Dominguinhos, o eterno sanfoneiro que nos deixou há exatos 12 anos, compôs o clássico “Eu Só Quero Um Xodó” em cinco minutos, assoviando pela Amaral Gurgel. Anastácia escreveu a letra na hora. Gilberto Gil levou o xote ao MIDEM, na França, e o mundo se apaixonou.
Mas para entender como isso aconteceu, é preciso voltar um pouco… com o relato de Ruy Godinho, extraído da coleção “Então, Foi Assim?”, escrita por ele.
A entidade chamada Dominguinhos
Quando eu crescer, quero ter a humildade, a sensibilidade e a doçura dessa entidade da música brasileira que é Dominguinhos. Desde sempre ele tem um canal aberto com as forças criativas do Universo, que lhe permitem fazer refinadas melodias sem precisar necessariamente de uma emoção forte, seja positiva ou negativa, ou de uma situação relevante, que o faça suspirar, parar tudo e começar a compor.
Três canções, uma assinatura
Quem conhece “Xote de Navegação”, com Chico Buarque:
“Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo o afazer
Me pego em sonho a navegar…”
Ou “Retrato da Vida”, com Djavan:
“Esse matagal sem fim
Essa estrada, esse rio seco
Essa dor que mora em mim
Não descansa e nem dorme cedo
O retrato da minha vida
É amar em segredo…”
Ou ainda “De Volta Pro Aconchego”, com Nando Cordel, há de concordar comigo:
“Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo
Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade…”
Ainda mais quando essas delicadas e belas melodias recebem letras poéticas e profundas, como as aqui apresentadas. “De Volta Pro Aconchego” tem a história contada em outro capítulo deste livro (“Então, Foi Assim?”), e dispensa, assim, mais comentários.
A fita guardada por 15 anos
Sobre as demais, faço questão de compartilhar as observações de Dominguinhos:
“Uma vez eu estava na Polygram, gravando com o Chico Buarque. Eu estava com a sanfona na mão e disse brincando: ‘Vamos fazer uma música, Chico’. Aí ele disse: ‘Eu não sou a Anastácia, não’. Ele não quer assinar qualquer coisa que saia na hora. ‘Xote de Navegação’, eu dei uma fitinha cassete e ele levou 15 anos para botar uma letra. Ele me disse que eu tinha mandado a fitinha do Maranhão e eu nem me lembrava mais. Eu achei muito interessante. Ele guardou uma fita durante 15 anos. Ele é muito organizado”, revela Dominguinhos.
Além de organizado, sortudo, respondi a Dominguinhos. O poeta e compositor Climério, que nos acompanhava, também se manifestou:
“Essa parceria do Chico com Dominguinhos tinha que sair, enfrentou até o tempo.”
Ao que Dominguinhos complementou:
“Eu acho que ele tinha guardado a fita num lugarzinho que não entrava umidade.”
Certamente.
O carnaval com Djavan
“Para o Djavan também eu mandei um bocado de músicas e ele acabou fazendo o Retrato da Vida. Ele levou dois anos pra fazer, quer dizer, fez dois anos depois de ter recebido a fita. Eu encontrei com ele num carnaval que nós fizemos em Salvador, junto com Gil, Lulu Santos, Caetano e todo o pessoal da Tropicália. Ele disse: ‘Liga pra mim, a música já está pronta’. Quando ouvi, ele já estava cantando muito bonito, bem contrito, sério, sem trejeitos [risos], porque não cabia mesmo; ficou bom”, conta o sanfoneiro.
A primeira parceria foi clandestina
Dominguinhos compõe música instrumental desde menino. Sem parceiros.
“A minha vida como compositor começou em 1964, quando eu gravei o primeiro disco. Mas eu já tinha muita música feita. Muita música mesmo. Eu era só instrumentista, não gostava de cantar. Foi gravado num acetato pela Rosenblit. Minha mãe guardou o disco por muito tempo. Depois deu uma enchente em Nova Iguaçu que levou muita coisa, inclusive, essa relíquia”, lembra.
Os parceiros foram admitidos mais tarde. As parceiras, inicialmente.
“Até que numa viagem que eu fiz com a Anastácia, entre 1967 e 68, em caravana artística com Luiz Gonzaga, eu estava fazendo uma música no quarto vizinho ao dela. Ela ficou ouvindo e botou uma letra sem eu saber. Foi a primeira vez que eu fiz uma parceria com alguém botando uma letra numa música minha. A culpada é a Anastácia” — com quem se casaria mais tarde.
Cinco minutos, um xodó
Depois dessa, vieram dezenas de outras, entre elas Contrato de Separação, Tenho Sede e Eu Só Quero Um Xodó, destaque deste capítulo.
“Só Quero Um Xodó foi feita em 1971, 72, para a Marinês gravar em ritmo de arrasta-pé. Foi feita em 5 minutos, em São Paulo. Eu a fiz assoviando e a Anastácia botou a letra na mesma hora. Eu vinha caminhando pela Amaral Gurgel, em direção ao apartamento dela. Aí eu cheguei e disse: ‘Olha Anastácia, saiu um negocinho aqui’. Peguei a sanfona e toquei pra ela. Eu não tinha intenção de fazer música sobre xodó. Ela ouviu e escreveu a letra na hora”, afirma Dominguinhos, revelando a simplicidade de seu processo criativo.
Gilberto Gil e o xote-reggae no MIDEM
“Eu fui ensaiar com o Gilberto Gil, para uma apresentação no MIDEM, na França. Nos ensaios, deu vontade de ele cantar a música. Gil aprendeu e imprimiu um ritmo de xote, meio reggae, do jeito dele – que o violão dá essa facilidade. Aí pronto. Ele começou a cantar a música em seus shows. Chegou ao MIDEM e cantou também. Os americanos que estavam lá ficaram muito interessados e queriam ouvi-lo cantar, todo alegre e tal”, relembra Dominguinhos das proezas de Gilberto Gil, seu parceiro em Lamento Sertanejo e Abri a Porta.
Quem já gravou
Eu Só Quero Um Xodó foi gravada originalmente por Marinês, no LP Só Pra Machucar (1973); por Gilberto Gil em Refestança – Gilberto Gil/Rita Lee Ao Vivo (1977), Personalidade (1987), Cidade de Salvador (1998) e São João Vivo! (2001); por Os Mulheres Negras, no LP Música Serve Pra Isso (1990); por Eliete Negreiros, no CD 16 Canções de Tamanha Ingenuidade (1995); pela banda Karnak, no CD Universo Umbigo (1997); por Paula Toller, no CD Paula Toller (1998); por Dominguinhos, no CD homônimo (2000) e no projeto A Música Brasileira Deste Século Por Seus Autores e Intérpretes (2001).
Mas a gravação que a projetou nacionalmente foi, sem dúvida, a do poeta, cantor e compositor baiano Gilberto Gil.
EU SÓ QUERO UM XODÓ
(Dominguinhos/Anastácia)
“Que falta eu sinto de um bem
Que falta me faz um xodó
Mas como eu não tenho ninguém
Eu levo a vida assim tão só
Eu só quero um amor
Que acabe o meu sofrer
Um xodó pra mim do meu jeito assim
Que alegre o meu viver”
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Ruy Godinho é paraense, nascido em Belém e renascido em Brasília. Pesquisador, radialista, escritor, produtor multimídia. Autor da série de livros “Então, Foi Assim? – Os bastidores da criação musical brasileira”, com cinco volumes lançados.








