi pra ela: que seria do nosso jeito, e do jeito que a gente quer brincar e ser feliz.”

A revolução, no entanto, não acontece só no palco. Também mora no silêncio, no intervalo, na vida comum do Daniel, respirando entre um projeto e outro. “Por muito tempo, achei que só merecia ser vista se estivesse fazendo algo espetacular. Mas hoje entendo: viver esperando o extraordinário me afastava do que há de mais poderoso — o ordinário. O ordinário é o Dani, com cueca larga, chinelo, essa vivência que eu busco agora nos lugares onde eu consigo ter essa tranquilidade. É o ócio criativo, o tempo de processar, de reconectar”, avalia. 

Nessa reconexão, a espiritualidade virou escudo e amuleto. “Antes de entrar no palco, faço uma oração, falo com a minha essência, com meu eu mais profundo. Peço pra entrar sem medo, sem vergonha, sem impedimentos. E pra me divertir de verdade. Quando isso acontece, tudo flui.”

E como flui, feito um eterno brincante que ainda promete grandes voos: “O mundo pode esperar de Gloria Groove uma grande aventura dentro da indústria fonográfica. Eu não parei de brincar de boneca ainda. E quando eu era criança era superpolêmico brincar de boneca, porque era um brinquedo de menina, segundo o que falavam para mim. E hoje eu brinco em larga escala, na frente do mundo todo. E é isso que faz as pessoas irem na minha onda. Então eu quero brincar mais de boneca. Preciso de mais um tempinho…”

Pausa e apelo: “Mãe, deixa eu brincar mais um pouquinho?”

Difícil dizer não. Mais difícil ainda é não aceitar o convite — porque, no fundo, a brincadeira parece estar só começando.

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